Boca Juniors e River Plate possuem uma história consideravelmente profunda na Copa Libertadores. O jogo deste sábado será o 26° encontro dos rivais pela competição continental, incluindo também aquele que sequer terminou, na Bombonera, em 2015. Os primeiros capítulos desta trajetória começam em 1966, ano no qual os millonarios chegaram à final contra o Peñarol e ganharam o apelido de “galinhas”. O embate repete-se quatro vezes naquela edição, e mais quatro em 1970. A magnitude do superclássico, todavia, se eleva bastante em 1977 e 1978. Para serem bicampeões sul-americanos pela primeira vez, os xeneizes pegam os rivais quatro vezes e vencem duas, incluindo no encontro que rendeu a vaga na segunda decisão. O River dá seu troco na década seguinte, derrotando os bosteros para avançar à segunda fase em 1982 e 1986. Nesta, parou apenas no topo do pódio, com a almejada taça enfim em mãos. E em 1991, o Boca treinado por Óscar Washington Tabárez não tomou conhecimento dos compatriotas na fase de grupos, com dois triunfos memoráveis rumo aos mata-matas.

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A “história moderna” do Superclássico na Libertadores, desde a virada do século, é bem mais célebre. Em 2015, o tumultuado dérbi que teve o gás de pimenta e o drone do “Fantasma de la B”, terminando apenas nos tribunais, antes que o time de Marcelo Gallardo se tornasse campeão continental. Já em 2004, as incensadas semifinais, que renderam jogaços extremamente pegados e movimentados tanto na ida quanto na volta, até que Pato Abbondanzieri pegasse o pênalti de Maxi López e calasse o Monumental. O jogo que marca essa transição de épocas ao Boca Juniors extremamente vitorioso, todavia, nem sempre recebe a consideração que merece. Os duelos pela Libertadores de 2000, por suas consequências finais e pelos craques envolvidos, são tão ou mais importantes que os ocorridos quatro anos depois. Afinal, marcaram o início das glórias do esquadrão de Carlos Bianchi além das fronteiras, ao mesmo tempo que enterraram as esperanças de um time talentoso dos millonarios que enfileirou títulos domésticos, mas poderia ter feito muito mais no cenário sul-americano além daquela festa de 1996. Noites retumbantes pelas quartas de final, especialmente pela maneira como consagraram Palermo e Riquelme aos anais boquenses.

Tanto Boca quanto River avançaram naquela Libertadores com campanhas contundentes. Os xeneizes sobraram na fase de grupos, terminando na primeira colocação de uma chave que ainda contava com Peñarol, Blooming e Universidad Católica. Já os millonarios ficarem em primeiro superando pedreiras, acima de Atlas, Universidad de Chile e Atlético Nacional. Nas oitavas de final, um pouco mais de dificuldades ao Boca. Depois de empatar sem gols em Quito, fez um movimentado 5 a 3 contra o El Nacional na Bombonera, mas depois de abrir cinco tentos de vantagem apenas na primeira etapa. Enquanto isso, o River goleou o Cerro Porteño por 4 a 0 já em Assunção, antes de completar a missão com o triunfo por 1 a 0 no Monumental. E eis que a caprichosa tabela previu o embate estratosférico nas quartas de final. Considerando que anteriormente as semifinais de 1978 eram um triangular, este foi o primeiro mata-mata propriamente dito entre os gigantes.

O Boca Juniors vivia o esplendor da formação de Carlos Bianchi. A escalação que todo e qualquer torcedor sabe recitar de cor. Tinha uma defesa competentíssima com Óscar Córdoba, Ibarra, Bermúdez, Samuel e Arruabarrena. Um meio combativo e trabalhador com Traverso, Basualdo e Gustavo Barros Schelotto. Já o melhor se via mais à frente. Juan Román Riquelme envergava a camisa 10. Aquele que, mesmo entre tantos outros gênios na história boquense, representou melhor o número do que qualquer um. O jovem atingia o ápice da forma que sustentou toda a magia xeneize na Libertadores. Organizava, criava, decidia. Tudo com uma sutileza ímpar, um toque de mágica, uma maestria digna dos maiores. Na frente, Moreno e Delgado se colocavam à disposição de seus passes, ainda que o elenco fosse além. Martin Palermo estava em La Boca desde 1997, mas recuperando-se de uma gravíssima lesão no joelho. E ainda havia Guillermo Barros Schelotto, naquele momento opção ao segundo tempo. À frente do timaço, o lendário Carlos Bianchi.

