Lá se vão 11 anos desde que Karim Benzema deixou o Lyon como um jogador bastante promissor, aos 21 anos, para se consolidar com a camisa do Real Madrid. O atacante é parte inescapável de todos os sucessos que os merengues tiveram neste período. Titular absoluto na maior parte do tempo, após vencer sua disputa inicial com Gonzalo Higuaín pela posição, o francês enfileira em sua galeria 18 taças pelo clube – com destaque às quatro Champions. Ainda assim, o camisa 9 merecia uma campanha que realmente retratasse sua importância à história merengue. Será lembrado desta forma por La Liga 2019/20, uma conquista conduzida no talento do artilheiro e que, em seu desfecho contra o Villarreal, também contou com uma atuação decisiva do principal nome da caminhada.

Benzema tem seu lugar entre os maiores atacantes da história do Real Madrid, isso não há dúvidas. Os próprios números referendam seu posto no hall da fama dos merengues. Tornou-se recentemente o quinto maior artilheiro do clube, superando ninguém menos que Ferenc Puskás. São 248 gols em 511 partidas, com uma média que supera mesmo alguns que seguem à sua frente, como Raúl e Santillana. Tende a escalar ainda mais alguns degraus nesta lista, se continuar atuando em alto nível além de seus atuais 32 anos. Mas faltava aquela campanha inesquecível do francês.

Ao longo dos anos, Benzema se acostumou a permanecer como um escudeiro a Cristiano Ronaldo no Real Madrid. E cumpria de maneira excelente este papel, ao abrir espaços e jogar para o time. Poucos centroavantes no futebol puderam ser tão abnegados quanto o francês, que ainda assim possuía a sua fatia nos gols e nas assistências de uma equipe bastante produtiva ofensivamente. Entre redes balançadas e passes decisivos, Benzema sempre se manteve acima dos 15 tentos proporcionados por edição de La Liga – exceção feita ao seu primeiro ano, quando ainda buscava o seu espaço. A regularidade do camisa 9 era considerável, assim como o fato de dificilmente se lesionar contribuía bastante.

O Benzema quatro vezes vencedor da Champions League é o melhor exemplo deste jogador coletivo. Ao longo das campanhas, o centroavante sempre ficou à sombra de outros companheiros – principalmente de Cristiano Ronaldo, mas também de nomes como Gareth Bale e Ángel Di María, que desequilibraram nas finais. Mas não que seus momentos de protagonismo não tenham existido, como nas semifinais contra o Bayern em 2018 ou na mesma fase diante do Atlético de Madrid em 2017. Entretanto, a quem muitas vezes se atinha a trabalhar pelo funcionamento da equipe, a falta de estrelato gerava cobranças quando nem tudo dava certo. Neste sentido, Zidane foi importante em sua primeira passagem ao bancar o compatriota, principalmente quando ele dava alguns sinais de declínio.

 

A saída de Cristiano Ronaldo, de certa maneira, fez bem a Benzema. Afinal, assumindo o fardo como principal nome no ataque, o camisa 9 pôde apresentar mais o seu valor. E se redefiniu como um centroavante completo, que assumiu mais vezes o papel decisivo, mas sem deixar de contribuir para outros companheiros aparecerem. Só que, em tempos nos quais o Real Madrid vive uma reformulação, as aparições salvadoras do francês precisaram se tornar mesmo mais frequentes. Já tinha sido a grande figura da equipe em 2018/19, quando os merengues não ficaram com a taça de La Liga. Agora, junta o protagonismo com o troféu.

Os números de Benzema nesta temporada são ligeiramente superiores ao da campanha anterior. Com os mesmos 36 jogos, contabiliza também 21 gols em ambos os anos, mas uma assistência a mais com as oito atuais. Em compensação, o peso decisivo acaba sendo maior: 16 das 26 vitórias na atual temporada tiveram contribuição direta do centroavante nos tentos. Foi ele quem sustentou o início dos merengues no campeonato, mesmo com tropeços frequentes que não transmitiam confiança. E, apesar de uma certa queda na virada do ano, o artilheiro voltou a se destacar especialmente nesta sequência de 10 triunfos desde a retomada do torneio. As melhores atuações do Real foram também as melhores de Benzema, por mais que o time não tenha sido brilhante como um todo.

