Em 13 de maio de 1888, a escravatura foi oficialmente abolida no Brasil com a assinatura da Lei Áurea. O momento foi mais simbólico do que qualquer coisa, afinal o processo de inserção do negro na sociedade brasileira foi muito mal conduzido, com reflexos até os dias de hoje. De qualquer forma, a data é motivo suficiente para lembrarmos como a estupidez das pessoas que comandavam nosso futebol privou o Brasil de um time talentoso, e de como o abandono do pensamento retrógrado trouxe bons frutos para a seleção brasileira logo em seguida.

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A Seleção vivia ainda seus primeiros anos. Em 1919, em sua terceira participação no Campeonato Sul-Americano , havia vencido a competição pela primeira vez, no Rio de Janeiro. A empreitada na quarta edição do torneio, no Chile, não teve sucesso, e a equipe deixou o país apenas com derrotas, inclusive uma por 6 a 0 para o Uruguai, maior goleada sofrida até o 7 a 1 do ano passado. Antes do retorno ao Brasil, passou pela Argentina para um amistoso e foi recebida com uma charge ofensiva do jornal “Crítica”, que representava os integrantes da delegação brasileira como macacos. Capitão da equipe brasileira, Sisson promoveu o boicote do jogo, que não se realizou. Ainda assim, Oswaldo Gomes, chefe da delegação, conseguiu improvisar um time com sete atletas e disputou a pelada com os argentinos, que venceram por 3 a 1.

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Em nosso país, o desenho do periódico argentino foi rebatido por Lima Barreto com uma crônica contundente. Nela, rechaçando o racismo dos argentinos, o escritor tentou ressignificar o termo “macaco”. O fato de que quase cem anos depois ninguém teve sucesso nisso, aliás, é a prova de que essa é uma das palavras que não são passíveis de ressignificação.

“Precisamos nos convencer de que não há nenhum insulto em chamar-nos de macacos. O macaco, segundo os zoologistas, é um dos mais adiantados exemplares da vida animal; e há mesmo competências que o fazem, senão pai, pelo menos primo do homem. Tão digno ‘totem’ não nos pode causar vergonha”, diz um dos trechos da crônica, publicada mais recentemente no livro “Lima Barreto: Antologia de Crônicas”, da Lazuli Editora.

A indignação que tomou conta do autor, no entanto, não foi compartilhada por Epitácio Pessoa, presidente da república na época. No ano seguinte, pelo fato de o Sul-Americano ser disputado em solo argentino, o político se reuniu com diretores da CBD para pedir que apenas jogadores de pele mais clara e cabelos lisos fossem convocados.  “Os senhores absolutos do esporte, num golpe reprovável, sem base, anti-esportivo, excluem do quadro nacional (…) os negros e mulatos”, publicou O País, em 17 de setembro de 1921. Apesar de Pessoa ter negado publicamente que tenha feito tal pedido, o corte de Luís Antônio da Guia, irmão de Domingos da Guia, foi a primeira prova da veracidade da história, confirmada com a equipe sem nenhum negro ou mulato que representou o Brasil —  e que foi eliminada perdendo dois dos três jogos que disputou.

Para a disputa do Campeonato Sul-Americano de 1922, disputado no país em comemoração ao centenário da Independência, a regra estúpida que um ano antes limitara o potencial brasileiro já havia chegado ao fim, e os negros e mulatos voltaram a ter seu espaço na Seleção. O fim do litígio entre a CBD e a APSA (entidade de futebol de São Paulo da época) também reforçou o escrete canarinho, que voltava a contar, por exemplo, com o mulato Friendenreich. O craque se lesionou logo na primeira partida, um 1 a 1 com o Chile, e a insistência em utilizá-lo no terceiro jogo, contra o Uruguai, em que o Brasil precisava de uma combinação de resultados para seguir vivo, fez o time atuar com um El Tigre sem condições de jogo – e sem poder substitui-lo, afinal a troca de jogadores não era permitida na época.

A vitória por 2 a 0 contra a Argentina, na última partida, deixou os brasileiros empatados com Paraguai e Uruguai. Revoltada com a arbitragem do brasileiro Affonso de Castro, cujo trabalho influenciou o triunfo por 1 a 0 dos paraguaios sobre os uruguaios, a Celeste retirou-se da competição, e Brasil e Paraguai foram para o duelo de desempate, vencido por 3 a 0 pela seleção brasileira. Dentre os destaques, o mulato Tatu, do Corinthians.

Os jogadores negros ainda enfrentaram muitos obstáculos no futebol brasileiro depois desse incidente da convocação de um elenco completamente branco. Apenas na década seguinte, mais especificamente em 1933, com o surgimento do profissionalismo no futebol brasileiro, é que os negros tiveram um salto significativo em sua representação nos clubes, por exemplo. Ainda assim, a conquista do Sul-Americano de 1922 logo após o fracasso de um time eugenizado foi a prova de que com um pensamento tão tacanho e discriminatório a Seleção não teria sucesso. Não sumia ali o racismo no futebol brasileiro, claro, mas pelo menos o preconceito explícito e oficioso não teve mais reverberação na equipe.

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