O River Plate não ficava muito atrás, embora já viesse sentindo o peso das vendas de seus talentos ao longo dos anos anteriores, depois de grandes campanhas no Argentino e na própria Libertadores. Ídolo histórico do clube e parte da geração campeã em 1986, Américo Gallego assumiu o comando técnico, após anos como assistente de Daniel Passarella no clube e na seleção. A sua base possuía uma defesa encabeçada por Bonano e Yepes, acompanhados por nomes como Placente e Trotta. Na cabeça de área, Berizzo, Zapata, Ledesma e Hernán Díaz estavam entre as opções. O diferencial ficava mesmo ao setor ofensivo. Aimar era o equivalente millonario a Riquelme, aquele que também dinamizava as ações do ataque. Não tão cerebral quanto o companheiro de seleção, mas igualmente dono de uma técnica acima da média e de uma habilidade desconcertante. Já na linha de frente, muito potencial com a dupla formada por Juan Pablo Ángel e Javier Saviola. Aimar e Ángel, aliás, voltavam de lesão. E o departamento médico representava um problema ao elenco, com as ausências de Coudet, Astrada e Ortega.

O primeiro jogo aconteceu no Monumental de Núñez. E diferentemente do que manda sua histórica escola de futebol, o River Plate não foi brilhante. Ainda assim, manteve a efetividade para assegurar a vitória por 2 a 1. Os millonarios não perdoaram os erros do Boca Juniors. Uma saída ruim de Córdoba permitiu que Ángel abrisse o placar aos 16 minutos. Desperdiçando muitas bolas no meio, os xeneizes se agarraram a Riquelme e, assim, tiveram um fio de esperança quando o empate aconteceu aos 30. Uma falta na entrada da área foi a temeridade dos millonarios, suficiente para o camisa 10 desferir um daqueles seus chutes impossíveis de se pegar. Sem qualquer reação de Bonano, que só viu a bola entrar na gaveta. Contudo, apenas Román não bastava e, em um contra-ataque, Saviola definiu o placar em 2 a 1 no primeiro minuto do segundo tempo. Grande jogada do Conejo, ao encarar a marcação, avançar à entrada da área e soltar um chute certeiro. Pela solidez de sua marcação e pelo domínio do jogo, deu a impressão de que o River poderia mais. Faltou mais tempero. Yepes foi o melhor em campo.

“Nem bem terminou o clássico do Monumental, os torcedores do River começaram a conviver com temores, angústias e afins, rito que repetirão até que se tenha jogado a última bola da próxima quarta-feira. Ao contrário dos últimos anos, o torcedor do River tem razões para sofrer: não existe uma diferença futebolística notória sobre seu rival. Na última década, em pleno auge de seu maldito jejum, as coisas estavam muito claras: o River era melhor no papel, insinuava por instantes no clássico, mas indefectivelmente se desmanchava ante a primeira adversidade. Forte no futebol, como demonstrou historicamente através de 70 anos de profissionalismo, e débil no caráter. Essa era a equação. Agora as coisas se equilibraram e o River não é tão superior no papel. No Monumental, quando deveria marcar as diferenças, fez apenas por uma luz. Uma luz muito tênue. E enviou um sinal preocupante: nas duas vezes em que ficou em vantagem, em seguida recuou demais para apostar no contra-ataque. Além do mais, cometeu o pecado quase suicida contra Riquelme: fez faltas demasiadas na entrada da área”, avaliou a El Gráfico da época.

Além disso, a revista ressaltava o papel de Riquelme: “Riquelme a carrega. Riquelme aguenta. Riquelme pensa. Riquelme prepara a bola parada. Riquelme apoia. Riquelme define. Hoje, mais do que nunca, o futebol do Boca depende da lucidez de Román. Essa orfandade de acompanhantes fez emergir toda a sua personalidade de craque. Pediu a bola sempre, encarou por dentro e por fora, mostrou o caminho e não jogou a toalha nem quando esteve fisicamente fundido. A falta de interlocutores não parece ser um problema de sistema, mas de atitude e aptidão individual. Sem muito brilho, mas com o fator determinante de ter se colocado duas vezes em vantagem, o River desmascarou as carências do Boca em buscar o resultado. Que é, casualmente, o que deverá fazer na Bombonera: buscar. Se não crescem as individualidades, não restará outra coisa senão acender mais velas a San Román”.

