Há 25 anos, um rastro de esperança surgiu na Bósnia. Entre os dias 29 de fevereiro e 1° de março de 1992, a população local foi chamada para comparecer às urnas e votar um referendo sobre a independência do país, ainda parte da Iugoslávia. “Você é a favor de uma Bósnia-Herzegovina soberana e independente, um estado de cidadãos iguais e nação de bosníacos, sérvios, croatas e outros que vivem nele?”, dizia a pergunta. Seguindo os exemplos de Croácia e Eslovênia, o “sim” venceu com 99,7% dos votos, ainda que apenas bosníacos e croatas tenham ido em massa às urnas – o boicote sérvio preponderou principalmente em cidades menores, inclusive com autoridades sérvias impedindo o comparecimento.

Como se sabe, a independência da Bósnia não foi apenas uma questão de querer, por mais que tenha recebido o reconhecimento da União Europeia em abril. Naquele mesmo mês, a partir de retaliações militares sérvias, iniciou-se uma das guerras mais sangrentas da história contemporânea – em horror que incluiu a destruição indiscriminada de cidades, o ataque a civis e a busca por uma limpeza étnica. Foram três anos de barbárie, com cerca de 100 mil mortos e dois milhões de desabrigados. O cessar-fogo só foi assinado por sérvios, croatas e bosníacos em dezembro de 1995, com o chamado Tratado de Dayton. Ainda assim, as cicatrizes são profundas, em um país que lida diariamente com a conciliação entre seus três principais grupos étnicos.

VEJA TAMBÉM: Como a Copa está transformando a Bósnia em um país só

Neste contexto, o futebol representa um elemento importante. Se a classificação à Copa do Mundo de 2014, enfim, marcou a celebração de uma nação conciliada, ele ofereceu também um refúgio durante os anos mais pesados da guerra. Muitos garotos encontraram na bola uma maneira de refazer a vida, dentro ou fora do território bósnio. O elenco que veio ao Brasil há dois anos, aliás, é um exemplo – colocando lado a lado expatriados, como Miralem Pjanic, e sobreviventes, a exemplo de Edin Dzeko. Em Sarajevo, existe mesmo o belíssimo exemplo de Predrag Pasic. O atacante que disputou a Copa do Mundo de 1982 pela Iugoslávia, já aposentado na época do conflito, preferiu seguir na cidade cercada para auxiliar crianças com sua escolinha de futebol.

E, enquanto muitos sofriam em casa, houve quem levasse a bandeira da independência a diversas partes do mundo durante a guerra. Clube no qual Pasic surgiu, o FK Sarajevo era a principal força bósnia no antigo Campeonato Iugoslavo. Conquistou o título nacional duas vezes, faturou duas vezes a copa, participava frequentemente das competições europeias. Manteve-se como principal representante do orgulho bósnio, mesmo enquanto a tragédia se perpetuava. Para isso, encontrou uma maneira diferente de defender a causa.

VEJA TAMBÉM: Um gol e a Copa fez a Bósnia voltar a explodir com ainda mais força

Tudo começou em meados de 1992, quando o FK Sarajevo disputou um amistoso contra soldados da ONU presentes na Bósnia-Herzegovina. O evento chamou atenção da população local e semeou uma ideia: o time poderia usar o futebol para levar a realidade dolorosa de seu povo a outros países e, assim, conseguir ajuda humanitária. Alguns jogadores, inclusive, já estavam lutando no conflito. O plano ganhou adesão dos futebolistas, bosníacos e bósnios-croatas, assim como do técnico Fuad Muzurovic. Porém, deixar Sarajevo não seria uma questão simples. A cidade já estava cercada por forças sérvias desde abril de 1992. Seria necessário colocar a vida em risco para fugir.

