Mais de um século de histórias. O clássico contra a Argentina explica a própria gênese da seleção brasileira, em 1914. E, desde então, o confronto reúne diversos episódios memoráveis. Copa Roca, Copa América, Copa do Mundo, Eliminatórias: canarinhos e albicelestes mediram forças nos mais diferentes níveis de competência, o que ajudou a acirrar a rivalidade. Mas até mesmo os amistosos não passam incólumes da gana por vencer, como os dois jogos memoráveis realizados em setembro de 1999. Dois timaços, que buscavam a hegemonia contra os rivais antes da virada do século e fizeram jus às expectativas, com a vitória argentina por 2 a 0 no Monumental de Núñez e a brasileira por 4 a 2 no Beira-Rio.

Depois de três anos sem duelos, a animosidade voltou a se acirrar a partir de abril de 1998. Brasil e Argentina entraram em campo para um amistoso no Maracanã, preparatório à Copa do Mundo. Apesar do favoritismo dos comandados por Zagallo, a Albiceleste se impôs: vitória amarga por 1 a 0, com gol de Cláudio López. Foi a última vez que Romário e Ronaldo dividiram o ataque da Seleção em uma partida oficial.

Pouco mais de um ano depois, aconteceu o reencontro nas quartas de final da Copa América de 1999. As duas equipes haviam passado por mudanças, com as chegadas de Vanderlei Luxemburgo e Marcelo Bielsa. Desta vez, melhor para o Brasil. Sorín deixou os argentinos em vantagem, mas os brasileiros buscaram a virada. Rivaldo marcou de falta, enquanto Ronaldo deixou o dele em chute de fora da área. E quando a Albiceleste teve a chance de igualar novamente, Dida defendeu um pênalti de Ayala. Aquele resultado foi fundamental para o título canarinho no Paraguai, com os 3 a 0 na decisão diante da seleção uruguaia.

Já em setembro de 1999, os países disputaram dois amistosos de luxo. Os encontros, inspirados na antiga Copa Roca, estavam sendo organizados para comemorar os 35 anos do jornal Zero Hora. Tanto Brasil quanto Argentina convocaram suas seleções principais – o que Bielsa não havia feito na Copa América, deixando de fora alguns nomes importantes que atuavam no futebol europeu. E, em Buenos Aires, havia mesmo a sensação de obrigação, com grande mobilização dos torcedores desde a chegada do elenco, além do início instável do trabalho de Marcelo Bielsa. Nas arquibancadas do Monumental, 65 mil albicelestes se uniram para ver uma imposição de sua seleção, que poderia ter ido além dos 2 a 0 no placar.

Pressionando desde os primeiros minutos, a Argentina exigiu boas defesas de Dida. O goleiro, entretanto, falhou quando Verón abriu o placar. Após cobrança de falta rápida, o meio-campista arriscou de fora da área, contando com um escorregão do camisa 1. A Albiceleste martelava e o Brasil (que escalava pela primeira vez o trio Rivaldo-Ronaldo-Ronaldinho) era inócuo no ataque, anulado pela marcação adversária. Logo no início do segundo tempo, Kily González serviu Crespo, que ampliou. Quando Ronaldo carimbou a trave, depois disso, já era tarde para qualquer reação. Com razão, os brasileiros voltaram ao país sob críticas pela fraca atuação.

Em Porto Alegre, justo no 7 de setembro, a postura do Brasil seria completamente diferente. E graças ao melhor jogador do mundo naquele momento: Rivaldo. Se o camisa 10 ganhou a Bola de Ouro e também o prêmio da Fifa em 1999, aquela atuação contra a Argentina certamente teve seu valor. Individualmente, está entre as melhores partidas feitas pelo pernambucano com a camisa da Seleção. Talvez até a melhor, mas sem o peso decisivo de jogos de Copa do Mundo. O meia colocou no bolso a marcação de ninguém menos do que Fernando Redondo, em sua última partida antes de renunciar à camisa albiceleste. Naquele dia, a palavra rivalidade soava mais como uma junção entre Rivaldo e genialidade.

Luxemburgo não realizou mudanças em relação ao time da ida. Escalou exatamente os mesmos 11 titulares, apesar das críticas de que Ronaldinho Gaúcho não havia rendido por jogar fora de posição. Bielsa, por sua vez, preferiu reforçar o meio de campo. Tirou Claudio López e escalou Killy González, adiantando Ortega para o ataque. Apostava, como sempre, em seu tradicional 3-5-2, com Zanetti, Redondo, Verón e Sorín recheando a faixa central de qualidade técnica.

