Foi uma conquista de enorme simbologia, até por se tratar da última edição do torneio antes da inauguração do Mineirão, que colocaria de vez os clubes do estado no cenário nacional. Em 1964, o Siderúrgica de Sabará levantou o segundo e último caneco estadual de sua história ao destronar o poderoso trio de Belo Horizonte (Atlético, Cruzeiro e América), algo que só voltaria a acontecer em Minas Gerais mais de quatro décadas depois.

Fundado em maio de 1930 por funcionários da Usina Belgo-Mineira, o Esporte Clube Siderúrgica, de Sabará (município a cerca de 15 quilômetros de Belo Horizonte) estreou no Estadual três anos depois, quando aderiu ao profissionalismo. Com o auxílio da empresa, que trazia jogadores em troca de emprego na fábrica, cumpriu ótimas campanhas no primeiro decênio de participação, chegando ao título em 1937 e ao vice por três vezes (1936, 1938 e 1941).

O reconhecimento como força local veio com a convocação do atacante Paulo Florêncio para a Seleção Brasileira que disputou o Sul-Americano de 1942, no Uruguai. Na metade da década de 40, porém, o clube passou a se aninhar no meio da tabela, às vezes alçando voos maiores (como os vices em 1950, 1952 e 1960), e em outras épocas enfrentando crise técnica: entre 1945 e 1949, ficou uma vez na lanterna e outras três na penúltima colocação.

Em 1963, o clube vinha se acostumando a campanhas fracas desde o fim da década anterior. Exceto pelo surpreendente vice-campeonato em 1960, as outras colocações decepcionavam. O Siderúrgica terminara o certame de 1959 na nona colocação entre 11 equipes. Dois anos depois, ficara com o sétimo lugar. E em 1962, ficara novamente em nono, agora entre 12. E parecia que tomaria o mesmo rumo nas primeiras rodadas do torneio de 1963.

Até que a diretoria resolveu trocar de treinador. Assumia a direção da equipe o mato-grossense Dorival Knippel, o Yustrich. Antigo goleiro do Flamengo nos anos 1930 e 1940, começara a carreira de técnico na década seguinte, e já acumulava passagens por diversos clubes brasileiros e até do exterior. E era nome considerado em Minas Gerais por ter levado o América ao título estadual em 1948 numa célebre decisão com o Atlético.

Treinador linha dura, grandalhão e truculento, Yustrich também levara o próprio Galo ao título em 1953/54, e dirigira o Vasco, o America do Rio, o Bangu e o Porto, conquistando a dobradinha lusa que encerrou um jejum de 16 anos dos tripeiros. Comandava com mão de ferro. Pelos jogadores, a quem impunha uma disciplina rígida, não era apenas respeitado: era sobretudo temido. Chegava a passar por cima até mesmo de decisões dos dirigentes.

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De todo modo, o time reagiu após a chegada do novo treinador e terminou o estadual na quarta colocação (ainda que dez pontos atrás do Atlético, campeão antecipado e com folga). A grande arma de Yustrich era uma jogada ensaiada, a qual o treinador passaria a utilizar em todos os clubes que treinaria dali em diante: a “cavadinha”. O ponteiro era lançado em profundidade, ia à linha de fundo e cruzava à meia-altura na medida para o centroavante.

Um início promissor

Para a temporada 1964, o time do Siderúrgica mudou pouco. Trouxe apenas o meia-armador Noventa, promessa dos juvenis do América da capital, para reforçar o setor de criação. Mas o maior feito foi resistir ao assédio ao apoiador Édson, que tinha proposta do Cruzeiro e do America do Rio e interessava ainda ao Santos. Mas o presidente do clube, Manuel Édson, fez pé firme (chegou a pedir Cr$ 10 milhões) e conseguiu segurar o jogador.