E o mais interessante em notar a forma como Benzema se tornou preponderante não está em seus gols ou em suas assistências. Em minutos, esta é a edição do Campeonato Espanhol na qual o francês mais esteve presente. Nas nove temporadas anteriores, o atacante disputou em média 2.040 minutos por edição de La Liga. Em 2018/19, superou pela primeira vez a marca dos 2.900 minutos. Nesta, já acumula 3.095 minutos com a equipe, faltando ainda uma rodada. Obviamente, conta o fato de não possuir um reserva exatamente confiável a seu posto. Mas também indica a necessidade de seguir em campo para resolver os jogos ao time.

Somente Benzema não explica esse título do Real Madrid, cabe deixar claro. O crescimento da equipe se valeu por outros dois fatores: a segurança na defesa e o acerto no meio de campo. O primeiro passo a Zidane nesta temporada foi encontrar a formação ideal em sua faixa central. Isso passa muito pela ascensão de Federico Valverde, adicionando dinamismo ao setor, mas não apenas. Casemiro também fez aquela que pode ser considerada sua melhor temporada no clube, com um primeiro turno fantástico. Toni Kroos decidiu jogos com frequência, mais solto para rondar a área. E a boa notícia ficou para a recuperação de Luka Modric, depois de um ano abaixo das expectativas, especialmente pela aura que se criou com a Copa do Mundo. Voltou a ser o ritmista dos merengues.

Já a defesa segurou as pontas quando o time realmente emendou uma boa sequência na virada do ano – e quando Benzema não pôde ser tão efetivo. Courtois se achou no Bernabéu, com uma série de grandes atuações, talvez em sua melhor forma desde que deixou o Atlético de Madrid. Raphaël Varane é outro jogador mais silencioso que deveria, mas muito regular. Ferland Mendy tomou conta da lateral e Marcelo teve seus lampejos depois de momentos ruins. E o grande “concorrente” de Benzema ao posto de principal jogador deste time campeão foi Sergio Ramos, decisivo pelos pênaltis convertidos, mas também pela maneira como toma conta da área. Mais um que exibiu o seu melhor.

Este foi um Campeonato Espanhol de transição, no qual nenhum dos favoritos exibiu seu melhor futebol. A série de vitórias do Real Madrid nesta retomada, em partes, é até um pouco enganosa ao indicar um rendimento maior do que se viu no todo. Os merengues seguem em seu processo de reformulação e um dos pontos é realmente tornar seu ataque mais avassalador, atualmente sem uma linha ofensiva definida. Os problemas foram inúmeros, entre as dificuldades de Hazard, a lesão de Asensio, a adaptação de Rodrygo, a volta por cima de Vinícius, o baixo rendimento de Jovic ou os inúmeros casos criados por Bale. Um Real Madrid mais reluzente, e mais condizente à própria história do clube, passa por uma evolução ali.

Nenhum outro atacante do Real Madrid passou dos 1.300 minutos em campo no Campeonato Espanhol e nenhum outro atacante do Real Madrid fez mais do que três gols na campanha – e, se somarmos as assistências, Hazard chega ao teto de sete tentos com contribuição direta. Até por isso, Benzema bateu no peito e se tornou onipresente. Definiu com qualidade, garantiu presença de área, movimentou-se para abrir espaços a quem vinha de trás, criou tabelas, deu dribles para romper as marcações e não fugiu da raia. Foi aquele trabalhador, mas de modo imprescindível. Os merengues ganharam com isso.

Este não vai ser o Campeonato Espanhol mais celebrado pelo Real Madrid, sobretudo pelo contexto geral de pouco brilho. Mas é um título legítimo, em uma competição na qual os madridistas precisam se impor com mais frequência para fazer jus a essa grandeza. E quem facilitou a comemoração foi Benzema, está gravado. De coadjuvante em outros tempos, virou um protagonista até improvável nesta nova era, quando muito mais se esperava dos jogadores que vieram por dezenas de milhões de euros. Não deve se manter neste posto por muito tempo, até pela idade. Mas tranquiliza o processo de renovação interna com a garotada lapidada pelos merengues e reforça sua própria história com a camisa branca.