Pois as virtudes da Argentina foram prontamente ignoradas pela atuação exuberante de Rivaldo, muito bem acompanhado por Ronaldo, Ronaldinho e Zé Roberto na linha de frente. Com 12 minutos de jogo, o Brasil teve dois gols anulados, um deles incorretamente – curiosamente, pelos bandeirinhas brasileiros, escalados para economizar nos gastos. Bonano ia salvando os albicelestes como podia, evitando um golaço de bicicleta do camisa 10 da Seleção e uma cobrança de falta no ângulo. O domínio era tamanho que, ainda com o placar zerado, a torcida gaúcha começou a gritar ‘olé’. Foram sete finalizações em apenas 25 minutos. Mas os gols mesmo só saíram no final do primeiro tempo. Aos 41, após grande jogada de Vampeta, Rivaldo driblou Bonano para marcar. Logo na sequência, Ronaldinho passou de calcanhar para Roberto Carlos, que cruzou na cabeça de Rivaldo, imperdoável. E ainda houve tempo para a Argentina descontar, com Ayala subindo livre após falta cobrada por Verón.

No segundo tempo, o Brasil concretizou a goleada. O domínio diminuiu um pouco, mas lá esteve Rivaldo outra vez, aproveitando sobra dentro da área para anotar o terceiro. Já o quarto foi cortesia de Ronaldo, deixando sua marca graças a um passe milimétrico do camisa 10, que puxou contra-ataque desde o campo de defesa. Depois de outro tento regular anulado incorretamente, o camisa 9 fuzilou Bonano. Nos instantes finais, a Argentina manteve sua dignidade graças ao golaço de Ortega, deixando Scheidt no chinelo. Os 4 a 2 no placar eram inapeláveis. E, assim como ocorrera em Núñez, magros para explicar o predomínio do vencedor.

Com sua pena certeira, Tostão analisou assim na Folha de S. Paulo do dia seguinte: “Há muito tempo o Brasil não realizava uma partida tão vibrante e brilhante. Foi um show de talento e de eficiência. Rivaldo mostrou por que é hoje o jogador com maior capacidade individual em todo o mundo para decidir uma partida”. Pela primeira vez desde Pelé, em 1963, um brasileiro marcava três gols em um mesmo jogo contra os maiores rivais – o que, desde então, só foi repetido por Ronaldo com os três de pênalti no clássico de Belo Horizonte em 2004. E isso porque Rivaldo teve um tento mal anulado e ainda deu uma assistência.

“Qualidade a gente tem, o que o time precisa é igualar-se ao adversário na marcação, na determinação. Hoje, o Brasil provou que pode jogar assim”, avaliou na época Vanderlei Luxemburgo, apontando que aquela havia sido a melhor apresentação da Seleção desde que chegara ao comando. A tranquilidade do treinador não durou muito tempo, com o início difícil nas Eliminatórias e a queda antes do esperado nas Olimpíadas. De qualquer maneira, o clássico do Beira-Rio valeu como prévia ao que o trio formado por Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho seria capaz de fazer na Copa do Mundo de 2002.

Abaixo, apenas os lances individuais de Rivaldo em Porto Alegre:

Confira também as escalações nos dois amistosos de setembro de 1999:

Argentina 2×0 Brasil

Argentina: Bonano, Vivas, Ayala, Samuel; Zanetti, Redondo, Verón (Simeone), Ortega (Gallardo), Sorín; Claudio López (Kily González), Crespo (Berizzo).

Brasil: Dida, Cafu, Antônio Carlos, Scheidt, Roberto Carlos; Emerson, Vampeta (Marcos Assunção), Rivaldo, Roberto Carlos, Zé Roberto (Alex); Ronaldinho (Élber), Ronaldo.

Brasil 4×2 Argentina

Brasil: Dida, Cafu, Antônio Carlos, Scheidt, Roberto Carlos; Emerson, Vampeta (Marcos Assunção), Rivaldo, Zé Roberto (Juninho Pernambucano); Ronaldinho (Élber), Ronaldo.

Argentina: Bonano, Vivas (Husaín), Ayala, Samuel; Zanetti, Redondo (Simeone), Verón (Schelotto), Kily González (Gallardo), Sorín; Ortega, Crespo (López).


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