O pleno do STJD julgou, nesta quinta-feira, recursos de Palmeiras e Flamengo sobre as penas aplicadas por causa da briga entre torcidas dos dois clubes no Estádio Mané Garrincha, pelo primeiro turno do Brasileirão. Em vez de seguir o hábito de transformar tudo em cestas básicas, ou simplesmente manter as punições, decidiu ser criativo. É claro que, quando o STJD tenta ser criativo, a tendência é dar errado. E deu. O órgão da CBF inventou uma punição Frankenstein, que é melhor explicarmos em tópicos.

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Palmeiras, que recorria de um jogo sem mando de campo e multa de R$ 80 mil: cinco jogos sem torcida visitante; cinco jogos sem vender ingresso para o setor Gol Norte (o mais popular do Allianz Parque e onde ficam as organizadas); dez jogos em que está proibida qualquer referência às organizadas; multa de R$ 60 mil.

Flamengo, que recorria apenas da multa de R$ 50 mil: três jogos sem torcida visitante; três jogos com 20% a menos de capacidade como mandante; dez jogos em que está proibida qualquer referência às organizadas; multa de R$ 30 mil.

O objetivo do STJD, louvável, foi punir apenas quem brigou, sem envolver os inocentes. Por isso, as punições visaram as organizadas e os torcedores visitantes, que, na visão do órgão, são sinônimos de uniformizados. Acertou o tiro, errou o alvo. Quem mais vai ser punido serão justamente os inocentes.

Como escreve o jornalista Paulo Vinicius Coelho aqui, as torcidas organizadas acham chato quando não podem entrar no estádio com bandeiras, camisas, instrumentos de som e adereços. Mas, na prática, não faz diferença. A Mancha Verde, por exemplo, destaca-se por ser uma mancha branca (eu sei, irônico) nas arquibancas do Allianz Parque. Basta cada membro comprar uma camisa sem estampas na C&A e está tudo resolvido. Até porque, reforçando o caráter inócuo da punição para as organizadas palmeirenses, já está proibido desde abril que elas entrem nos estádios portando qualquer coisa que as identifiquem.

Como as relações entre as organizadas e a diretoria do Palmeiras estão cortadas há muito tempo, elas provavelmente terão que gastar um pouco mais para acessar outro setor do Allianz Parque, mas não é possível que o STJD acredite que R$ 15 ou R$ 30 a mais por ingresso seja determinante para desmotivar os brigões a se engajarem em atos violentos. Por outro lado, entre as sete mil pessoas que lotam o Gol Norte em quase toda partida, há muitas que nunca deram um soco na vida e terão que ficar cinco jogos sem ir ao estádio por não terem condições financeiras para comprar ingressos mais caros.

O Flamengo também terá que vender menos ingressos, mas, sem ter sido determinado um setor específico, o clube carioca pode escolher de qual cortar, em qualquer um dos estádios brasileiros em que anda mandando seus jogos do Brasileirão. Isso não é um problema no grande Mané Garrincha, mas, em Cariacica, como lembrou Mauro Cezar Pereira, serão de 3,5 mil a 4 mil menos rubro-negros em um estádio menor. Vai faltar ingresso e, na sua opinião, quem ficará de mãos vazias: os organizados ou os torcedores comuns?

O STJD errou em outro ponto com o Rubro-Negro. Os auditores consideraram que foram os palmeirenses quem começaram a briga e decidiram por uma pena mais branda para o Flamengo: três jogos contra cinco, perdendo a mesma proporção de torcedores. No entanto, nessas três partidas como mandante, o clube carioca ficará sem 20% da sua torcida, enquanto o Palmeiras terá 16% a menos de público nos seus duelos sob sanção.

E essa confusão aconteceu porque nenhum dos auditores sabia a capacidade do Allianz Parque. Segundo este relato da ESPN Brasil, perguntaram ao advogado do Palmeiras quantas pessoas cabem no setor Gol Norte. A resposta foi seis mil. Achando que o estádio ainda comporta 30 mil, como antes da reforma que o transformou em arena, definiram que o Flamengo também deveria perder 20% do público. Só que o Gol Norte comporta sete mil pessoas, e o Allianz Parque, 43 mil pessoas, o que dá uma proporção de 16%. E ninguém pensou em entrar no Google para confirmar os números.

Já é discutível se punições aos clubes, como a obrigação de mandar jogos com portões fechados, servem para desencorajar a violência daquele punhado de pessoas que preferem brigar a torcer. Quando nem elas são tão afetadas diretamente, como esperar melhora? Acabaram sendo punidos torcedores com menos poder aquisitivo ou flamenguistas e palmeirenses inocentes que esperam o ano inteiro pelo jogo em que o clube dos seus corações irá visitá-los em suas cidades.

E era muito fácil saber quem deveria ser punido, porque 30 pessoas foram presas ainda em Brasília. Dois foram acusados de tentativa de homicídio, estão foragidos e não acredito que a decisão do pleno do STJD fará com que eles se entreguem à delegacia.

Processos na Justiça, ações de inteligência da polícia e operações estratégicas das autoridades que buscam identificar e punir os indivíduos que cometem crimes em estádios de futebol são muito mais eficientes do que punições esportivas aos clubes, mesmo que, dependendo do caso, elas também devam existir.

Ao STJD, reservo o conselho que costumamos dar na pelada ao companheiro de time, grosso, que tenta um drible sofisticado: faz o simples, cara.

Chamada Trivela FC 640X63