O Slavia Praga foi responsável pela maior surpresa da Liga Europa nesta temporada. Outrora força absoluta no torneio continental, o Sevilla sucumbiu aos tchecos em uma partida emocionante. A vitória por 4 a 3 no Estádio Sinobo aconteceu apenas na prorrogação, e com direito a uma virada dos anfitriões no tempo extra. O sarrafo aumenta nas quartas de final, encarando o Chelsea. De qualquer maneira, o sabor da façanha serviu para os torcedores relembrarem de outros tempos gloriosos. Em 1995/96, os alvirrubros alcançaram as semifinais da antiga Copa da Uefa – com um time que, de certa forma, antecipou o sucesso que a República Tcheca viveria na Eurocopa daquele ano.

Durante as décadas sob o regime comunista na Tchecoslováquia, o Slavia Praga atravessou um longo jejum de títulos. Suas participações nas competições europeias eram esparsas, pouco relevantes e limitadas às fases iniciais. As transformações ocorridas no país por conta da Revolução de Veludo também representaram um renascimento ao clube. E, empurrados por sua torcida, os alvirrubros também contaram com a ascensão de uma talentosa geração na década de 1990 para retomar a relevância. Em 1995/96, a equipe encerrou um jejum de 49 anos sem conquistar o título da liga nacional. O bom momento também se refletiu na Copa da Uefa.

O Slavia Praga começou a campanha embalado. Eliminou Sturm Graz, Freiburg e Lugano graças às vitórias que conquistou fora de casa. Já mostrava que tinha potencial para aprontar na competição continental. Nas oitavas de final, mais um feito longe de seus domínios, e com dose de dificuldade. O desafio era o Lens, crescendo na Ligue 1. O placar zerado em Praga se repetiu na França e a partida seguiu à prorrogação. O gol decisivo no tempo extra foi anotado pelo grande craque daquele time: Karel Poborsky. O meia puxou o contra-ataque, driblou o goleiro e bateu às redes vazias para garantir os alvirrubros nas quartas de final. Já era a melhor participação da história do clube nos torneios da Uefa.

Poborsky tinha 24 anos naquela época. Revelado pelo Ceske Budejovice, passou por Viktoria Zizkov e ganhou sua grande chance em 1995, ao ser contratado pelo Slavia Praga. O meia já era convocado à seleção, mas a maneira como conduziu um dos maiores clubes do país valeu bastante à sua reputação. Combinava habilidade e incisividade, características determinantes aos êxitos dos alvirrubros. De qualquer maneira, o jovem cabeludo não estava sozinho na forte equipe. Cria da base, Vladimir Smicer era um ano mais novo e também via o seu futebol desabrochar naquele momento. Contribuía com suas boas chegadas ao ataque e sua qualidade técnica. Ainda no setor, Radek Bejbl e Pavel Novotný eram outros garotos que começavam a aparecer nas convocações. E na defesa havia Jan Suchopárek, um pouco mais experiente, que chegara do Dukla Praga para se tornar uma das lideranças do Slavia. Espinha dorsal cheia de energia e de talento, sob as ordens do técnico František Cipro, que nos tempos de jogador escreveu sua história com a própria camisa alvirrubra nos anos 1970.

O principal desafio do Slavia Praga na Copa da Uefa se deu nas quartas de final. A Roma não vivia o melhor de seus momentos, mas possuía um elenco respeitável em meio ao período abastado do futebol italiano. Carlo Mazzone era o comandante de um conjunto que possuía nomes como Aldair, Di Biagio, Balbo, Fonseca, Giannini e o ascendente Totti. As razões para se preocupar eram óbvias, mas a torcida alvirrubra ganhou confiança logo no jogo de ida. Vitória por 2 a 0 na República Tcheca, com Poborsky e Robert Vágner moldando o placar. O tento de Poborsky, aliás, merece destaque. Em uma falta lateral, mandou uma bola cheia de efeito por cima do goleiro Cervone – em lance que lembra o de Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra em 2002. Pintura que facilitava o caminho dos tchecos.

Se a Roma poupou alguns de seus principais jogadores no primeiro duelo, o time entrou com força máxima no Estádio Olímpico e ia mudando sua sorte. Moriero e Giannini deram a vitória parcial no tempo normal, que forçou uma nova prorrogação ao Slavia. A situação piorou aos nove minutos do tempo extra, quando o próprio Moriero fez o terceiro em um contragolpe. A situação parecia impossível aos alvirrubros, ainda mais diante da torcida incendiada com a virada romanista. Pois as romadas acontecem. E, naquela ocasião, quem a provocou foi o meio-campista Jiří Vávra. A sete minutos do fim, Aldair escorregou e o goleiro Cervone parou diante do chute rasante do tcheco. Lance válido, que fechou o placar em 3 a 1 e valeu a classificação dos visitantes às semifinais.

No entanto, o sonho acabou por aí. O Slavia Praga precisou encarar um fortíssimo Bordeaux, treinado por Gernot Rohr e repleto de jogadores que seriam campeões do mundo com a seleção francesa dois anos depois – incluindo um tal de Zidane, além de Lizarazu e Dugarry. Os girondinos já começaram a encaminhar a classificação em Praga, numa jogada soberba de Zidane para que Dugarry definisse a vitória por 1 a 0. E, na França, novo triunfo dos anfitriões. Didier Tholot assinalou o gol decisivo à equipe da casa, que terminaria com o vice-campeonato, derrotada pelo Bayern de Munique na decisão. Já os tchecos ao menos puderam se esquecer da eliminação com a reconquista da liga nacional, antes de começarem a aprontar na Euro 1996.

Poborsky, Smicer, Bejbl, Novotny e Suchopárek foram convocados pelo técnico Dusan Hurin à Eurocopa. Destes, apenas Novotny não entrou em campo, enquanto Smicer costumava ser utilizado no segundo tempo das partidas. Os alvirrubros foram fundamentais. Bejbl anotou um dos gols na vitória sobre a Itália na fase de grupos, enquanto Suchopárek e Smicer arrancaram o empate por 3 a 3 contra a Rússia, que valeu a classificação aos mata-matas. Poborsky despachou Portugal com seu fantástico gol por cobertura contra Vítor Baía, dos mais celebrados da história da Euro. E ainda houve uma vingança particular nas semifinais, quando os tchecos despacharam a França de Zidane e Lizarazu nos pênaltis. Pena que não foram páreos à Alemanha na decisão em Wembley, com o gol de ouro de Bierhoff valendo a taça. Poborsky terminou eleito para o time ideal do torneio, reconhecimento à excelente forma.

O timaço do Slavia Praga logo se desmancharia. Poborsky arrumou as malas para o Manchester United, onde não vingou. Bejbl assinou com o Atlético de Madrid, enquanto Suchopárek e Smicer rumaram à Ligue 1 – para Strasbourg e Lens, respectivamente. Se não viraram os craques que se esperava, ao menos já tinham eternizado seus nomes com o clube. O Slavia ainda se recuperou. Com um grupo bastante renovado, foi quadrifinalista da Recopa Europeia em 1997/98 e de novo da Copa da Uefa em 1999/00. As novas gerações, porém, não desabrocharam como aquela de 1996. E fica a expectativa sobre quais os desdobramentos deste time de 2019, menos promissor, mas bem mais surpreendente.