O Tigres faz do ímpeto a sua virtude rumo à final e arruína o Inter na própria impotência

A vitória por 3 a 1 ficou até barata aos colorados, tanto pelos méritos dos mexicanos quanto por seus muitos erros

Quando o Tigres resolveu sacudir o mercado durante a Copa América, muitos permaneceram céticos sobre os resultados imediatos. Gignac poderia até ser um bom nome na França, mas não parecia nada fora de série. Mesmo Aquino, Damm e outros reforços talvez não fossem encaixados a tempos no time que já fazia boa Libertadores. Entretanto, os felinos cumpriram as expectativas dos mais otimistas. E com uma atuação grandiosa, colocaram o Internacional na roda dentro do Estádio Universitário de Nuevo León. O placar terminou em 3 a 1, mas não seria exagero se ficasse em quatro ou cinco. Por tudo o que não jogaram, os colorados deram sorte de manter a esperança até o último instante.

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Valorizando a Libertadores como poucas vezes se viu acima do Canal do Panamá, o Tigres é o terceiro mexicano a chegar à final do torneio continental. E não parece se incomodar pelo fato de que nem ao Mundial vai. Os felinos querem aquele que pode ser o título mais importante do futebol mexicano. E apresentam credenciais para tanto diante do River Plate. Enquanto isso, o Internacional observará tudo de longe. A impotência na visita a Monterrey arruinou a boa campanha, que já teve gosto amargo pelo gol sofrido e por outros desperdiçados na vitória por 2 a 1 em Porto Alegre. Só que os problemas, neste momento, não se limitam mais apenas à eliminação tão perto da final.

Quando entrou em campo, o Inter talvez já imaginasse uma grande pressão em “El Volcán”, no estádio no qual a média de público chega a 40 mil, com 95% de ocupação o ano todo. Mas talvez não nas proporções como aconteceu. A torcida do Tigres assumiu para si a ideia de ser “o México na Libertadores”. Antes do confronto, além das tradicionais cores, a festa dentro do estádio contou com um enorme bandeirão do país no centro das arquibancadas. E, após o hino nacional, dezenas de bexigas tricolores (em vermelho, verde e branco) tomaram os céus de Nuevo Léon. Para, aí sim, começar o ambiente intimidador. Os auriazuis começaram a gritar forte por seu time, enquanto vaiavam os visitantes.

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Durante os primeiros minutos do confronto, o Inter não se saiu tão mal. O Tigres tinha mais posse de bola, embora os colorados pressionassem bastante a saída em seu campo de ataque e atrapalhassem o adversário. A intensidade que o time de Diego Aguirre costuma impor logo de cara em seus “dias bons”. D’Alessandro chegou mesmo a ter boa chance em cobrança de falta na risca da grande área, que acabou desviada pela barreira. Contudo, a impressão razoável dos visitantes durou somente 18 minutos. O tempo do primeiro gol dos felinos.

Gignac aparecia muito bem no jogo, se movimentando e ajudando a abrir espaços na defesa adversária. O que nem precisava muito, porque Geferson já deixava um enorme corredor na esquerda. Por lá, Jürgen Damm avançou e cruzou na cabeça do camisa 10, que fuzilou – embora a equipe gaúcha tenha reclamado de uma possível falta de Arévalo, não marcada no lance. O tento que deixou a equipe de Diego Aguirre perdida em campo.

A sequência do confronto se deu com o Inter sem saber como reagir. No primeiro cenário, o Tigres dominava a posse de bola e criava muitas chances, mas não aproveitava, com a falta de precisão de Aquino e Gignac nos arremates. Somente aos poucos que os visitantes voltaram a recobrar os sentidos. Só que, quando tomavam a bola, eram improdutivos. Erravam muitos passes e mal passavam pelas linhas de marcação dos mexicanos. Um novo lance de perigo só veio aos 41, em um chute de fora da área de Valdívia que ninguém esperava, e que Guzmán defendeu em dois tempos. Só que a jogada gerou uma reação imediata, um contragolpe. E contou com a infelicidade de Geferson, que encobriu Alisson e fez contra as próprias redes.

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Analisando friamente, o gol sofrido não mudava tanto as necessidades do Inter: eles precisavam de um tento ainda, que ao invés de dar a classificação no tempo normal, levaria aos pênaltis. O problema é que a própria postura do time não se mudou para a segunda etapa. E o baile do Tigres teve novos elementos. Voando na ponta esquerda, Aquino sofreu pênalti infantil de William logo aos seis minutos, que Rafael Sóbis cobrou para a defesa de Alisson. O goleiro, aliás, assim como aconteceu em outros duelos desta Libertadores, segurava muito bem as pontas. Só que para tudo há um limite. E em outro lance de Damm à esquerda da defesa, o garoto cruzou para Arévalo completar de peixinho.

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Só então Aguirre mudou, com a entrada de Eduardo Sasha na vaga de Nilmar, nulo em campo. Ajudou a dar novo ímpeto ao ataque, especialmente pela esquerda, e por pouco não alterou o placar logo de cara, em uma cabeçada defendida à queima-roupa por Guzmán. No entanto, para melhorar de fato, faltava muito mais ao Inter. E a superioridade do Tigres no controle do jogo permanecia enorme. Alisson se consagrava para evitar a goleada, enquanto a torcida se empolgava aos gritos de olé e da famosa ola, patente do Estádio Universitário.

Os últimos suspiros do Inter vieram somente após os 40 do segundo tempo, quando ainda se criou esperança. Em bom lance de Sasha, Lisandro López diminuiu a diferença aos 43. Restava aos colorados pouco mais de um minuto, além dos três de acréscimo, para tentar alguma coisa. Só que o Tigres soube amarrar o duelo e gastar o tempo. Para, no fim, desencadear uma grande celebração no Volcán. Logo após o apito final, começou a queima de fogos e a chuva de papel picado. Além do mais, mariachis entraram em campo para animar a massa auriazul. Só mostra como a Libertadores está sendo valorizada pelo clube neste momento.

As condições do Tigres para o reencontro com o River Plate, no entanto, não são das mais favoráveis. Os direitos dos “convidados” mexicanos na Libertadores são menores. Tanto que os argentinos já se confirmaram no Mundial de Clubes, mesmo se forem vice-campeões, enquanto poderão fazer o segundo jogo no Monumental de Núñez, apesar da pior campanha na fase de grupos. Os felinos, que deram sobrevida aos Millonários, agora terão que combater o que criaram. A seu favor, o River possui tradição no torneio e uma boa fase crescente. Só que o Tigres também mostrou os seus predicados. E, mesmo com pouco tempo para ser testado, o alto investimento feito durante a pausa do torneio continental mostra ótimos resultados.

Já o Inter terá que correr contra o tempo perdido no Brasileirão. As decisões durante a pausa acabaram longe de ter o resultado esperado, o que bota enorme pressão sobre o trabalho de Aguirre. Não existe mais a desculpa de que o foco é a Libertadores e, na verdade, isso será culpa para todo e qualquer eventual tropeço. Por mais que o elenco tenha várias qualidades, as carências ficaram muito expostas pela maneira como o time perdeu no México. E por opções do comando que não foram felizes, diante das falhas que demoraram para ser corrigidas ao longo dos 90 minutos – ou nem foram. A ressaca será grande, enquanto o sonho do tricampeonato, a partir de agora, acaba adiado para uma data longe de ser definida.