O futebol brasileiro é povoado por entidades místicas. Entre as mais lendárias, o jogador talismã. Aquele que sabe aproveitar os minutos para se consagrar, que aparece como uma santidade nos momentos de maior fé. “É como o horóscopo que se lê de manhã. Se errar, ninguém se lembra. Mas se acertar, a mística ganha ares de premonição”. O Vasco possui um altar especial para Cocada e o seu gol do título no Carioca de 1988. Mas já pode arranjar um espacinho no pedestal para Rafael Silva. O atacante marcou apenas sete gols no ano. Mas nem tem como execrá-lo. Dois deles deram o título estadual sobre o Botafogo. E o que deve ser mais lembrado aconteceu nesta quarta. Eliminou o Flamengo na Copa do Brasil.

Treze pontos em 20 rodadas, Pior ataque e pior saldo de gols dos pontos corridos, oito pontos de sair da zona de rebaixamento. No Brasileiro, o Vasco vive um inferno. Que se limita apenas à liga nacional. Porque o clássico fez os cruzmaltinos encararem de outra forma a Copa do Brasil. O time de campanha patética nos pontos corridos cresceu demais nos mata-matas. Não se tornou um esquadrão, mas minimizou os seus erros e não perdoou os rivais. O suficiente para conquistar a classificação às quartas de final. Com Rafael Silva terminando como herói, pelo gol que definiu o empate por 1 a 1 aos 37 do segundo tempo.

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 26 de Agosto de 2015 - COPA DO BRASIL - VASCO X FLAMENGO - durante a partida valida pelas oitavas de final da Copa do Brasil, no Maracana. Foto: Jorge Rodrigues/Eleven.

Assim como já tinha sido na partida de ida, o Maracanã abrigou outro duelo de baixo nível técnico. O Flamengo criou suas esperanças logo aos cinco minutos, no polêmico gol que abriu o placar. Jorge chutou e Madson desviou contra as próprias redes. Mas o problema esteve no assistente, que marcou impedimento, depois voltou atrás e validou o tento. Após muita polêmica, os cruzmaltinos tiveram que aceitar a decisão – no fim das contas, acertada. Só que a sorte não estava tão favorável assim aos rubro-negros. Oswaldo de Oliveira foi obrigado a substituir os contundidos Guerrero e Ederson ainda no primeiro tempo. Minou a qualidade de um time que começou bem, pressionando, mas passou a se limitar aos chutões.

A emoção aumentou no segundo tempo, mas não a técnica da partida, recheada de erros para os dois lados. Pesaria quem não perdoasse a falha do rival. O que o Vasco conseguiu fazer. A primeira grande chance de empate dos cruz-maltinos veio em um lance inacreditável. A bola pipocou diversas vezes na área do Flamengo, no desespero do time diante das jogadas aéreas. Quando Paulo Victor caçou borboletas, Jorge salvou em cima da linha. E o goleiro, ao menos, se redimiu com uma grande defesa na sequência. O Fla respondia na velocidade, especialmente com Paulinho e Emerson, mas errava demais na conclusão das jogadas. Quando conseguiu acertar, parou em duas grandes defesas de Martín Silva. Até Rafael Silva aparecer.

Jorge Henrique sentiu lesão muscular e pediu a substituição. Deu lugar ao talismã. Na primeira bola, o atacante de 25 anos sofreu falta nos arredores da área. Nenê cruzou e, sozinho, Rafael Silva completou para as redes. O golpe de sorte para consumar a classificação do Vasco, que até tinha a posse de bola, mas raras vezes conseguia ser agressivo. Assustava mais por complacência da defesa do Fla, um caos no jogo aéreo. Tomou o sétimo gol assim em sete partidas seguidas e já não tinha mais forças para reagir.

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 26 de Agosto de 2015 - COPA DO BRASIL - VASCO X FLAMENGO - durante a partida valida pelas oitavas de final da Copa do Brasil, no Maracana. Foto: Jorge Rodrigues/Eleven.

O Vasco pôde se sentir felizardo por cruzar com o Flamengo nas oitavas. Não havia jogo mais cômodo para um time tão mal. Os cruzmaltinos jogaram sem grandes preocupações contra os rivais, além de ter a favor o ótimo retrospecto nos clássicos durante os últimos meses. Também se aproveitaram dos problemas que enfrentam os rubro-negros. Mesmo em uma crise menor, o time parece não saber lidar com a responsabilidade. Fraqueja quando mais é exigido, sem organização. Assim, esteve distante de colocar a bola no chão e pensar contra um adversário claramente em pior momento. Coube aos vascaínos manterem o controle.

Nas quartas de final, o Vasco permanece como azarão. Mas com o moral revigorado. A forma como o time se aproveitou dos atalhos para passar pelo Flamengo demonstra como é possível sobreviver no mata-mata. Quem sabe, sonhar. Se a situação parece praticamente irreversível no Brasileirão, a Copa do Brasil é o sopro de esperança. Para, quem sabe, a luz de Rafael Silva ou qualquer outro talismã cruzmaltino brilhar outra vez.

As excelentes fotos são de Jorge Rodrigues.