A equipe do Manchester United vai ao gramado de Old Trafford para fazer aquele tradicional aquecimento, momentos antes de encarar o Stoke City pela Premier League. Enquanto se alongam, correm para lá e para cá e batem na bola despretensiosamente, todos os jogadores vestem uma camisa da Kick it Out, uma associação que surgiu como uma campanha em 1993 e, desde lá, luta contra o racismo no futebol inglês, contando com o apoio de dirigentes, treinadores e atletas. Quer dizer, todos, menos Rio Ferdinand.

Um desavisado pode ter ficado desapontado com o zagueiro, recriminando a sua rebeldia em não colaborar com uma boa causa. Sir Alex Ferguson se sentiu desrespeitado, pois havia declarado publicamente que todos os seus comandados participariam da ação. O pessoal da Kick it Out, claro, ficou magoado com o boicote de alguém que tinha tudo para ser um dos grandes símbolos da sua campanha anual, não só por ser negro, mas também por ser um atleta consagrado e reconhecido por sua integridade. Mas quem está no direito de se sentir desapontado, desrespeitado e magoado é o próprio Rio Ferdinand.

Há um ano (e dois dias, para ser mais preciso), seu irmão, Anton, teria ouvido insultos racistas vindo de John Terry, capitão do Chelsea (até hoje) e da seleção inglesa, durante um jogo entre os Blues e o Queens Park Rangers. As consequências futebolísticas desfilaram em cascata. A Football Association tirou a braçadeira de Terry, o técnico Fabio Capello não concordou e pediu demissão. Roy Hodgson assumiu o posto e optou por continuar com o defensor do time londrino no grupo, enquanto o antigo colega de zaga acabou afastado, para evitar uma crise no vestiário. Só que a punição demorou bastante a sair.

Terry foi absolvido na Justiça, mas sentenciado pela FA a quatro jogos de suspensão, mais o pagamento de uma multa de 260 mil libras. Também teria recebido uma punição interna de seu clube, a qual não foi divulgada. Insistindo em sua inocência, anunciou sua aposentadoria do English Team. Do mesmo jeito que Terry luta pela sua versão, Ferdinand apóia a do seu irmão. Sendo assim, deve ter considerado a pena bastante branda.

Some-se isso a uma série de insultos racistas, Europa afora, perdoados com pequenas suspensões e/ou multas irrisórias, e teremos um atleta justamente indignado com a falta de seriedade com que o assunto é tratado por quem deveria combater o racismo com bem mais rigor. Até porque, em algum momento da vida, ele certamente foi discriminado pela cor da sua pele. Talvez não de forma tão direta quando Anton, mas com um olhar de desprezo ou de desconfiança. Daqueles que passaram despercebidos a quem estava à sua volta, mas que doeram fundo no seu peito. Negro, branco, verde ou azul, quem nunca se sentiu assim?

Reação conjunta

Rio Ferdinand não foi o único a se rebelar. Anton, claro, também participou do pacífico levante, bem como outros 13 jogadores. Mas foi a posição do zagueiro do Manchester United que chamou mais atenção. Tanto por ele ser o mais famoso entre os que protestaram, quanto pela reação de Ferguson, que parece ter sido fruto muito mais da surpresa pelo ato de leve indisciplina do que por uma discordância com o pensamento de seu pupilo. A atitude desses atletas repercutiu bem mais do que se eles tivessem vestido a bendita camisa, pela simples razão de que esse tipo de iniciativa já virou clichê e caiu em descrédito.

Os irmãos Ferdinand divulgaram uma carta agredecendo à Kick it Out pelos serviços prestados à causa, mas ressaltando que os tempos mudaram e as ações propostas pela associação já não são mais o bastante. Jason Roberts, atacante do Reading e membro da PFA, a associação de jogadores profissionais local, também manifestou seu desagravo. Já o chefe-executivo da FPA, Gordon Taylor, criticou a postura independente desses atletas. Sabe quando um clube está rachado e alguém prega a união como solução para todos os seus problemas? É mais ou menos isso. Mas até que ponto vale estar unido com a turma que se contenta em colocar panos quentes em tudo?

Taylor também divulgou um plano de ações para acabar com o racismo no futebol inglês. Da mesma forma que, a cada insulto racista proferido em algum canto da Europa, a Uefa sempre abre uma investigação, que quase sempre não dá em nada. A multa para clubes e federações cujas torcidas imitam macacos ou jogam bananas para atletas negros é sempre bem baixinha. Menor do que aquela que Bendtner pagou por mostrar um patrocínio em sua cueca durante um jogo da Euro 2012, o que comprova a moleza com que os dirigentes costumam tratar o tema na prática, embora gostem de abrir o berreiro quando assediados por um microfone.

A little less conservation (A little more action, please)

Em algum momento dos anos 90, a violência urbana no Rio de Janeiro atingiu em cheio a classe média, com a morte de inocentes, tragédias que já aconteciam com muita frequência em áreas mais pobres da cidade. Virou moda protestar com passeatas pela orla, com todos vestindo branco, portando balões e faixas clamando por paz. Depois de algum tempo, manifestações assim passaram a ser vistas com preguiça pelo cidadão que sabe que elas nunca bastaram. O mesmo vale para o uso de camisas e bandeiras antes de partidas de futebol. Não adianta o capitão de cada seleção ler um discurso bonito, se ninguém se esforça para colocá-lo em prática.

Talvez seja mesmo injusto punir uma torcida inteira, ou mesmo uma nação, porque meia dúzia de imbecis ainda acham que a cor da pele de alguém (e o mesmo valeria para a orientação sexual, o estilo de vida, ou qualquer outra coisa que torna o planeta saudavelmente diversificado) o torna uma pessoa pior. Mas se as federações e os clubes cruzam os braços é sobre eles que devem recair as sanções, para que um dia ninguém consiga ver gestos assim como minimamente aceitáveis. Se o preconceituoso ficar com vergonha ou medo de agir assim, já terá sido uma vitória da sociedade.

É preciso tomar cuidado para que as manifestações não virem meras encenações, suficientes apenas para que alguns durmam melhor, achando que já fizeram a sua parte. E é por isso que Rio Ferdinand e seus colegas, ao (literalmente) não vestirem a camisa de uma boa causa, prestaram o melhor dos serviços a ela. Cabe à comunidade do futebol, citada nominalmente na camisa causadora de tanta discórdia, aproveitar mais essa deixa para iniciar uma discussão séria a respeito. Ou vão esperar o próximo Danny Rose servir de vítima para uma horda de ignorantes, como aconteceu recentemente, em um jogo da Inglaterra sub-21 disputado na Sérvia?