Carlos Miguel Aidar representou a inovação quando assumiu a presidência do São Paulo. Em 1984. Quando assumiu o time 30 anos depois, em 2014, Aidar ainda trazia essa aura, mas não se justificou. Em poucos meses criou polêmicas, comprou brigas com rivais, se desentendeu com o antecessor que o ajudou a se eleger e deu informações divergentes sobre a dívida do clube. Um ano e meio depois de assumir a presidência do clube pela segunda vez, Aidar se vê em meio a uma crise que ele mesmo criou: um técnico competente em vias de sair do clube porque não confia no presidente, um vice de futebol de quem tomou um soco em um desentendimento e uma demissão em massa de diretores descontentes com seus desmandos.

LEIA TAMBÉM: Aidar escancara a crise de identidade do São Paulo

A boa imagem do passado

Aidar foi um dos principais articuladores do Clube dos 13, que uniu os clubes pela primeira vez e criou uma liga. Um embrião que nunca se consolidaria. No ano seguinte, a CBF retomou o Brasileirão e a liga independente acabou sendo só um fórum de discussão dos clubes, que tinha como função principal negociar os direitos de TV. O dirigente são-paulino, porém, entrou para a história como um inovador, um dirigente moderno para o seu tempo. Isso ficou no passado.

Traição e guerra interna

A volta de Aidar foi tumultuada. Ele trouxe Ataíde Gil Guerreiro, seu vice nos anos 1980, para ser novamente o homem forte do futebol no São Paulo. Mas o presidente entrou em rota de colisão com o ex-presidente Juvenal Juvêncio, que o ajudou a se eleger. Alegou que foi ele que “inventou” Juvenal no São Paulo, como diretor de futebol – que o sucederia na cadeira de presidente.

Aidar não só demitiu Juvenal do cargo que ele tinha, ainda derrubou muita gente que apoiava o presidente. Fez uma “limpa” na diretoria para tirar quem apoiava Juvenal e fez ameaças públicas a quem continuasse do lado do ex-presidente. Mas Juvenal, com todos os seus defeitos, tinha uma boa articulação política dentro do São Paulo. E o conflito de Aidar com o ex-apoiador criou uma cisão que o atual presidente ainda não conseguiu contornar.

Em vez de unir clubes, criou inimigos

Não bastassem as brigas internas, Aidar ainda comprou brigas com outros clubes. Ao invés do dirigente que ajudou a unir os clubes, o presidente são-paulino fez o contrário. Primeiro, entrou em uma briga desnecessária com o Palmeiras por Alan Kardec, contratou o jogador por um salário bem maior do que aquele que o jogador ganhava no rival e disse que o Palmeiras “se apequenou”. Aidar tinha motivos para querer contratar Kardec, mas a incompetência de Paulo Nobre como presidente do Palmeiras na negociação com o atacante não exime o dirigente são-paulino de também ter conduzido mal a situação. Para um clube que já vinha lidando com uma fama – que não era injustificada – de assediar jogadores da base de outros clubes, essa postura de Aidar ajudou a piorar, e muito, a situação. Ajudou a criar inimigos.

Depois, na linha de criar mais inimigos, disse que Michel Bastos foi para o clube do Morumbi e não para o Cruzeiro porque o time mineiro “era mau pagador e atrasava salários”. Meses depois, já se sabia que o São Paulo atrasava os salários dos jogadores, incluindo o próprio Michel Bastos, que admitiu isso publicamente. “Me disseram que aqui não atrasava salários”. Foi enganado. E não foi o último.

Até quando tinha razão em reclamar, Aidar se mostrou prepotente e arrogante, para dizer o mínimo. O São Paulo foi o único clube que se colocou contra limitar a inscrição de 28 jogadores no Campeonato Paulista. Irritado com a posição dos demais em aceitar a imposição da Federação Paulista de Futebol, Aidar disse: “Eu fui voto vencido por uma falta de massa encefálica dos 19 presidentes que estavam naquela mesa”.

Os erros de Aidar passam também por declarações preconceituosas. Quando Kaká foi especulado para voltar ao São Paulo, o dirigente disse que o jogador “era a cara do clube por ser alfabetizado, ter todos os dentes na boca, falar bem, jogar bem e fazer gols”. Foi além. Disse que Itaquera, onde fica a Arena Corinthians, era “em outro mundo, em outro país” e que “não dá para chegar lá”. Conseguiu, com essa frase, desrespeitar o Corinthians, os torcedores corintianos, os moradores da zona leste e, mais ainda, os muitos são-paulinos que moram na zona leste e vão até o Morumbi, que também é muito longe do centro, para ver os jogos do clube.

As polêmicas continuaram. Ao responder sobre uma possível proposta do Napoli em Paulo Henrique Ganso, o dirigente declarou: “Nem (com o dinheiro da) Camorra toda”. Camorra era a máfia napolitana, uma imagem que a cidade – e o país – tenta se dissociar. O Napoli se manifestou lamentando as declarações do dirigente são-paulino, que teve uma incrível capacidade de criar inimigos até no exterior.

A divergência na escolha de Osorio
O colombiano Juan Carlos Osorio, técnico do São Paulo
O colombiano Juan Carlos Osorio, técnico do São Paulo

Ataíde Gil Guerreiro era o braço direito de Aidar e as divergências entre ambos sempre existiram, mas aos poucos foram ficando cada vez maiores. Quando Muricy deixou o cargo no São Paulo por problemas de saúde, em abril deste ano, Aidar e Guerreiro discordavam sobre o substituto do técnico – que, aliás, já vinha sendo fritado pelo próprio Aidar, que cobrava resultados publicamente, em declarações à imprensa.

