O taxista do papa, o faz-tudo, o segurança secador e uma inesquecível noite em Boedo

Os personagens do jogo que deixou o San Lorenzo a um passo de sua primeira final de Libertadores

Para os torcedores e quem gosta de futebol, Club Atletico San Lorenzo de Almagro. Para os rivais, Club Argentino Sin Libertadores de América. Uma piada que pode estar morrendo, e aproveitar uns dias em Buenos Aires para testemunhar essa morte é sempre um programa interessante. Sobretudo se fosse como um torcedor comum.

Zoeira no táxi

Peguei o metrô, desci em Boedo e parei o primeiro táxi que apareceu. Um senhor, de uns 60 anos, me perguntou aonde eu ia. Disse para tocar até o Nuevo Gasómetro e logo veio a galhofa de “seu San Lorenzo vai finalmente ganhar a Libertadores?”. Expliquei então que era um jornalista brasileiro indo cobrir o jogo e o papo ficou mais amistoso. O torcedor do Independiente lamentou a situação atual de seu time, falou que AFA e CBF são máfias junto com a Fifa, que não vê a hora do Julio Grondona – presidente da AFA – sair e que a Argentina foi roubada na final contra a Alemanha, com o pênalti do Neuer sobre o Higuaín não sendo marcado (não foi pênalti, mas bem, eu não iria contra o que todos os jornais e canais de televisão argentinos estão falando todos os dias até hoje).

Bem, o papo estava legal, mas é claro que não escapei de ser trollado. “E o Brasil, hein, que papelão. 7 a 1, hã!”. Veio, então, todo aquele papo de reformulação do futebol alemão, os problemas estruturais do futebol brasileiro, falhas de Felipão, time mal armado, trabalho porco nas categorias de base e todas essas coisas que já foram discutidas várias vezes. Enfim, ele me deixou no Nuevo Gasómetro, mas não sem antes elogiar muito o Papa Francisco e contar a história – que não deve ser verdadeira –, de que o Papa já andou no táxi dele e, como é muito humilde, foi no banco da frente, conversando com ele, como eu fiz.

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Confusão no estádio

Ao chegar no Nuevo Gasómetro, por volta das 16h30, logo percebi que o San Lorenzo parecia estar assustado com uma semifinal de Libertadores. Os funcionários do clube e da empresa contratada para fazer a segurança do jogo não sabiam onde era a entrada para a imprensa e os torcedores que chegavam ao estádio tinham um semblante de nervosismo. O clima era de tensão. Enfim, depois de dar quase uma volta em torno do Gasómetro, entrando em todos os portões e perguntando se era a entrada da imprensa, finalmente encontrei o portão certo.

“Sou um jornalista do Brasil, vim cobrir o jogo do San Lorenzo. Enviei o pedido de credencial por e-mail (é verdade), mas não chegou a confirmação (outra verdade). Mas vim assim mesmo e trouxe minha identidade e documento de jornalista do Brasil”, disse ao segurança. O senhor liberou minha entrada e fui até um portão. Passei por ele, entrei em outro, e lá estava a improvisada sala de imprensa para credenciamento. Repeti o papo para o chefe de imprensa do Ciclón, que meio atordoado com o tanto de jornalistas, disse que não lembrava do meu pedido e me deu uma pulseira, para depois falar: “A imprensa fica no quarto andar. Sorte para nós. Obrigado”. Não entendo bem porque na Argentina jornalista é torcedor, mas dane-se.

O amigo Jorge

Depois de mostrar a pulseira para cinco seguranças, em um caminho de uns 15 metros, entrei no estádio. Tinha um elevador, mas resolvi subir de escada. A completa falta de preparo físico fez com que eu me odiasse por essa escolha, mas acabou valendo a pena. Lá pelo décimo estágio da escada, encontrei, na curva, um senhor com casaco, calça e até tênis (!) do San Lorenzo. Puxei papo com ele. Era Jorge, um verdadeiro faz-tudo do Ciclón: sócio vitalício, funcionário, roupeiro, fotógrafo que ajuda na assessoria de imprensa e também no museu do clube. Um amor incondicional. Uma vida pelo San Lorenzo.

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Maravilhado com o fato de um jornalista brasileiro querer cobrir o clube, ele me levou até o museu, que fica dentro do Nuevo Gasómetro. “Vou ligar as luzes e fique a vontade, pode tirar quantas fotos quiser com calma, porque depois, isso será impossível”. Aproveitei a chance e fiz várias fotos (que você pode ver na galeria). Sem muitas prateleiras, várias taças do clube estavam no chão mesmo. Os canecos mais antigos e mais importantes tinham lugar especial, obviamente, e a fé, que sempre carregou o clube, é bem destacada no museu, que é muito bonito, simples e tradicional.

Para quem não sabe, a fé não acompanha o San Lorenzo apenas por conta do Papa Francisco. O nome do clube não é esse por acaso. O Ciclón só existe por causa de um padre, Lorenzo Massa, que abriu as portas de sua igreja no bairro para que alguns jogassem futebol dentro do templo (imagina só você batendo uma peladinha com os amigos dentro da igreja). A condição, claro, era que depois de jogar bola, os garotos de Boedo jogassem bola, desde que ajudassem a arrumar a igreja e ficassem para ver a missa. Esses garotos que fundaram um clube e deram o nome de San Lorenzo.

