Entre tantos jogadores de futebol, Gabriel Jesus tem uma aura diferente. E é difícil não se identificar com o garoto. Ele exala uma humildade difícil de se ver em um mundo recheado de estrelas. Um carisma natural, que leva tanta gente a torcer por seu sucesso. A ascensão meteórica do filho preferido do Jardim Peri, no fim das contas, concretiza o sonho de qualquer menino que esfola a sola do pé jogando bola no asfalto todos os dias. Mas que pode virar realidade. Em pouco anos, Jesus deixou o futebol da rua e da várzea para se preparar rumo à Copa do Mundo. Um enredo que se torna ainda mais espetacular pela naturalidade com que tudo parece acontecer.

OFERTAS:
Livros com até 70% de desconto na Amazon, clique e confira!
Livros Cosac Naify com até 70% de desconto, clique e aproveite!

Nesta segunda, Jesus foi mais um jogador profissional a publicar sua história no Players’ Tribune. E vale ler cada linha do que assina o atacante, falando de toda a sua caminhada. Abaixo, reproduzimos parte do conteúdo, dos primeiros passos até a chegada à base do Palmeiras. Para ler o texto completo, em português, clique aqui.

*****

Sempre que eu marco um gol pelo Manchester City, minha mãe liga para mim. Assim que a bola balança no fundo da rede, o telefone toca.

Não importa se ela está em casa, no Brasil ou no estádio me assistindo jogar. Ela me liga todas as vezes. Então, eu corro até a bandeirinha do escanteio, coloco a mão no meu ouvido e digo: “Alô, Mãe”.

Quando eu cheguei no City, as pessoas acharam isso muito engraçado, e eles viviam me perguntando o que aquilo significava.

Tem uma resposta rápida: amo minha mãe e ela está sempre me ligando.

E tem uma resposta longa, que começa quando eu ainda era um menino com um sonho.

É claro que no Brasil existem milhões de meninos com um sonho. Mas eu tive sorte, porque no meio do caminho eu pude conhecer alguns super-heróis.

Não ria. É verdade. Eu vou provar para você.

Eu cresci num bairro chamado Jardim Peri, na Zona Norte de São Paulo, e para algumas pessoas que moram lá a vida é uma luta. Mas eu tive minha mãe. Que trabalhava muito duro e garantia sempre à nossa família comida na mesa. Mas para muitos garotos com os quais eu cresci era mais difícil. Às vezes, eles só tinham uma única refeição no dia, e essa era a que eles recebiam dentro do clube. Para ser sincero, muitos deles nem mesmo apareciam para jogar. Eles só vinham para se encontrar e comer de graça um sanduíche de mortadela com refrigerante. Era sempre pão com mortadela e uma lata de refrigerante.

Às vezes, era só refrigerante. E isso tinha que durar até o fim do dia.

Para mim, todos os meus sonhos, todas as coisas que eu tenho agora – tudo isso começa com o Pequeninos. Na verdade, é mais do que um clube de futebol. Não pense nas praias e todo esse tipo de coisa. Nosso campo era do lado de fora de uma prisão militar. No lugar onde era para ter o gramado, só havia sujeira e estava cercado por grandes pinheiros. As únicas pessoas que jogavam lá além das crianças eram os policiais dessa prisão.

Quando eu tinha nove anos de idade, eu apareci lá com meu amigo Fabinho, para ver se nós podíamos jogar pelo time. Nós andamos pela mata com as nossas chuteiras de futebol embaixo do braço. E foi então que nós conhecemos o cara que mudou nossas vidas – José Francisco Mamede, técnico do time mais novo. E ele disse pra gente “Com certeza, vocês podem jogar na próxima partida”.

Não tinha nenhum papel para assinar, nada. Porque este clube não era do tipo que tentava fazer crianças se transformarem em lucro – tem a ver com mostrar para essas crianças algo positivo, e dar a elas alguma coisa para comer e mantê-los longe das ruas. O Pequeninos não é um clube grande, então provavelmente você nunca ouviu a respeito. Mas eu tenho de dizer, eles fazem milagres por lá.

Era engraçado porque o técnico Mamede tinha um velho fusca branco – devia ser anos 70– e ele levava todos os garotos nele, e nós éramos tão pequeninhos que ele fazia caber 9 ou 10 dentro do carro, mais as chuteiras, as bolas, as cestas básicas e todo o resto.

Cara… o que esse clube faz por aqueles meninos, é incrível.

No Brasil, nós temos um nome para pessoas como Mamede: heróis desconhecidos.

E foi isso que ele representou para muitos garotos. Ele e outros técnicos… Eles  deram pra gente uma chance na vida.