A partir de 22 de fevereiro de 1993, o ato heroico aconteceu. O elenco se dividiu em quatro grupos de sete jogadores, sempre protegidos por um oficial bósnio. Precisavam atravessar uma área cercada por atiradores sérvios, prontos para matar, até chegar ao Aeroporto Internacional de Sarajevo, considerado uma área livre. O preparo físico dos atletas ajudou, e muito, na conquista do objetivo e na preservação de suas vidas, esgueirando-se em meio à neve que tomava o ambiente. Embora estivessem fora de competições oficiais, com a desintegração do Campeonato Iugoslavo, eles mantinham a forma treinando juntos, em uma quadra de basquete. Símbolo de amor ao esporte que, no fim das contas, também representou muito ao país.

VEJA TAMBÉM: Pjanic, que nunca estaria na Copa sem a Bósnia, foi quem mais honrou o país

“Nós nos ajoelhamos em frente ao aeroporto, fora da vista dos atiradores, então o oficial que nos acompanhava disse: ‘Corram o máximo que puderem’. Percorremos 200 metros com nossas malas nas costas, sem poder parar”, relembra Muzurovic, em entrevista à Sports Illustrated. Segundo o treinador, seu grupo foi alvejado, mas sem que ninguém fosse atingido. Depois, ainda teriam que passar pelas tropas da ONU, que tentavam evitar o trânsito de pessoas de uma área para outra. “Eles tinham um tanque com holofotes. Quando vimos a luz, viramos o corpo e fizemos com que parecesse que estávamos correndo do território livre à cidade. Deitamos no chão, as forças da ONU nos colocaram em um transportador e nos levaram para fora da cidade, de onde parecia que estávamos vindo. Foi o nosso jeito de enganá-los”.

sarajevo

Após quatro noites, o FK Sarajevo se reuniu no território livre. Os membros da equipe atravessaram montanhas em meio ao fim do inverno, se escondendo das tropas sérvias e pegando carona em um caminhão frigorífico. Antes de 1° de março, no aniversário do referendo, chegaram a Zagreb. Na capital croata, receberam a ajuda de Miroslav Blazevic, bósnio que presidia o Dinamo Zagreb. A partir de então, iniciou-se a jornada que incluiu 54 partidas em 17 países. Os bósnios disputaram amistosos contra o próprio Dinamo e o Hajduk Split, antes de viajarem à Eslovênia, onde tiveram quatro jogos cancelados. Na sequência, rumaram à Turquia, ajudados por Fahrudin Omerović, goleiro da seleção iugoslava na Copa de 1990.

VEJA TAMBÉM: Seleção da Bósnia levou 20 mil torcedores a amistoso. Mas não em casa, e sim em Viena

A turnê se desdobrou principalmente em países asiáticos, sobretudo muçulmanos, e europeus. Em Teerã, o FK Sarajevo chegou a vencer a seleção iraniana e ganhou as congratulações do presidente. Fizeram outra partida significativa contra o Parma, enquanto o elenco foi recebido no Vaticano pelo Papa João Paulo II. A última etapa da viagem aconteceu na Alemanha, duelando contra Kaiserslautern, Kickers Offenbach, Eintracht Frankfurt e Werder Bremen. Neste tempo, arrecadaram fundos para ajudar a população e conscientizaram milhões de pessoas sobre a situação grave ocorrida no país.

Ao final de 1994, a jornada se encerrou de volta a Sarajevo. No primeiro jogo disputado no Estádio Olímpico em dois anos, os heróis venceram o time formado por soldados da ONU por 4 a 1. Naquela temporada, o Campeonato Bósnio também teve sua primeira edição, dividido em regiões, e o FK Sarajevo acabou com o vice-campeonato. Os horrores da guerra já estavam chegando ao fim. Em novembro de 1995, o clube serviu de base à seleção da Bósnia-Herzegovina em seu primeiro amistoso oficial, contra a Albânia, e alguns dos jogadores presentes na turnê foram convocados. Com a paz restabelecida gradativamente, a equipe conquistou o título nacional duas vezes, a última delas em 2014/15. Conquista inigualável, porém, é aquela representativa aos torcedores de todas as equipes bósnias, assim como àqueles que sequer se importam com futebol.