Até 1923, poucas quadras de distância separavam os rivais ferrenhos. Ambos nascidos no cais do porto, na proletária La Boca. Bastava olhar por cima dos muros para observar o que os vizinhos tinham. E maquinar um jeito de superá-los. O River Plate se mudou e ganhou o apelido de millonarios, enquanto o Boca Juniors se manteve ligado às raízes e aos imigrantes, os xeneizes. Só que, nove décadas depois, a inveja continua pautando também os sucessos dos arqui-inimigos. Afinal, o sentimento de ver o que o outro tem e tentar superá-lo está na essência de qualquer clássico. Como se vive neste exato momento: o River está à beira de repetir o seu maior sucesso, no segundo jogo da decisão contra o Tigres, enquanto o Boca trouxe de volta um de seus maiores ídolos. Bom para o crescimento da dupla, do futebol argentino e também do sul-americano.

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A perseguição entre River Plate e Boca Juniors não é inédita na história da Libertadores. De certa maneira, o sucesso dos millonarios em 1996, com o timaço liderado por Francescoli e cheio de jovens talentos, motivou a reação dos xeneizes. Buscaram um técnico vencedor como Carlos Bianchi e outros bons reforços para conquistar a América por três vezes entre 2000 e 2003. Enquanto isso, os alvirrubros amargavam insucessos e gastaram alto para voltar ao topo no início daquela década. Não deu certo, com mais algumas frustrações nas fases finais. Pior ainda foi perder para os rivais nas semifinais de 2004, diante das provocações de Tevez, e assistir de longe ao retorno triunfante de Riquelme em 2007. Os investimentos sem retorno, aliás, acabaram sendo a chave para a crise vivida em Núñez na virada da década.

TEVEZ

O Boca Juniors ainda continuou sonhando com o título da Libertadores, mais pela insistência de Riquelme em desfilar sua mística no torneio do que puramente por competência do clube. No entanto, os rivais voltaram a se impulsionar nos últimos meses. Ressurgido da segunda divisão, o River Plate reconquistou títulos em casa e a se tornou protagonista no continente. E o prólogo do clássico ferrenho que se desenha agora aconteceu na Copa Sul-Americana de 2014. Os duelos pelas semifinais foram tensos e de futebol pobre. De qualquer forma, serviram de ingresso para os millonarios disputarem outra vez uma final continental e mostrarem que são fortes como em outros grandes momentos.

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A taça colocava o River Plate como favorito para a Libertadores 2015. Assim como o Boca Juniors, que respondeu à altura se mexendo no mercado e trazendo ótimos nomes para o torneio. O que aconteceu depois disso está expresso na tabela: os millonarios penaram na fase de grupos, enquanto os xeneizes sobraram. Só que o Superclássico virou o jogo. O spray de pimenta acabou sendo decisivo para a classificação dos alvirrubros, que também jogaram melhor nos 135 minutos de futebol entre o Monumental e a Bombonera. De certa forma, os auriazuis abriram alas para os seus rivais ganharem confiança e embalarem até a final.

Agora, o River Plate está a um jogo de conquistar a sua terceira Libertadores. Ao mesmo tempo em que o Boca Juniors tem a sorte (e o amor) de contar com a volta de Tevez, disputando ponto a ponto a liderança do Campeonato Argentino. O triunfo de um pauta a gana do outro. Juntos, têm boas chances de estarem outra vez na competição continental em 2016. Novamente, com um sustentando o favoritismo do elenco campeão, contra o arqui-inimigo que se reforça com astros.

Jogadores de River Plate e Boca Juniors disputam bola pelo alto (AP Photo/Victor R. Caivano)
Enquanto a rivalidade se mantém neste espírito puramente competitivo (ou seja, longe da violência que às vezes a apodrece), o futebol argentino como um todo se beneficia pelo Superclássico em alta. Aumenta a visibilidade do campeonato, ajuda a movimentar o dinheiro e pode mesmo respingar sobre os demais clubes. E também tem o seu impacto no futebol sul-americano. Durante a última décadas, os clubes brasileiros tiveram um domínio notável na Libertadores. Não ficaram sempre com a taça, porque futebol não se ganha na conta bancária ou na soberba, e sim na competência e na qualidade técnica. De qualquer maneira, o abismo econômico tem sido gritante. River e Boca têm potencial para diminuir esta diferença.

Seria bom, aliás, que outras rivalidades se reinventassem e ressurgissem na Libertadores. No Uruguai, ao menos, o Peñarol espera voltar a ser soberano com a construção de seu novo estádio, o que pode levantar o Nacional. A fórmula do sucesso não é exata, depende do contexto e do momento. Que, agora, aponta para River Plate e Boca Juniors. Ascensão mais do que bem-vinda, diante de toda a tradição que carregam consigo e da maneira como tendem a beneficiar outras partes. E que pode dar novo capítulo à rivalidade nesta quarta, diante das chances dos millonarios em levantar a taça e provocar a resposta dos ex-vizinhos xeneizes.