Um favoritismo confirmado ao longo dos 90 minutos, e com sobras. O Peru pode não estar entre os times mais fortes desta Copa América. No entanto, a superioridade diante da Bolívia era notável. Especialmente pelo talento individual. Há anos que os peruanos não conseguem montar uma seleção equilibrada, mas possuem muita qualidade na linha de frente. E a capacidade de seus atacantes fez toda a diferença para o país chegar a sua segunda semifinal consecutiva no torneio continental. Paolo Guerrero comandou o show com três gols, mas também teve ótimos assessores em Jefferson Farfán e Christian Cueva. Agora, os peruanos voltam à condição de azarões, em uma semifinal repleta de ranço contra o Chile.

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A Bolívia alcançou a campanha aos mata-matas da Copa América por causa de 45 minutos. O primeiro tempo inspiradíssimo contra o Equador valeu a vitória por 3 a 2 e os três pontos decisivos na tabela. Nada mais que um lapso de um time com muitos problemas, que não demonstrou a mesma organização vista apenas contra os equatorianos e nem tinha bola para almejar muito. Contra o Peru, La Verde até teve os seus bons momentos, pressionando a defesa adversária. Nada que bastasse diante de uma inferioridade notável e do excesso de erros dos bolivianos.

O show do Peru se deu, sobretudo, no primeiro tempo. A equipe treinada por Ricardo Gareca colocou a Bolívia contra a parede desde o apito inicial, aproveitando muito bem as jogadas pelas pontas, com Advíncula e Farfán dando velocidade na direita, enquanto Cueva e Vargas primavam pelo passe na esquerda. Faltava apenas Pizarro e Guerrero aproveitarem melhor as oportunidades. O que aconteceu a partir dos 20 minutos. Em um bom cruzamento da esquerda, o camisa 9 se adiantou à marcação e fuzilou de cabeça. Já três minutos depois, após um erro na saída de bola, Cueva entregou para o artilheiro ampliar.

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A Bolívia até assustou por duas vezes, exigindo grande defesa de Gallese. No mais, até deu sorte por sair perdendo por apenas dois gols de diferença. Farfán, em especial, também merecia anotar o seu, acertando a trave e também o travessão antes do intervalo. Já na segunda etapa, os peruanos criaram menos oportunidades, ainda que permanecessem em acelerando. Carrillo fez um carnaval na ponta esquerda, enquanto Guerrero aproveitou outro erro dos bolivianos para completar sua tripleta.  Do outro lado, Marcelo Moreno diminuiu ao fazer o gol de honra cobrando pênalti. E, no fim, ainda teve tempo para polêmica, em um passe de efeito de Guerrero que os adversários entenderam como desrespeito. Após bate-boca entre os jogadores, o clima foi apaziguado.

Contra o Chile, os peruanos serão testados naquela que costuma ser sua maior fraqueza: a capacidade defensiva. Especialmente contra a Bolívia, Gareca recheou o time com jogadores sem tantos predicados na marcação. Deve ser diferente no Estádio Nacional de Santiago, diante de um adversário que pressiona demais no campo ofensivo, da marcação ao toque de bola constante. Mas, se os visitantes quiserem se empolgar, o retrospecto nesta Copa América é interessante. Por mais que Brasil e Colômbia não tenham jogado o seu melhor, o Peru conseguiu contê-los com certo êxito. Carlos Zambrano, em especial, é uma grande liderança no miolo da zaga e viveu grande atuação diante dos brasileiros, apesar de Neymar.

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Além do mais, o Peru também possui os seus trunfos contra o Chile. A equipe já demonstrou sua qualidade na bola aérea, especialmente com Guerrero e Pizarro, explorando a fragilidade evidente de La Roja. E a virtude do time nos contra-ataques e nas arrancadas pelos lados é respeitável, com Cueva fazendo bom torneio e Farfán sendo uma referência técnica – sem contar as opções interessantes no banco com Carrillo e Reyna. Os peruanos terão muito trabalho para segurar os chilenos empurrados pela torcida, é claro. Terão que ser um time coletivamente sólido para triunfar. No entanto, se aguentarem a pressão, também possuem os elementos para surpreender.

E, cabe lembrar, será uma partida com pano de fundo tenso. Chile e Peru possuem uma rivalidade histórica, alimentada fora dos campos principalmente desde a Guerra do Pacífico, quando os peruanos perderam territórios para os vizinhos. Rixa que também entra nas quatro linhas, com um histórico de provocações entre os dois países. Tanto que já nesta quinta, em Temuco, os chilenos presentes nas arquibancadas se manifestavam claramente em prol da Bolívia. Na próxima segunda, o jogo vale uma vaga na final ao Peru após 40 anos, enquanto o Chile tenta o título inédito em uma decisão que não vive há 28 anos. A versão futebolística de uma guerra ainda ressentida pelos dois países.