“Eu realmente estou sem palavras, porque é um momento muito fantástico. As pessoas me falam: ‘Você já esteve nessa posição tantas vezes, e todas as vezes você se emociona?’. Realmente. Eu faço isso porque representa muito pra mim”.

Foi difícil não se emocionar durante o discurso de Marta no palco armado ao prêmio The Best. O sentimento aflorado era visível nos olhos marejados da craque, no sorriso escancarado, na voz trêmula de quem ainda assimilava o momento. Os aplausos à camisa 10 também concediam uma pausa para que ela se recompusesse. E não só ela, em comoção que se espalhou em meio à plateia formada por estrelas do esporte, de Sissi a Ronaldinho Gaúcho. Um turbilhão de sensações que superou barreiras físicas e transpassou a tela de quem assistia à cerimônia. Mesmo que a maioria não entendesse realmente o que a atacante dizia em português, sabia perfeitamente o que ela transmitia. E quem entendia só podia se encher de orgulho. Pela sexta vez, Marta é eleita a melhor jogadora de futebol do mundo. Mais do que qualquer outro ser humano, numa espera maior do que qualquer um já encarou. A coroação definitiva da Rainha.

Marta não é mais o fenômeno que arrebatou cinco prêmios consecutivos entre 2006 e 2010. A jogadoraça que aliava uma habilidade muito acima da média com sua capacidade física. Que sobrava em campo, este tipo de gênio do esporte que parece vir de outra época, que só passa pela Terra a cada século e se conta em um dedo a cada modalidade. A alagoana não conquistou os maiores títulos com a seleção brasileira, mas fez o futebol feminino do país se destacar como nunca. Seu reconhecimento, ainda assim, estava acima das taças. Era a magia de quem unia as arrancadas de Kaká, os dribles de Messi ou os chutaços de Cristiano Ronaldo, seus contemporâneos de premiação, tudo de uma só vez. Marta chegou a um patamar inédito às mulheres, e também aos homens, com seus cinco troféus.

A última década, no entanto, transformou a realidade para Marta e para o futebol feminino no Brasil. As condições físicas já não eram tão preponderantes assim. Da mesma maneira, a Seleção perdeu competitividade no cenário internacional e nem sempre conseguiu disputar as principais taças. Já não seria tão fácil competir com outras craques pelo prêmio de melhor do mundo, por mais que o lugar cativo da brasileira estivesse lá, por mais que sua qualidade extraordinária ainda falasse por si. Em 2015 e 2017, a atacante sequer figurou no trio de finalistas. Até que a redenção acontecesse desta vez, em 2018, contra Dzsenifer Marozsán e Ada Hegerberg.

Marta não era necessariamente a favorita ao prêmio The Best. Não vinha de uma temporada vitoriosa como as duas estrelas do Lyon, especialmente Ada Hegerberg, arrebentando com o clube. À alagoana, pesava mais o desempenho individual com o Orlando Pride e a conquista da Copa América com a seleção brasileira. A camisa 10, porém, possui um diferencial: o deslumbramento. A certeza de que ali, dentro de campo, está a mais fantástica jogadora da história. E que continua produzindo lances mágicos, independentemente dos seus 32 anos de idade. A craque sempre se apresentará como alguém além da realidade, e é essa que merece respeito. A que conquistou cinco prêmios anteriormente e vem à mente imediatamente quando se pensa na melhor.

Foi essa Marta, de nome eternizado e talento reverenciado, que venceu uma eleição bastante apertada. A brasileira recebeu 14,73% dos votos, sua menor diferença em todas as seis vitórias e muito abaixo das lavadas que deu na maioria absoluta dos anos – exceção feita à primeira condecoração em 2006. Nesta votação, as outras duas finalistas ficaram  bastante próximas, com 12,86% para Marozsán e 12,6% para Hegerberg – que provavelmente perderam força entre si, pelo protagonismo no Lyon. Mesmo a quinta colocada, Pernille Harder, não esteve tão distante assim. A ganhadora do prêmio de melhor da Europa somou 10,08% dos votos, logo atrás dos 11,64% de Megan Rapinoe.

Mas o que fez a diferença para Marta ganhar? Diferentemente de outros anos, a Fifa não divulgou os números da votação. No entanto, a partir da lista geral de indicações, é possível calcular os valores. Marta não foi a mais popular entre as capitãs. A brasileira recebeu 13,15% dos pontos totais entre as colegas de profissão e mais 10,08% dos técnicos, em categorias lideradas por Megan Rapinoe e Dzsenifer Maroszán. A brasileira ainda teve números ligeiramente menores entre os jornalistas, com 9,37% dos pontos, em ramificação dominada por Ada Hegerberg. Assim, o que realmente pesou para Marta foi a votação do público. Para que seus números se alavancassem tanto, precisou de 26,32% das indicações no site da Fifa, superando as concorrentes. Vale lembrar que cada uma das quatro categorias (capitãs, técnicas, mídia e público) representam um quarto do total, em ponderações pareadas que acabam gerando o percentual definitivo.

Há um simbolismo enorme nisso tudo. Marta é respeitada entre as colegas de profissão e ainda tem boa consideração entre os jornalistas. De qualquer maneira, a realeza se reitera graças aos súditos que conquistou em mais de uma década jogando no mais alto nível. Doze anos depois do primeiro troféu e oito depois do quinto, a Rainha retoma o trono, numa longevidade como a melhor que nunca antes tinha sido registrada nas grandes premiações individuais do futebol.

Se muitos dos eleitos no Fifa The Best passam por uma série de questionamentos, a escolha de Marta traz valor ao prêmio, por aquilo que acaba significando. A eleição da camisa 10 pode até ser discutida em termos de feitos coletivos, mas não se diminui em questão de habilidade ou de história no futebol. E, por isso, emociona ainda mais ver uma lenda de voz embargada pelo reconhecimento público. Fica gravada nos livros de história a maneira como a camisa 10 continuou jogando em alto nível por todo esse tempo. Como seu talento é, definitivamente, atemporal.