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A base do time para o campeonato de 1964 era praticamente a mesma: tinha o goleiro Djair (de apenas 1,68m de altura); os laterais Geraldino e Dawson; os zagueiros Zé Luís e Chiquinho na defesa. O já citado Edson como o primeiro homem do meio, escudado por Paulista ou pelo recém-contratado Noventa. Nas pontas, Ernani e Tião (que se tornaria o jogador mais emblemático da “cavadinha” de Yustrich). E, no comando do ataque, Silvestre e Aldeir.

Esta era a equipe que tentaria, em princípio, repetir a boa colocação no Campeonato Mineiro, que novamente seria jogado por 12 clubes em pontos corridos, tendo início em 4 de julho. Só que o começo da campanha foi mais animador do que se imaginava: o Siderúrgica largou vencendo o Democrata em Sete Lagoas por 1 a 0, goleando o Pedro Leopoldo em casa por 4 a 0 e batendo o Villa Nova em Nova Lima por 3 a 2, antes de chegar a vez de encarar o América.

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O acanhado estadinho curiosamente denominado da Praia do Ó estava abarrotado para o grande duelo. E vibrou intensamente com a vitória do Esquadrão de Aço por 2 a 0, com gols do lateral-direito Zu e do atacante Aldeir que mantiveram a equipe numa inesperada liderança, ao lado do Cruzeiro. Mal sabiam os torcedores locais que o clube se isolaria na ponta ao golear o Nacional de Uberaba por 4 a 0 e contar com a derrota da Raposa para o Atlético por 1 a 0.

Um empate em 2 a 2 com o Guarani em Divinópolis significaria o primeiro ponto perdido, além de ter nova companhia na liderança, a do Galo. Justamente quando se aproximava o confronto direto, em 16 de agosto, no estádio Independência da capital. Mas o Siderúrgica não se intimidou e abriu o placar com Tião no primeiro tempo. Só não levou os dois pontos para casa porque o Atlético empataria de pênalti com Afonsinho, aos 41 da etapa final.

Vencendo o Guarani de Divinópolis no dia anterior, o Cruzeiro havia voltado a dividir a liderança, mas logo ficaria pelo caminho: disso se encarregaria o próprio Siderúrgica no confronto entre os dois times na rodada seguinte. Com gols de Noventa e Silvestre, o time de Yustrich fez tremer mais uma vez o caldeirão da Praia do Ó, livrando dois pontos de frente sobre a Raposa, ainda que continuasse empatado na ponta com o Galo.

No meio de semana, porém, a zebra passeou em Belo Horizonte, com a derrota do Atlético para o Uberaba por 1 a 0. O Siderúrgica se aproveitou do vacilo do ex-colíder goleando o Uberlândia por 4 a 0 (gols de Tião Cavadinha, Noventa, Silvestre e Aldeir) e disparou na ponta. Quem o perseguia agora era o América, que, comandado em campo pelo talento de Jair Bala, derrotara o Cruzeiro e se credenciava a brigar pelo título que não faturava desde 1957.

O América desponta como adversário

O Coelho assumiu a ponta no dia 3 de setembro, ao vencer o Uberlândia em jogo isolado, mas o Siderúrgica correu atrás com um difícil triunfo sobre o Renascença em Belo Horizonte por 1 a 0. Mas um novo tropeço do Esquadrão de Aço – um empate sem gols na visita ao Uberaba – não seria perdoado: o América derrotou o Atlético por 1 a 0 e agora estava empatado no primeiro lugar, com os mesmos 19 pontos do time de Sabará.

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No dia 27, os dois seguiram colados: o América recebeu e bateu o Renascença por 3 a 1, enquanto o Siderúrgica fez 3 a 0 no lanterna Pedro Leopoldo fora de casa. Mas um novo tropeço do time de Yustrich – um 0 a 0 em casa diante do mesmo Renascença – permitiria que o Coelho assumisse de vez a liderança ao derrotar o Democrata de Sete Lagoas por 3 a 1. Agora os papeis estavam invertidos: era a equipe de Sabará que teria de correr atrás do ponteiro.