Para mim, o amor pela bola era tudo. O treino pelo Pequeninos acontecia somente duas vezes por semana, então, se eu não estava lá, eu estava jogando nas ruas do Jardim Peri. Às vezes, eu ficava jogando bola com os meus amigos até meia noite – depois, nós ficávamos na rua falando sobre as meninas e tirando um com a cara do outro até as duas da manhã.

Em casa, não tinha muita coisa para fazer. Meu pai deixou a família logo depois que eu nasci, então minha mãe trabalhava todo o santo dia para sustentar a mim e a meus irmãos. Ela era faxineira na cidade, e quando ela voltava para casa no fim do dia, ela tinha que dividir a cama comigo e com um dos meus irmãos.

Alguns garotos têm videogame. Eu tinha a bola e a minha imaginação. E foi legal porque eu tive uma infância de verdade. Havia esses grandes torneios de futebol em que cada rua tinha um time, e o troféu era uma garrafa de refrigerante. Cara, era uma guerra por aquele refrigerante. É tudo o que você tem, sabe? Na real, aquilo era mais importante pra gente do que uma Copa Libertadores.

Se você ganhou o título, você passava a garrafa ao redor, e é diferente de tudo que você já provou antes. Todo mundo podia dar um gole e passar pra frente. O troféu de refrigerante é dez vezes melhor do que a champagne. Dez vezes melhor.

Quando eu tinha 13 anos de idade, aconteceu uma coisa que realmente me marcou. Nosso time, Pequeninos, entrou num campeonato importante em São Paulo, e, cara, nós éramos bons. Nos jogos das primeiras rodadas, nós vencemos clubes maiores por 12 ou 13 gols. Mas quando chegamos na final nós tínhamos pela frente a Portuguesa de Desportos, que é um clube profissional. A única razão pela qual os clubes grandes entravam no campeonato é que eles podiam selecionar os jogadores dos times menores. E, você sabe, é como nos filmes. Nós éramos o time pequeno que jogava do lado de fora da prisão, e eles eram do clube profissional com equipamento e todo o resto. Mas eu e meus amigos falamos assim: “Ah, a gente vai ganhar essa. Deixa com a gente.”

Então, veio uma tempestade. Na noite anterior ao jogo, choveu tão forte que quando amanheceu as pessoas estavam falando em talvez cancelar a partida final.

Na hora em que demos o pontapé inicial, o campo todo era uma lama só. Esse dia foi louco. Nós começávamos a correr e nós caíamos pelo campo. Ninguém no nosso time conseguia ficar em pé. Mas de alguma maneira os jogadores da Portuguesa estavam bem. Eles ficavam em pé.

Eles tinham chuteiras de trava de metal. Aquelas que você pode usar na chuva.

Nossas chuteiras eram aquelas das mais baratas, com travas de borracha. Elas estavam todas gastas. Nós não tínhamos dinheiro para comprar as chuteiras mais caras.

E eu me lembro, naquele momento, de pensar algo tipo “não é justo… mas a vida continua.”

Mesmo assim, nós demos a vida para vencer aquele jogo. Mas nós acabamos perdendo por 4-2. Eu nunca vou me esquecer de ver a Portuguesa comemorando com o troféu. Foi uma lição muito boa para mim. Futebol é como tudo na vida. Não é justo. Então, você tem que dar um jeito, mesmo não parecendo justo.

Foi uma lição perfeita, porque os próximos anos da minha vida seriam muito difíceis. No Brasil, se você tem sonho de se tornar um jogador profissional, você geralmente está na Academia de um grande clube aos 12 ou 13 anos. Mas, por alguma razão, as coisas não estavam funcionando para mim. Eu fiz um teste no São Paulo Futebol Clube, e eles gostaram de mim, mas então me disseram que não poderiam me oferecer um quarto na Academia, que era muito longe da minha casa. Se eu fosse de ônibus para lá todos os dias, eu teria que largar a escola e minha mãe… hahaha… certamente não aceitaria isso. Ela era totalmente a favor da escola.

Eu devo tudo para minha mãe principalmente nessa fase da minha vida. Porque muitos garotos no Brasil, quando são de origem mais humilde, têm de começar a trabalhar quando fazem 14 anos de idade para ajudar a família. Eles não podem jogar futebol, ir para a escola e trabalhar ao mesmo tempo. Então, o sonho deles morre nesse momento.

Mas minha mãe… cara, ela acreditou em mim. Seja qual for a razão, ela acreditou. Ela falou para eu continuar, não importando o que eu tivesse que fazer.

Então, aos 13 anos de idade, eu comecei a jogar com os caras mais velhos na várzea.

OK – todos em São Paulo sabem do que estou falando agora (e provavelmente já começaram a rir). Mas para todos aqueles que não sabem do que estou falando, vou explicar.

