Martín Silva chegou ao Vasco em 2014, como um excelente negócio. O goleiro costumeiramente convocado à seleção do Uruguai tinha uma carreira sólida. Por anos ocupou a meta do Defensor, campeão nacional com os violetas, e repetiu o sucesso no Olimpia, um dos grandes responsáveis pela caminhada até a final da Libertadores de 2013. Apesar da idade do arqueiro, já prestes a completar 31 anos, os cruzmaltinos faziam uma contratação de risco praticamente nulo. E o camisa 1 não apenas se provou como um excelente reforço, como também se tornou ídolo em São Januário. Uma história de admiração dos vascaínos que se encerra cinco temporadas depois, diante do anúncio de que o veterano voltará ao Paraguai e jogará pelo Libertad.

O sucesso de Martín Silva na Colina, afinal, não se resume apenas às atuações heroicas e aos milagres que acumulou nesses anos todos. É também pela maneira como abraçou o Vasco como o seu lar. O goleiro era uma referência por seu trabalho sob as traves e também por seu profissionalismo. Esteve ao lado dos cruzmaltinos nos momentos bons ou nos ruins, abraçando um projeto na Série B e permanecendo mesmo depois do novo rebaixamento em 2015. Recusou propostas de outras equipes. Com méritos, recebeu a braçadeira de capitão e motivou os companheiros para encarar os desafios, que muitas vezes vinham não apenas do campo, mas dos próprios bastidores conturbados em São Januário. Bateu de frente com o poder, chegando a se queixar publicamente das incertezas geradas pelo processo eleitoral no início do ano.

Os ídolos, de qualquer forma, se sustentam realmente por aquilo que fazem em campo. E os vascaínos têm consciência do que Martín ofereceu durante a maior parte de sua passagem pela Colina. Se o time estava bem, muito provavelmente era porque o uruguaio andava segurando as pontas atrás. Como se esquecer da importância nos títulos do Carioca? Como ignorar os grandes clássicos? Como não exaltar o épico nas preliminares da Libertadores de 2018 contra o Jorge Wilstermann, quando ele viveu sua redenção nos pênaltis após sofrer com bola rolando? Todavia, se a situação não ia bem, o uruguaio também era protagonista. Afinal, não fosse ele, as chances de fracasso aumentavam exponencialmente. Da frieza ao excelente tempo de reação, era no arqueiro que os torcedores depositavam sua confiança.

O ano de 2018, contudo, não seria tão bom ao Vasco e nem a Martín. O goleiro não manteve o seu melhor nível, especialmente ao voltar da Copa do Mundo, a terceira de sua carreira. De unanimidade, o veterano passou a ser cobrado, com as falhas se tornando comuns. Os erros no Brasileirão custaram o seu espaço. Fernando Miguel entrou e virou herói da permanência na Serie A. E entre os atritos naturais depois de tanto tempo de casa, os problemas físicos mais frequentes e o alto salário, a saída do uruguaio se tornou algo natural. Outros clubes brasileiros chegaram a sondá-lo. Ao final, o retorno ao Paraguai parece o ideal para permitir que o tempo preserve a idolatria que construiu em São Januário.

Em um clube de tantos goleiros históricos como o Vasco, Martín conseguiu entrar para essa lista. Pode não ter vivido os momentos mais gloriosos, mas, por tudo o que ofereceu nestes anos, merece um lugar especial na memória da torcida. É o que fica guardado no peito e fará os cruzmaltinos encherem a boca quando relembrarem as defesas do arqueiro. O uruguaio foi muito mais que o goleiraço que prometeram quando chegou.