Rumo ao jogo de volta, o grande assunto na imprensa argentina era o retorno de Martin Palermo. Bianchi, para dar um ânimo ao Boca Juniors às vésperas do superclássico, sinalizou que o centroavante poderia reintegrar a equipe justamente no duelo da Bombonera. O artilheiro completava seis meses sem atuar, depois de romper os ligamentos do joelho.  Sua volta mais soava como um milagre, considerando o tempo natural de recuperação ao tipo de contusão. As declarações do treinador foram tratadas com tanto ceticismo que, do outro lado, Gallego respondeu garantindo que “se botam Palermo, deixo Enzo no banco, que assim não há problema” – se referindo a Francescoli, já aposentado do futebol.

Palermo, de fato, não estava totalmente recuperado. Mas se tornou o “fato novo” a Bianchi, aparecendo no banco e motivando os companheiros para o clássico de tamanha magnitude. E se faltou atitude ao Boca Juniors no Monumental, ela entrou em ebulição na Bombonera. Os xeneizes vinham descansados e afiados, após pouparem os titulares no final de semana, pelo Campeonato Argentino. Enquanto isso, o River Plate se acovardou na vantagem irrisória. Gallego escalou um time cheio de defensores, para sair nos contra-ataques. Acabou se enclausurando demais e sofreu com a pressão bostera.

Diante da pulsação nas arquibancadas, o Boca Juniors mandou no jogo a partir do primeiro tempo, orientado pela dinâmica de Riquelme. Ainda assim, os planos do River Plate pareciam inicialmente dar certo. O time se fechou bem, segurando o placar zerado. Bonano fez uma defesa vital contra Delgado e o árbitro ainda negou um pênalti sobre Gustavo Schelotto. Além disso, surgiram bons contragolpes do outro lado, apesar da falta de sintonia na definição. Óscar Córdoba se agigantou diante de Ángel, segurando o empate.

A tensão que se estendia em La Boca, entretanto, seria o prelúdio do recital que se desenrolou nos 45 minutos finais. Uma das atuações mais célebres do Boca Juniors, porque contou com o Riquelme mais espetacular e ainda a ressurreição de Palermo. Parece muito para a mesma noite? Não quando se forja a fundação de toda a mística do time de Bianchi, abrindo o caminho aos sucessos continentais dos anos 2000. Se os xeneizes passaram a se transformar costumeiramente nos mata-matas da competição, aquele superclássico serviu para apresentar-lhes o caminho. Uma exibição para construir caráter.

O Boca partiu ao tudo ou nada durante aquela etapa final, enquanto o River tentava administrar o tempo. Mas quem administrava o jogo era Riquelme, dono do tempo para acelerar ou controlar, dono do espaço para botar todos em sua órbita. Román estava em seu esplendor, Román queria a bola e ninguém pararia Román. Como, de fato, ninguém o parou aos 14 minutos. Recebeu no campo de defesa e arrancou. Passou por Berizzo e, quando chegou Lombardi, o meia mais uma vez deixou os oponentes sem rumo com sua rotação. Abriu um corredor interestelar até o miolo da área, conexão direta com Delgado, que aproveitou o cruzamento para tocar na saída ruim de Bonano e abrir o placar.

A história ainda poderia ser diferente. E não foi também por causa de Córdoba, que no minuto seguinte salvou uma bola milagrosa após a finalização de Zapata. Não seria isso a acordar o River Plate. Os millonarios seguiram com medo, mantendo a mesma estratégia cautelosa, em tempos nos quais os gols fora de casa não serviam como critério de desempate na Libertadores. Os visitantes ainda preferiam a possibilidade dos pênaltis. E isso ficava escancarado na cera de Bonano. Escancarado principalmente aos 33 minutos, quando Gallego tirou Aimar para colocar mais um volante em campo. A atitude certamente provocou a ira dos deuses do futebol. Riquelme e Palermo seriam os seus arautos. Os enviados especiais que transformaram a fúria divina em fascinação.

Palermo entrou em campo justamente no minuto anterior à saída de Aimar. Talvez o respeito provocado pelo centroavante culminou na covardia do River Plate. Assim que o ídolo pisou em campo, ocorreu um lance decisivo que não alterou o placar: a multidão desatou a celebrar o seu herói oculto naquele momento, mas sabidamente abençoado. E na sequência convulsiva do superclássico, aconteceu o segundo gol. Trotta derrubou Battaglia dentro da área. Pênalti que Riquelme converteu, conduzindo os xeneizes às semifinais. O relógio marcava 39 minutos e os millonarios, depois de amputarem suas próprias virtudes, se tornavam reféns da incapacidade que se impuseram. Sinal do descontrole, uma entrada dura de Lombardi rendeu sua expulsão.

