A semana não anda feliz para os sportinguistas. Não é fácil conviver com o sucesso do rival Benfica, pronto para enfileirar o seu quarto título consecutivo no Campeonato Português. Para os leoninos saudosistas, ao menos, os últimos dias trouxeram algum alento à memória. Uma válvula de escape doce, ao mesmo tempo que relembra as bodas de quem está na fila desde 2002. Há 15 anos, em 12 de maio, o time treinado por László Bölöni faturava a Taça de Portugal. Assegurava uma dobradinha que não acontecia desde o início dos anos 1980, depois de já terem levado o Campeonato Português no fim de abril – seu último desde então. Período de alegrias que os lisboetas esperam que seja encerrado logo. Quem sabe, com um goleador que os embale tanto quanto Jardel.

Por mais que aquele fosse um bom momento do Sporting, o clube já encerrara um jejum recente. Em 2000, a festa pelo título português pôs fim a uma seca de 18 anos. Mas a força ao menos se manteve. E botou a equipe novamente na rota do troféu dois anos depois. Em época amarga tanto para Porto quanto para Benfica, o principal desafiante dos leoninos era o Boavista, de surpreendente conquista no ano anterior. Ainda assim, o time do norte do país não seria tão competitivo, com os alviverdes nadando de braçada.

O Sporting ainda começou a campanha perseguindo os seus rivais, vacilando no início. Entretanto, a partir da metade final do primeiro turno, a equipe disparou. Foram 19 rodadas na liderança durante as últimas 20 do campeonato. Somou 26 jogos de invencibilidade até o término do certame, com 18 vitórias e oito empates. Sua única vitória em clássicos veio na primeira rodada, é verdade, diante do Porto. De qualquer maneira, a eficiência contra os demais oponentes foi o fiel da balança. Em 28 de abril, graças a um tropeço do Boavista, a faixa já estava no peito dos leoninos, tomando as ruas de Lisboa.

O elenco de László Bölöni era muito bom, com vários jogadores de seleção. Entre as estrelas tugas, apareciam o goleiro Nelson; os defensores Rui Jorge e Beto; e o meio-campista Paulo Bento, todos eles presentes na Copa do Mundo de 2002. Hugo Viana despontava no meio de campo e foi uma das novidades no Mundial, enquanto Ricardo Quaresma se firmava como um prodígio, aos 18 anos. Já na legião estrangeira, os destaques ficavam com os brasileiros André Cruz e César Prates, bem como com o argentino Facundo Quiroga. E, acima de todos, dois nomes inescapáveis para falar daquele Sporting: João Pinto e Mário Jardel.

Aos 30 anos, João Pinto era o grande craque daquele time. O toque diferenciado, para organizar o meio de campo e gerar as chances de gol no ataque. Após longa carreira no Benfica, pulou o muro para o lado rival e também conquistou a gratidão dos sportinguistas. Foi o jogador que mais entrou em campo naquela temporada e o maior garçom. Isto, claro, com a ajuda inegável de Jardel. O centroavante era outro que “virou a casaca”. Ídolo no Porto, passou um ano no Galatasaray, antes de aceitar a proposta dos leoninos em 2001. Viveu a temporada mais insaciável da carreira, com estrondosos 55 gols em 41 jogos. Só no Portuguesão, foram 42 em 30 rodadas. Comandou diversas vitórias com seu oportunismo e sua eficiência no jogo aéreo. Não à toa, levou a Chuteira de Ouro, sua segunda, e a última vez que o troféu ficou com um brasileiro.

Já na Taça de Portugal, Jardel desequilibrou novamente. Em uma caminhada sem grandes desafios, o artilheiro marcou cinco gols em cinco jogos. Inclusive na decisão, contra o Leixões de Carlos Carvalhal. Aos 40 do primeiro tempo, o matador assinalou o triunfo por 1 a 0. O mapa português era pintado completamente de verde. Mal sabiam os sportinguistas que aquela seria a última oportunidade em muito tempo. Depois, em 2005, tiveram ainda o gosto de chegar a uma final de Copa da Uefa, perdida amargamente dentro do próprio Alvalade contra o CSKA Moscou. Desde então, anos de coadjuvantes, alguns espasmos e muitas lembranças.