O Timor Leste faz mero papel de figurante nas Eliminatórias da Ásia para a Copa de 2018. O país ocupa a lanterna de seu grupo, com apenas dois empates e três derrotas em cinco jogos. A mera presença na segunda fase do torneio já é um feito e tanto para a novata seleção, formada em 2003. No entanto, não dá para cravar que a classificação inédita marque uma evolução do futebol local. A melhora da equipe é um fato, mas forjado pelas circunstâncias. Se o Brasil teve grande papel em ajudar na independência do Timor Leste, especialmente nas missões de paz coordenadas pela ONU, também se faz presente na melhora dos resultados da seleção local.

Basta olhar para o elenco de Timor Leste que entrou em campo nesta última Data Fifa. Entre os convocáveis, três jogadores que atuam no futebol brasileiro: Diogo Rangel, do Bragantino; Juninho, do Avaí; e Jairo Neto, da Cabofriense. Isso sem contar outros quatro brasileiros de nascimento que também defendem a equipe asiática. No elenco preliminar para os compromissos contra Palestina e Malásia, foram 13 brasileiros convocados. O mais conhecido deles era Thiago Cunha, de breve passagem pelo Palmeiras entre 2008 e 2009.

Contudo, não dá para dizer que todos esses jogadores têm raízes profundas na nação de 1,2 milhão de habitantes. Muito pelo contrário. Em comum, está apenas o fato de que a maioria rodou por clubes do sudeste asiático (e não necessariamente do Timor Leste) nos últimos anos. A naturalização massiva surge mais como uma estratégia da federação local para tentar melhorar os resultados da seleção. De fato, o time subiu 60 posições no Ranking da Fifa em junho. Mas não de uma maneira que agrade os envolvidos com o desenvolvimento do futebol timorense.

“Os jogadores brasileiros só vem para cá passar um dia e recebem o passaporte, que os permite jogar pela seleção local. Pedimos para essa questão ser investigada pelo procurador-geral do país e pelo ministro da justiça, mas não tivemos nenhum progresso significativo”, afirmou José Luis de Oliveira, organizador do grupo Amantes da Bola, em entrevista ao The New York Times. Além de não proporcionar vitórias contra equipes médias da Ásia, a vinda de tantos jogadores brasileiros também atravanca as oportunidades para os atletas locais.

Segundo o atacante Patrick Fabiano, que passou pela base do Guarani e desde 2007 atua fora do país, a estratégia de recrutamento da federação do Timor Leste varia bastante. Vão desde a relação com o treinador a convites de terceiros, envolvidos com os dirigentes. “Para mim, eles disseram: ‘Damos o passaporte, você joga para nós. Gostamos do seu estilo de jogo, precisamos de um atacante como você’”, contou Patrick Fabiano. Assim como ele, vários outros aceitaram o processo de naturalização acelerada. Caso, por exemplo, também de Diogo Rangel.

timor

A legislação de Timor Leste é bastante ampla quanto à naturalização. Segundo a Lei de Nacionalidade aprovada pelo parlamento nacional, o cidadão precisa residir habitualmente no país a partir do dia 20 de maio de 2002, além de falar uma das línguas oficiais. Provando a residência, a língua não se torna mais barreira para os brasileiros. Além disso, o Artigo 13º dá salvo conduto ao que costuma ser feito, afirmando que “o Parlamento Nacional pode conceder a nacionalidade timorense ao cidadão estrangeiro que tenha prestado altos e relevantes serviços ao país”. Ou, no caso da seleção, que ainda vai prestar.

O problema maior está justamente sobre a maneira como esta naturalização se encaixa perante a Fifa. Segundo as regras da entidade, a partir dos 18 anos de idade, um jogador precisa ter vivido por pelo menos cinco anos no novo país para solicitar a mudança de nacionalidade. Além, é claro, se tiver alguma ligação familiar com o país de destino. O que não é o caso da maioria absoluta dos brasileiros que defendem a seleção timorense. Parecido com a naturalização massiva que aconteceu em Guiné Equatorial às vésperas da realização da Copa Africana de 2012 no país. A Fifa aumentou o cerco sobre o país, acusado de “contratar” os jogadores, e nos últimos meses apenas os estrangeiros com laços sanguíneos são convocados.

Em contrapartida, a AFC reafirma a legalidade dos jogadores de Timor Leste, afirmando que as documentações de todos os brasileiros naturalizados foram verificadas. Mesmo as suspeitas de que os jogadores são pagos para aceitar o processo de mudança não têm evidências suficientes. Enquanto isso, a maior pressão contra os estrangeiros é feita pela própria torcida timorense, que também desaprova a iniciativa da federação. Prova maior disso veio com a derrota para a Arábia Saudita em setembro, com uma acachapante goleada por 7 a 0 em Jeddah. Para diminuir as acusações, motivos de protestos no país em junho, boa parte dos brasileiros acabou de fora do jogo. A humilhação aconteceu, mas ao menos os timorenses estiveram em campo. Algo que não pode se afirmar nas maiores vitórias.