Quando se imaginava, porém, que o América embalaria, o time sofreu tropeço surpreendente, caindo diante do Guarani em Divinópolis por 1 a 0. Era a chance do Siderúrgica tomar de volta a primeira colocação, mas a equipe também não conseguiu vencer o Democrata de Sete Lagoas jogando na Praia do Ó. Menos mal que conseguiu salvar um ponto no empate em 2 a 2, voltando a ficar empatado na liderança com o rival da capital.

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O Siderúrgica seguiu vencendo (fez 2 a 0 no Guarani e 4 a 1 no Villa Nova) e acompanhando o América na liderança. Até que o Coelho venceu um jogo isolado contra o Uberlândia fora por 2 a 1 e se isolou na ponta, mas com um jogo a mais. No fim de semana, ainda no Triângulo Mineiro, o América tropeçou perdendo para o Uberaba por 2 a 0, mas o Siderúrgica não aproveitou: perdeu para o Cruzeiro (1 a 0) com gol do jovem Tostão.

O fim da série invicta de 16 jogos (com 11 vitórias e cinco empates antes de perder para a Raposa) com um gol discutido, por suposto impedimento, não fez com que o time esmorecesse. Pelo contrário: arrancou uma grande vitória por 3 a 2 sobre o Uberlândia na casa do adversário para seguir na cola do América – com quem, apesar de tudo, ainda seguia empatado na classificação por pontos perdidos. E agora tinha pela frente o Uberaba em casa.

A chance de alcançar o América em pontos ganhos no jogo que o Siderúrgica tinha a menos, no entanto, foi por água abaixo: o time parou num 0 a 0 em pleno estádio da Praia do Ó e ficou mesmo estacionado na segunda colocação. Uma semana depois, novo empate, agora na visita ao Nacional em Uberaba (1 a 1). A expectativa ficava por conta de uma derrota do América para o Atlético, mas ela não veio: o Coelho também empatou em 1 a 1.

As duas equipes já se encaminhavam para suas penúltimas partidas no certame, e a combinação de empates da rodada anterior deixava o América em condições de ser campeão já naquele domingo, 29 de novembro, caso o time vencesse o Cruzeiro no Independência e o Siderúrgica perdesse para o Atlético em Sabará. Com sua torcida de ouvido colado no rádio, o time de Yustrich jogava suas últimas fichas para seguir com chance de título.

E veio a reviravolta: no Independência, o Cruzeiro saiu na frente do América com Wilson Almeida, o Coelho empatou com Aírton, mas no segundo tempo Tostão deu a vitória à Raposa. Enquanto isso, na Praia do Ó, o Siderúrgica arrancava uma expressiva vitória de 3 a 1 sobre o Atlético, com gols de Silvestre, Noventa e Tião, com Viladônega descontando para o Galo. Agora era o time de Sabará que chegava à última rodada com vantagem de um ponto.

O duelo decisivo

A decisão do título sairia no confronto direto disputado no estádio do América, o da Alameda, no dia 13 de dezembro de 1964. Durante a semana, enquanto os dois clubes lutavam nos bastidores da federação quanto à escalação da arbitragem, em Sabará a torcida do Siderúrgica corria listas de ajuda financeira para pagar a premiação dos jogadores em caso de conquista e ainda organizava caravanas para assistir à partida na capital.

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Todos os 15 mil ingressos (capacidade máxima do estádio) foram colocados à venda, mas como a Federação Mineira aumentou muito o preço das entradas para a decisão, de olho na renda, menos de 9 mil foram vendidos. Alheio a isso, o Siderúrgica começou arrasador: aos 18 minutos, Tião desceu rápido pela ponta esquerda e cruzou forte e rasteiro para Ernani escorar e abrir a contagem diante de um América que aos poucos perderia o controle.

Quatro minutos depois, foi a vez de Ernani descer pela direita e cruzar alto para cabeçada certeira de Silvestre, ampliando a vantagem. Aos 35 minutos, Noventa, que jogava na ponta-de-lança contra o clube que o revelara, recebeu uma forte pancada na cabeça, teve de ser substituído por Aldeir e deixar o estádio direto para o pronto socorro. O castigo para o Coelho viria com o próprio Aldeir, que anotou o terceiro gol aos 43 minutos.

