Quando ele abria o sorriso cheio de dentes logo depois de uma jogada, bem-sucedida ou não, já dava para imaginar a mágica que viria a seguir. Ronaldinho Gaúcho era a síntese de um futebol alegre e deslumbrante – como pouquíssimas vezes se viu. O craque que não se contentava em ter a felicidade expressa apenas no próprio rosto, mas também sempre tentava provocar o riso em quem estava assistindo. E como foi fácil conseguir isso naquele 21 de junho de 2002. Em uma madrugada na qual muitos brasileiros acordaram tensos, o camisa 11 tratou de despreocupá-los. Flutuou em campo e, com a sua leveza, fez a bola flutuar. Se alguém em qualquer canto do planeta ainda não o conhecia, em plena Copa do Mundo, prazer. A maior atuação do gênio em suas participações nos Mundiais, para mandar às favas qualquer temor quanto à Inglaterra. Um dia de gargalhadas. De Ronaldinho.

VEJA TAMBÉM: A atuação decisiva de Rivaldo no jogo dificílimo contra a Bélgica

Especialmente desde a Copa América de 1999, do “olha o que ele fez”, a maioria dos brasileiros sabia que teria em Ronaldinho o próximo grande craque do país. Mas, em tempos conturbados tanto para a Seleção quanto para a sua própria carreira, nem sempre foi titular absoluto nos meses anteriores à Copa do Mundo. A certeza do tridente espetacular veio nos últimos amistosos preparatórios. E, mesmo assim, ao contrário de Rivaldo ou Ronaldo, o Gaúcho demorou a emplacar no Mundial. Fez uma estreia apagada contra a Turquia, antes de gastar a bola contra a China – que, contudo, ainda era a China. Poupado diante da Costa Rica ao final da primeira fase, começou a demonstrar um pouco mais de confiança contra a Bélgica, ajudando a decidir graças a um belo passe para Rivaldo. Até a magia reaparecer de vez em Shizuoka.

Ao menos no papel, a Inglaterra seria a primeira seleção de peso a cruzar o caminho do Brasil. Podia não ser o time mais deslumbrante, mas fazia uma Copa do Mundo bastante consistente. Principalmente por já ter encarado um nível de desafio que seria inédito aos brasileiros na competição, sobrevivendo ao ‘grupo da morte’ e atropelando a Dinamarca nas oitavas de final. Todavia, se do outro lado despontava uma geração interessante, nada superaria a tarimba da equipe de Luiz Felipe Scolari. Não teve para Beckham, Owen, Scholes, Ferdinand ou Campbell quando Ronaldinho sorriu.

ronaldinho

Obviamente, não seria um jogo fácil. Ainda assim, os primeiros toques na bola do camisa 11 já apontavam que aquela seria a sua tarde. Classe, dribles, tranquilidade. E uma caneta para cima de Paul Scholes, o esteio do meio-campo adversário, só para mostrar como seria o inferno dos marcadores ingleses. Os Three Lions não economizavam nas faltas para conter o mágico. Até ia dando certo, sem que a conclusão das jogadas do Brasil saísse tão afinada. Assim, o time de Sven-Göran Eriksson pôde encher o peito de esperança, quando Lúcio falhou e permitiu que Michael Owen inaugurasse o placar, aos 23 minutos do primeiro tempo.

VEJA TAMBÉM: Inglaterra vence a Argentina no dia da redenção de Beckham

Realmente, não estava sendo fácil. Ronaldo pouco conseguia aparecer entre os defensores ingleses, enquanto Rivaldo se movimentava um pouco mais. Os Three Lions ameaçavam em busca do segundo gol. Era preciso criar o espaço de onde não havia, a partir da mente. O que fez R11, com sua habilidade. O gol de empate aconteceu nos acréscimos, quando a diferença parcial parecia garantida para o intervalo. Gilberto Silva disputou pelo alto com Beckham, Roberto Carlos chegou forte, fazendo a estrela adversária tirar o pé, e Roque Júnior evitou o lateral tocando para frente. Kléberson deu um carrinho vital para a jogada, antecipando Paul Scholes, que partiria com a bola dominada. E abriu alas para Ronaldinho. Então, o primeiro grande ato do Gaúcho.