A várzea é como o basquete de rua nos Estados Unidos, ou como a Liga semiprofissional de futebol na Europa. Os campos são todos esburacados e você joga contra os marmanjos – os caras casca grossa. A várzea é conhecida por ser de extremo contato físico. Tinha muita coisa pesada acontecendo no campo.

Eu nunca vou me esquecer de um momento…

Nós estávamos jogando uma partida importante contra um time grande. Eles sempre tiveram uma das melhores equipes da várzea, mas eles estavam fora da Liga por alguns anos por causa de algo que fizeram depois de um jogo, e eu não quero entrar em detalhes porque provavelmente tem criança lendo isso aqui 🙂

Então, esse era o primeiro ano deles de volta à Liga, e eles estavam jogando contra nós uma partida para classificar para um campeonato maior. Eu me lembro de todos os jogadores deles olhando para mim antes do jogo: “Quem é esse moleque? Isso é sério?”

E era sério!

Aos quatro minutos de jogo, eu driblei o melhor zagueiro do time deles e marquei um gol, e eu me lembro de todos eles olhando para mim, tipo “Ok, moleque, nós vamos fazer da sua vida um inferno”.

Foi a partir daí que eles começaram a me bater todas as vezes que eu tocava na bola. Eles ficaram muito loucos – como se eles tivessem vindo atrás de mim para me machucar. Tinha um baixinho no meio de campo deles que era conhecido por ser um valentão, e ele ficava me dizendo: “eu vou quebrar as tuas pernas se você tentar me driblar de novo”.

Então, eu peguei a bola… e o driblei novamente.

Foi um lance como na NBA. Quebrei a espinha dele. Deixei no chão.

Eles mais uma vez fixaram os olhos em mim como se fossem realmente me matar.

Mas… o que eu posso dizer? Quando eu tenho a bola aos meus pés, vivencio um mundo diferente. Então eu peguei a bola de novo e, sem olhar, dei um passe para um companheiro de time marcar um gol.

A torcida que acompanhava o jogo estava indo a loucura.

A partida terminou em 2-2, e nós vencemos nas cobranças de pênaltis. Eles ficaram revoltados. No apito final, o valentão virou pra mim e disse: “ Eu falei que ia quebrar as tuas pernas, moleque. Te espero no estacionamento”.

Ele estava sério. Foi tenso. Eu me lembro de pensar “já era… Eu posso não sair daqui.” 

Mas, por sorte, meus colegas de time me protegeram. Todos eles ficaram em volta de mim e me levaram até o estacionamento, e só assim consegui chegar em casa em segurança.

Mas esse está longe de ser o fim da história. No Natal do ano passado, eu fui para casa para ver minha família, e tive de ir ao banco para resolver alguns problemas burocráticos. Fui pegar meu carro no estacionamento… e o cara que cuida dos tickets no guichê me deu aquela olhada, como se ele me conhecesse.

Ele devolveu o ticket.

Mas seguiu fixando o olhar em mim.

Então ele diz “Ei, garoto”.

Estou olhando para ele, tipo, Huh?

Ele diz: “Lembra de mim? Da várzea, mano! Eu ia quebrar as tuas pernas!”

E eu assim: Oh meu Deus. Eu não sabia o que ele ia fazer.

E então ele diz: “Cara, eu ia mesmo quebrar as suas pernas. Você acredita nisso?”

E eu tentando manter a tranquilidade, tipo: “Que isso, mano. Você não ia fazer isso, não. Eu sei que você só estava brincando”.

Mas ele segue afirmando: “Não, mano. Não. Eu ia mesmo quebrar as suas pernas. E agora você está jogando pelo meu time, cara! Eu te amo, mano! Eu não posso acreditar nisso. Você consegue imaginar se eu tivesse quebrado as tuas pernas?”

A gente riu, e eu tirei uma foto com ele.

Existe uma expressão no Brasil, e é a única forma de descrever o que aconteceu comigo. Minha vida mudou da água pro vinho. Cinco anos atrás, eu estava jogando na várzea, apenas tentando sobreviver, apenas tentando chegar num clube grande no Brasil. A várzea me deu uma boa perspectiva. Eu joguei com grandes jogadores que hoje são motoristas de ônibus, ou trabalham no supermercado, ou são pedreiros. E não foi porque eles não eram bons jogadores ou porque não se esforçavam. O que conta nessas horas é a sorte e a oportunidade. Algumas pessoas têm que ir atrás do seu sustento e não podem ficar correndo atrás dos seus sonhos.

Se eu não tivesse o apoio da minha mãe, eu provavelmente estaria no mesmo caminho desses outros jogadores da várzea.

Mas, em vez disso, eu tive a oportunidade de fazer um teste para o Palmeiras quando eu tinha 15 anos, e tudo decolou a partir dali. Acho que não consigo nem explicar. Foi como destino, de certa forma. Deus escreveu tudo perfeitamente.


Os comentários estão desativados.