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O centroavante, trazido por Yustrich do America do Rio assim que chegara a Sabará, recebeu um ótimo passe pelo alto e completou de cabeça, encaminhando a conquista do Esquadrão de Aço. Na etapa final, a violência do time da casa ainda tiraria temporariamente de campo o próprio Aldeir e deixaria Silvestre apenas fazendo número nos minutos finais. Aos 32, Jair Bala diminuiria, mas a vitória do Siderúrgica já estava mais do que sacramentada.

Nos anos 40, sob encomenda do jornal Folha de Minas, o cartunista Fernando Pieruccetti (o popular Mangabeira) criaria – a exemplo do que o argentino Lorenzo Molas havia feito no Rio – as mascotes dos clubes mineiros. A do Siderúrgica ficou sendo a tartaruga. Pois duas décadas depois a conquista histórica do título de 1964, ultrapassando o América na reta final, representou coincidentemente, como na fábula de Esopo, a vitória da tartaruga sobre o coelho americano.

O título premiava uma campanha irretocável: 14 vitórias, sete empates e apenas uma derrota, 35 pontos ganhos (três a mais que o América) em 44 disputados. O Siderúrgica teve ainda o ataque mais positivo do certame, com 45 gols, e a defesa menos vazada, com 14 tentos sofridos. Além disso, a conquista garantia a participação do clube na Taça Brasil de 1965, na qual o Esquadrão de Aço faria sua estreia no novíssimo estádio do Mineirão.

O rápido declínio

Naquela competição nacional, o time de Sabará se tornaria o primeiro mineiro a fazer uma partida interestadual no recém-inaugurado palco maior do futebol mineiro. Venceu o Atlético Goianiense por 3 a 1, avançando à etapa seguinte depois de ter triunfado também em Goiânia por 3 a 0. E, na semifinal da chave Sul/Sudeste/Centro, caiu diante do Grêmio, campeão gaúcho, perdendo no Olímpico por 3 a 1 e empatando em 2 a 2 no Mineirão.

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Também coube ao campeão mineiro a honra de inaugurar o hoje extinto estádio Pelezão, em Brasília, no quinto aniversário da capital federal. Mas nem tudo foi festa naquele ano de 1965. A turbulência interna levou à renúncia do presidente Manuel Édson em março. O técnico Yustrich ameaçou se demitir em várias ocasiões, e acabou por deixar mesmo o posto em setembro. No fim do ano, o time começaria a ser desmontado.

Tião “Cavadinha” seguiu para o Vasco. Noventa e Dawson foram vendidos ao Atlético. Mesmo sofrendo uma derrota decepcionante em casa para o Valeriodoce na estreia do Mineiro de 1965, o time ainda conseguiu terminar na terceira posição. Mas, muito enfraquecido pelo desmanche do elenco, o Siderúrgica brigou para não cair em 1966. Na última rodada, venceu o Renascença, rival direto pelo descenso, e se salvou, rebaixando o adversário.

Porém em janeiro de 1967, quando o Siderúrgica iniciou negociações para o aumento da verba de financiamento da Belgo-Mineira, a empresa manifestou intenção de reduzir ou até interromper os investimentos no clube. A questão se arrastou até o meio do ano, quando, sem tempo hábil para formar seu time, os dirigentes anunciaram que o Esquadrão de Aço não tinha como disputar o Campeonato Mineiro profissional daquela temporada.

O clube então reverteu ao amadorismo, jogando a liga de Sabará. Desde os anos 90, no entanto, tentou se reerguer algumas vezes, com participações esporádicas – e malsucedidas – nas divisões inferiores do futebol mineiro, a última delas em 2016. Hoje, com a Belgo-Mineira comprada nos anos 2000 pela ArcelorMittal e o estádio da Praia do Ó desapropriado pela Prefeitura, resta muito pouco dos velhos dias de glória do Esquadrão de Aço.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.