Aidar se encantou com o técnico José Peseiro, um português de carreira muito discreta, mas aparentemente bom de conversa. Ex-auxiliar de Carlos Queiroz no Real Madrid, o português de 55 anos acumulava trabalhos pouco importantes e sem muito sucesso. Quando conversou com o São Paulo, tinha deixado o Al-Whada, dos Emirados Árabes. A entrevista com o português convenceu Aidar, mas não Ataíde.

O vice de futebol queria Juan Carlos Osorio para técnico do clube. O colombiano tinha um currículo mais consistente e trazia no seu trabalho um elemento que o dirigente gostava, de ter um futebol ofensivo, uma mentalidade europeia de uso do elenco. O elenco do São Paulo é mais caro do que bom, mas ainda assim havia a sensação que precisava ser melhor usado. Além disso, Osorio trazia também o histórico de promover jovens da base, um velho desejo do São Paulo que Ataíde também tinha. Ataíde levou a melhor e Osorio foi contratado.

O técnico, porém, viu o time se desmantelar. Oito jogadores deixaram o clube depois que ele assumiu e o técnico teve que remontar o time durante o campeonato, enquanto ainda tentava implantar o seu estilo de jogo. Entre grandes atuações e derrotas duras de engolir, Osorio foi exposto pelos dirigentes, que demoraram a defende-lo publicamente quando já se especulava a sua demissão.

A relação do colombiano com a diretoria piorou muito e só Ataíde era defensor de Osorio. Um dirigente chegou a mandar mensagem de texto para o técnico, criticando-o por uma derrota. O clima ruim fez com que surgisse o boato que o próprio técnico poderia deixar o clube, decepcionado.

NEWSLETTER: Toda semana o melhor do futebol no seu e-mail!

O soco de Ataíde Gil Guerreiro em Aidar

A sondagem do México a Osorio começou a balançar o treinador. Uma proposta de contrato mais longo, com multa – o que não tinha no São Paulo – e a chance de treinar uma seleção em uma Copa do Mundo fez com que Osorio ficasse balançado. A falta de confiança na diretoria, escancarada pelo treinador em coletiva de imprensa, também foi um fator. Mas uma briga entre os dirigentes faria com que o imbróglio da saída do técnico se resolvesse de vez, se é que já não estava resolvido.

Na manhã desta segunda-feira (5), Ataíde e Aidar discutiram e o vice de futebol teria agredido o presidente, segundo informou a ESPN. Tudo porque os dois dirigentes tiveram fortes divergências em relação ao sucessor de Osorio como técnico do São Paulo. O clima ruim já vinha de antes. Ainda segundo a ESPN, Ataíde já teria partido para as vias de fato com Roberto Natel, ex-vice do clube e membro do conselho deliberativo, que é da oposição.

Com isso, Osorio perdeu o dirigente que o apoiava. A decisão do treinador, que já parecia totalmente inclinado a aceitar a oferta mexicana, se tornou oficial nesta terça-feira.

O pedido de demissão coletivo e o futuro incerto

A briga com Ataíde não expôs apenas o mau relacionamento de Aidar com o seu vice de futebol, mas com a diretoria toda. O pedido de demissão de Guerreiro foi o primeiro, mas não deve ser o único. Há uma articulação para saída em massa de diretores do clube, segundo o UOL. Júlio Casares, vice-presidente, Douglas Schwartzmann, vice de comunicação e marketing, Antonio Donizeti Gonçalves, vice social, José Alberto Rodrigues dos Santos, diretor administrativo, Leonardo Serafim dos Anjos, diretor jurídico, Eduardo Alfano, diretor de relações internacionais, e Dorival José Decoussau, diretor de relações institucionais, também devem pedir demissão. Manuel Moreira, diretor social, já pediu demissão. O diretor de futebol, Rubens Moreno, também pediu demissão do cargo.

O movimento deixa claramente Aidar isolado e cada vez mais enfraquecido no comando do clube. A briga com Juvenal Juvêncio desgastou o dirigente. As críticas de Abílio Diniz, que embora não seja membro do conselho deliberativo, tem muita voz no clube, também tornam a gestão Aidar mais contestável.

O presidente divulgou, no site do clube, um comunicado dizendo que pediu que os diretores apresentassem um pedido coletivo de demissão. Uma tentativa de mostrar que ele está no comando, mas que parece inócua diante da situação atual. O presidente pede pacificação, mas segue se atrapalhando cada vez mais no comando do clube. Parece não perceber que não é aquele dirigente que em 1984 era um líder moderno, inovador, agregador. Agora, parece o contrário de tudo isso. As controvérsias nos informativos financeiros do clube mostra que ou a diretoria não sabe de fato quanto o São Paulo deve, ou está escondendo o jogo. De qualquer forma, é um problema que o clube, certamente, pagará a conta.

A saída de Osorio é mais do que compreensível. Ele não tinha como continuar tendo um presidente que pessoalmente não confia nele e que fez tudo que fez. Mas o pior para o São Paulo é pensar no que está por vir no clube. O tricolor precisa pensar no substituto do técnico colombiano, a necessidade imediata, mas muito além disso, precisa pensar na sua organização interna, em ter gente capaz de conduzir o clube. Não parece ser o caso de Aidar. E parece difícil imaginar que depois de um ano e meio de tantos erros acumulados, o presidente comece a acertar agora.