Sim, havia uma final em disputa no Estádio Wanda Metropolitano. O Sevilla prometia não ser um mero azarão, pela maneira como encarou o Barcelona no último duelo entre os times. No entanto, à medida que os minutos foram passando, e que os blaugranas escancaravam sua superioridade na decisão da Copa do Rei, a noite ganhava um aspecto particular. Era uma noite de Don Andrés Iniesta, o craque prestes a se despedir do clube onde escreveu boa parte de sua história. Não importava que, oficialmente, o meio-campista ainda não tenha anunciado que deixará o Camp Nou ao final da temporada. Todos queriam engrandecer aquele que foi, é e será um dos maiores da história do futebol espanhol. O gol foi o ápice na partidaça do veterano, o quarto nos 5 a 0 aplicados pelos catalães. Sua substituição, com emoção indisfarçável, marcou o carinho pelo capitão. E a taça levantada termina de coroar uma carreira vitoriosíssima, nas mãos daquele que simboliza uma era vitoriosa ao Barça e à Espanha.

Iniesta, como esperado, apareceu entre os titulares para mais um jogo. Mais um jogo entre os quase 700 que disputou com a camisa do Barcelona. Mais um jogo na trajetória do garoto que chegou à Catalunha aos 12 anos de idade, com todos os temores em se distanciar dos pais, mas focado em perseguir seu sonho. E o sonho realizado de Iniesta acaba sendo o sonho de todos os torcedores do Barcelona. O sonho de todos os espanhóis, que viram a pérola de Fuentealbilla materializar também uma Copa do Mundo ao país – além das aparições fantásticas no bicampeonato da Eurocopa. Don Andrés estaria em campo para mais uma final. Possivelmente, a sua última com a camisa blaugrana.

O Sevilla, do outro lado, não queria ser um mero figurante na festa. E assim como havia feito semanas atrás no Estádio Ramón-Sánchez Pizjuán, começou o jogo buscando pressionar o Barcelona no campo de ataque. Não parecia haver, afinal, um momento mais oportuno para o título dos rojiblancos. Os barcelonistas vinham em meio ao baque pela eliminação na Liga dos Campeões e de atuações ruins no Campeonato Espanhol. Dava para esperar uma surpresa em Madri, até pelo apoio massivo dos torcedores andaluzes que dividiam ao meio as arquibancadas do Wanda Metropolitano.

O Barcelona, por sua vez, estava escaldado. Não iria cometer os mesmos erros vistos no Nervión. E o ímpeto do Sevilla foi justamente sua perdição. Os blaugranas souberam explorar a maneira como os adversários se expuseram, construindo rapidamente o placar. O primeiro gol veio aos 12 minutos, a partir de um lançamento de Jasper Cillessen, permitindo a Philippe Coutinho sair às costas da zaga. O brasileiro chegou à linha de fundo e facilitou o serviço de Luis Suárez, que completou na pequena área. Pouco antes, o goleiro David Soria já tinha feito a primeira de suas muitas boas defesas na noite.

Os sevillistas tentavam responder, pressionando no campo de ataque. O Barcelona se defendia bem e dava poucos poucos espaços aos arremates dos adversários. E cada chegada dos catalães à área oposta ensaiava uma vitória contundente. Iniesta chegou a carimbar o travessão aos 27 minutos. Já aos 30, o capitão iniciou a jogada do segundo gol. Tabelou com Jordi Alba, que, na disputa com Jesús Navas, deu um magistral passe de calcanhar. Sozinho, Lionel Messi fuzilou. E o terceiro viria aos 39, com a linha de zaga do Sevilla completamente perdida. Messi enfiou a bola para Luis Suárez arrancar sozinho, anotando mais um.