O craque partiu em velocidade, com a intermediária livre. Quando Ashley Cole se aproximou, o brasileiro pedalou e fingiu que cortaria para a direita. Mentirinha. A finta ludibriou não apenas o lateral, tropeçando em suas próprias pernas, como também toda a defesa inglesa. Desnorteados, os adversários foram todos para cima do mágico, buscando alguma forma de contê-lo. Acabaram se bagunçando e se descuidando de Rivaldo, um pecado mortal. Quando tinha cinco marcadores ao seu redor, R11 passou com o lado de fora do pé, ligeiro, para o camisa 10 chapar a bola de primeira no canto de Seaman e deixar tudo igual. Calma na saída para os vestiários.

VEJA TAMBÉM: Favorita, Argentina despediu-se da Copa de 2002 como uma grande decepção

Na volta para o segundo tempo, Ronaldinho pouco pôde pegar na bola. Aos cinco minutos, Kléberson sofreu uma falta na lateral do campo. Edmílson tentou ser esperto e cobrar rápido, mas o árbitro não autorizou. Mais esperto seria o camisa 11. Segurou a bola com as mãos, como se quisesse sentir seu peso. Ao contrário do que poderia se esperar em um gol como este, o craque não tratou com tanto carinho a redonda. Era como a velha amiga, a companheira de tantos anos. Jogou-a para frente, como se ela já soubesse o que fazer. E fez, perfeitamente.

ronaldinho11

O movimento plástico do corpo. A batida com a parte interna do pé. A curva desenhada com compasso. E a contorção inútil de Seaman, apenas para ver o golaço milimétrico morrendo no seu ângulo. Foram segundos em que os céus se abriram em Shizuoka, para não oferecer qualquer turbulência àquele projétil na leve jornada rumo às redes. Uma bola que segue flutuando até hoje em sua trajetória irretocável. Pintura de um Dali boleiro que também abriu de vez o sorriso, e não só o do responsável por aquela arte surreal.

VEJA TAMBÉM: O solo de Zidane na eliminação da França na Copa de 2002

Ronaldinho comemorou o gol feito um menino. Correu, sambou, socou o ar, bateu no peito. Saiu gargalhando e apontando o dedo como se os seus companheiros já soubessem – e, por aquilo que contam, realmente sabiam, ainda que alguns desconfiem da verdadeira intenção na jogada. Intencional ou não, pouco importa: foi perfeita. Enquanto isso, Seaman permanecia eternamente emaranhado às redes, assim como a bola. Incrédulo por aquilo que aconteceu, fora de seus eixos. Nada e nem ninguém teria sido capaz de interromper aquela parábola. Se pudesse, o próprio planeta sairia dos eixos para mantê-la pairando, na consagração do jovem craque.

O final daquela tarde não seria tão feliz a Ronaldinho. Sete minutos depois, por uma entrada dura em Danny Mills, recebeu o vermelho direto. O sorriso reapareceu amarelo, até que voltasse pleno, quando seus companheiros se entregaram para segurar a vantagem no placar. O camisa 11 estaria suspenso para a semifinal contra a Turquia, enquanto não foi tão brilhante na decisão contra a Alemanha. Mas, desde já, o pandeiro podia tocar. A contribuição do Bruxo ao penta é inegável. E uma pena mesmo que não tenha se repetido outras vezes em Copas do Mundo, sobretudo em 2006. Ainda assim, nada que tire o sorriso ao relembrar o lance lendário. Hoje em dia, nem mesmo Seaman consegue segurar a risada.

VEJA TAMBÉM: Senegal surpreendia a França e dava início a um mês de manhãs mágicas