Os minutos finais, assim, guardavam a celebração da Bombonera. Guardavam cenas para se impregnarem na memória, fundamentais para se contar a história do confronto, mesmo que este já estivesse decidido. Afinal, a antologia de um superclássico não está apenas na súmula do árbitro, mas sim nas entrelinhas. No lúdico que alimenta a imaginação dos torcedores e sustenta a lenda dos grandes heróis. Seria assim com Riquelme. O “caño de Román” foi mais celebrado que seu gol naquela noite. É mais lembrado que a maioria absoluta dos gols do camisa 10. E valeu tanto ou mais do que um gol naquele momento, não apenas para coroar o ídolo, como também para desmoralizar completamente o atordoado River Plate.

O camisa 10 recebeu uma bola na lateral direita. Estava encurralado por dois adversários, além de outros dois um pouco mais distantes. Parecia uma jogada morta. Não a um craque, daqueles que criam latifúndios em um guardanapo. Exatamente o que o Riquelme fez. Yepes deu o bote. Yepes, o mais capacitado defensor do River, que havia colocado no bolso os atacantes xeneizes no Monumental. Yepes, que talvez ainda hoje não entenda completamente o que ocorreu na lateral da Bombonera. De costas, o meia puxou a bola para o seu controle. Num rompante, girou e deu o toque para trás, sutileza artística, por entre as pernas do zagueiro. O colombiano passou reto e, só então, percebeu que nem bola ou Román estão mais à sua frente. A armador ainda gira no terreno escasso para limpar o caminho, deixando os oponentes tontos. O lance logo parou na lateral, quando o boquense escapava. De qualquer maneira, foi suficiente para fazer a Bombonera explodir.

E a Bombonera explodiria mais uma vez. Aguardava a glória máxima, concluída apenas pela pincelada de predestinação e incredulidade oferecida por Palermo. Já aos 49, Riquelme mais uma vez regeu e Battaglia avançou pela esquerda, invadindo a área. Rolou a bola mansa à marca do pênalti, para que o centroavante a recebesse. Palermo claramente não estava em condições. Veio caminhando um tanto quanto desajeitado. Quase se enroscou sozinho com a bola. Mas contou com a complacência de um River desesperançoso, que lhe concede todos os espaços do mundo. Livre, o artilheiro domina, ajeita o corpo e se prepara ao chute. Parado, quase um pênalti com todos os outros em movimento. Ele não perdoa, em um chute lento e, desta maneira, muito mais cruel com os rivais. Manda a bola no canto de Bonano com seu ‘muletazo’.

Corpo extenuado pelas fisioterapias, aí sim Palermo corre, passadas largas. Abre os braços e solta um grito de seu âmago. Soterrado pelos companheiros, segue ao banco boquense. “Ao doutor, ao doutor!”, grita Bianchi. Pois é direto aos braços de Jorge Batista, o médico que o operou, que Palermo segue para um fraterno gesto. Fundem-se em emoção, com o centroavante sem esconder os olhos marejados pelo momento. Nada mais faltava ao épico. O apito final soou e encerrou uma das maiores noites de Libertadores.

“Estes caras estão loucos. Saltam, gritam, riem, gozam, rugem, soltam urros viscerais, celebram a perfeição de uma noite que não se esquecerão por muito tempo. Talvez nunca. Esses caras estão loucos e se gabam de sua loucura. Sonham despertos, imaginam um futuro abraçado a mais glória. O Boca ganhou do River e é semifinalista da Copa Libertadores. Nada mais, nada menos. Mas antes da análise, antes de destrinchar questões táticas ou estratégicas, emergem as imagens, brotam os postais desses segundos finais de êxtase e explosão, de punhos ao vento e loucura”, relata a El Gráfico. “E aí estão todos esses caras, loucos da vida, saltando e rindo, aguardando 15 minutos para sair, prontos para esparramar o carnaval por essas ruas de luzes difusas e corações ardentes, que não dormirão… O Boca ganhou do River e é semifinalista da Libertadores. Deu vida a uma noite perfeita: reverteu a derrota da partida de ida, entregou o que sua gente sempre quer que entregue, decorou a noite com o gol de Martín ressuscitado. Como não vão festejar? O que mais podem pedir?”.

Pediriam a Libertadores, sua terceira, encerrando o jejum de 22 anos. A Riquelme, a Palermo, a Bianchi. Mas depois do que ocorreu no superclássico, aquela campanha já lhes bastava. O orgulho perdura. O “Día de la Paternidad” segue no calendário xeneize, celebrado a cada 24 de maio.