Iniesta, em particular, protagonizava um recital. Era mais uma das atuações magistrais do meio-campista, fazendo o time do Barcelona funcionar, aproveitando os espaços, exibindo sua qualidade excepcional nos passes, driblando com magia. Tratava a bola como a velha amiga de sempre, como poucos conseguiram tratá-la. Ainda assim, o capitão parecia mais propenso ao ataque do que o seu normal. Mais disposto a se projetar, a invadir a área, a balançar as redes. Don Andrés sempre foi um jogador de grandes partidas. Nenhum outro conseguiu ser eleito o melhor em campo em finais de Copa do Mundo, Eurocopa e Liga dos Campeões. O gênio transformaria a Copa do Rei em uma ocasião tão grande para si quanto todas as outras.

Se o lamento deu um aperto no peito com a bola caprichosa que esbarrou no arco durante o primeiro tempo, o grito de gol soou mais alto aos seis minutos da etapa final. Soou mais forte, não só no Wanda Metropolitano, mas em diversos cantos do planeta. Não duvide se, em seu âmago, mesmo madridistas ou sevillistas sentiram uma ponta de reverência com o quarto gol do Barcelona. Mais do que isso, era o gol de Iniesta. O desfecho perfeito àquele que muitas vezes beirou a perfeição. Acima da homenagem por compaixão, veio a exaltação pela excelência, como os eternos merecem. E o craque foi muitíssimo bem na definição do lance. Recebeu no meio e puxou a marcação, antes de abrir com Messi. Então, avançou. Diante de Soria, não vacilou. Fintou o goleiro e, com pouco ângulo, bateu às redes vazias. Vibrou como se fosse seu primeiro gol, com a fome de um garoto prestes a completar 34 anos.

Aplausos para Iniesta. Aplausos que são o maior símbolo do respeito oferecido ao craque em todos os campos da Espanha. Os torcedores de todos os cantos do país costumam ovacionar Don Andrés, e não apenas como um agradecimento por aquele gol na prorrogação do Soccer City em 2010. Também é uma admiração à figura que, acima de clubismos ou regionalismos, torna o futebol tão apaixonante. É pela categoria exalando em suas exibições. É pelo apego à camisa. É pela vontade de vencer acima de tudo. É pela coragem de aparecer aos grandes momentos e não se esconder mesmo na dor das derrotas. Em uma Copa do Rei propensa às tensões diante da questão catalã, como se ouviu no próprio hino, Iniesta provocava o sentimento único que realezas ou políticos não são capazes.

A partir de então, pouco importava o que acontecia no Wanda Metropolitano. As defesas de David Soria, a tentativa do Sevilla descontar, o milagre de Cillessen. Mesmo o gol de Philippe Coutinho, o quinto do Barcelona, em pênalti que ele sofreu e bateu – cortesia agradecida a Messi. Os olhos estavam magnetizados por Iniesta. Tentavam desfrutar as últimas cenas daquele grand finale. Nas tribunas, seu nome era gritado pelos torcedores. E quando, a três minutos do fim, a placa à beira do campo levantou o número 8, aconteceu aquilo que ainda não se disse com palavras, mas se sentia no ar. Don Andrés abraçou companheiro por companheiro. Agradeceu ao público, entre as palmas dos sevillistas e o sinal de culto dos barcelonistas. Mordeu os lábios e viu seus olhos se encherem de lágrimas. No banco de reservas, enfim, elas transbordaram ao apito final. Ao provável ato derradeiro de Iniesta.

Dentro de campo, em meio à comemoração, Iniesta era mais um. Mas também o mais importante, que as câmeras e os holofotes acompanhavam. Subiu às tribunas. Do rei, recebeu a taça. Como um rei, a ergueu. Terminou de coroar o seu reinado na Espanha. Don Andrés, o nobre que amou a bola. Que é tão amado por seus súditos, que conquistou súditos em nações que sequer são as suas. Um homem que honrou o futebol em sua essência.

E se o Barcelona é tetracampeão em sequência na Copa do Rei, algo que não acontecia desde o Athletic Bilbao da década de 1930, isto parece um detalhe. Esta partida será lembrada fatalmente por causa do maestro que a tornou especial. A Copa do Rei Andrés Iniesta, o unificador. O único adeus possível ao capitão, em uma noite de emoção que os barcelonistas rogam para fazê-lo mudar de ideia.