Depois de várias fotos e conversar com Jorge, fui até o quarto andar. Entrei e estava no meio dos jornalistas bolivianos e argentinos, mas, por algum motivo, senti que não devia estar ali. Saí da tribuna onde os jornalistas ficariam para cobrir o jogo e desci para o segundo andar. Resolvi ficar no meio da galera.

Uma história fantástica

Ainda era por volta das 17h30, e o estádio estava vazio. Fazia um frio desgraçado. E eu, sem luvas (burro) e com apenas um casaco, resolvi sair das cadeiras para ficar no lugar dos bares e restaurantes. Lá, encontrei um segurança, que também fugia do frio. Comecei a puxar papo com o senhor, de uns 50 anos.

O segurança tem uma história fantástica. Pai de três filhos, ele serviu o exército e lutou nas Malvinas. Depois, virou caminhoneiro e rodou toda a América do Sul. Por fim, quatro meses atrás, para ficar mais com os garotos, resolveu sair do antigo trabalho e aproveitou a oportunidade que surgiu para ser segurança em estádio nos dias de jogos. O curioso é que este era o primeiro jogo do San Lorenzo em que ele trabalhava. E bem, como ele não conhecia o estádio, incontáveis pessoas pediam sua ajuda em vão. Para piorar, ele é torcedor do Racing, e no meio de vários hinchas do Ciclón, secou como nunca o rival. Também em vão.

Foram-se duas horas de conversa sobre futebol argentino, brasileiro, sul-americano, europeu e até política. Ele é fã de Dilma, Lula, Cristina Kirchner e acha Neymar melhor que Messi. Não sei se isso foi média com o novo amigo brasileiro, mas ele afirmou que é “maravilhado com o garoto desde que ele jogava no Santos e que não fala isso porque na Argentina é todo mundo muito fanático”. Claro que o 7 a 1 foi mais uma vez tópico de conversa e repetiu-se o que foi falado com o taxista. Se os argentinos não se esquecem da vitória sobre o Brasil em 1990, como cantam em “Brasil, decime que se siente”, essa goleada eles nunca vão esquecer mesmo.

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O jogo

Veio então a partida. O San Lorenzo dominou e mereceu a goleada. Foi melhor no primeiro tempo e no segundo, esperou o Bolivar para matar o jogo em contra-ataques. O goleiro do San Lore, como cantam os torcedores o tempo inteiro, não foi ameaçado de verdade. Enquanto o lado direito do Ciclón fez uma bela partida com Buffarini, que marcou um golaço, e Villalba, que fez bom jogo. Mercier, careca, ídolo da torcida, também jogou demais e fez um belo gol. Já Romagnoli, ídolo máximo e camisa 10, teve boa atuação. Deu duas assistências e trocou bons passes na primeira etapa. E essa semana, depois de declarar que se arrependeu da transferência para o Bahia, ganhou ainda mais carinho da torcida.

Ainda assim, o estádio ficou tenso durante muitos momentos da partida. Tirando os ultras, que cantaram sem parar desde antes até depois do fim da partida, o resto do estádio só deixou o silêncio em alguns momentos. O que mudou, obviamente, depois do rápido 2 a 0 na primeira etapa. Um adolescente viu todo o jogo abraçado com seu pai, e os dois, que não pareciam acreditar no que viam, choraram muitas e muitas vezes.

No segundo tempo, já em outro setor, a turma ficou incrédula e ensandecida ao mesmo tempo. Após a partida, enquanto a turma cantava, perguntei para vários hinchas se a espera pelo título finalmente tinha acabado. E foi aí que deu para ver que nem a classificação –o Bolivar não reverte isso… – inédita para a final, nem o Papa Francisco, nem o time jogando bem afastam a desconfiança da torcida quando se trata de Ciclón na Libertadores. O discurso geral foi: “o time jogou muito bem hoje, mas o Nacional tem uma boa equipe. Vamos com calma e futebol se ganha dentro de campo”. Depois, a gente reclama que jogador é que tem discurso padrão e pré-produzido…

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Volta pra casa

Após isso tudo, era hora de voltar para o hotel. Peguei o táxi e posso dizer que a sorte estava ao meu lado, assim como estava ao lado do San Lorenzo. O taxista era um boliviano que mora em Buenos Aires faz 10 anos. E, acreditem, ele é torcedor do Bolívar, mas quando mudou para a Argentina, em 2004, escolheu torcer para o San Lorenzo. Ele disse que o coração ficou dividido no jogo e que ao mesmo tempo que estava feliz pelo Ciclón, ficou triste pelo clube de sua terra.

Desci no hotel, me despedi e fui ver Atlético Mineiro x Lanús com algumas certezas. Nosso futebol está, aos poucos, perdendo sua magia. E infelizmente, com essa gestão, não acredito que as coisas vão melhorar. A outra certeza é a de ter vivido, uma noite extraordinária no Nuevo Gasómetro. Claro que não como os torcedores do Ciclón, que sonham com o título da Libertadores faz tanto tempo. Mas tive a certeza de que, assim como eles, tenho lembranças para guardar pela vida toda.