A eleição de melhor do mundo da FIFA deste ano era tão barbada que, quando foi receber o prêmio pelo melhor gol de 2009, Cristiano Ronaldo afirmou que não esperava ganhar nada naquela noite. Sinal de que o menino prodígio português está amadurecendo um pouco em suas declarações públicas – o que ainda é pouco para desfazer o estigma de “mascarado” e “marrento” que o jogador cultiva inclusive em Portugal. Mas diante das conquistas de Lionel Messi, o segundo lugar de Ronaldo na eleição da FIFA ficou de muito bom tamanho.

Causou espécie, no entanto, verificar os votos dados por capitães e técnicos de Brasil e Argentina. Os quatro juntos poderiam votar em até 12 nomes diferentes para melhor do mundo. Nenhum desses votos foi para Cristiano Ronaldo – num claro corporativismo para favorecer os jogadores de suas seleções. Dunga e Lúcio, pelo Brasil, além de deixarem o português de fora, também ignoraram Messi – em favor de Kaká. Pela Argentina, Mascherano e Maradona ignoraram Ronaldo e Kaká – em favor de Messi. Pobreza de espírito, acima de tudo, conforme já comentado no blogue deste site pelo Bertozzi.

Já Carlos Queiroz e Simão Sabrosa (respectivamente técnico e capitão de Portugal) pareceram muito mais honestos em suas escolhas: o primeiro votou, pela ordem, em Messi, Xavi e Eto’o; o segundo em Messi, Kaká e Iniesta. Cristiano Ronaldo esperava revalidar o título em 2009? É lógico que sim, algo que poderia ter acontecido caso vencesse a Liga dos Campeões sobre o Barcelona de Messi e caso brilhasse com a Seleção Portuguesa nas eliminatórias européias da Copa do Mundo. Mas tanto um como outro, ao lado de Kaká, têm condições de disputarem o prêmio nos próximos anos, apesar da “cegueira” dos votos dados pelas duas principais seleções sul-americanas.

A última
 

Conforme referido na semana anterior, esta é a última colaboração deste colunista para a Trivela nos próximos tempos. Sou docente de uma universidade pública em São Paulo, e o acúmulo de atividades me impede de continuar mantendo este espaço com a dedicação que ele merece. Mas nada impede que eu volte a participar da equipe do site num futuro próximo, visto que, para mim, sempre foi um privilégio fazer parte deste time – de longe, o que melhor trata o futebol internacional no Brasil, algo que também podia ser visto na Revista Trivela, extinta há alguns meses e com a qual também colaborei com uma dezena de matérias.

Com este texto de hoje, chego a 371 colunas dedicadas ao futebol português, em nove anos e meio de escrita. Iniciei meu trabalho aqui em agosto de 2000, a convite dos precursores do site (Aduil Jr., Cassiano Gobbet e Tomaz Alves). Também em agosto de 2000, assinei uma coluna sobre arbitragem, na qual eu discutia regras e assuntos ligados às decisões dos árbitros. Entretanto, essa coluna durou pouco – até janeiro de 2001, apenas. Foi quando iniciei outra colaboração que me deu muito prazer: a coluna “Avenida Paulista”, dedicada ao futebol dos clubes do Estado de São Paulo. Iniciada em fevereiro de 2001, foi publicada em 129 oportunidades, até abril de 2004.

Passo a régua
 

Ao longo destes quase dez anos de presença na Trivela, o balanço que faço sobre o futebol português – motivo desta coluna – é bastante positivo. Portugal saiu da figura de mero coadjuvante no cenário internacional e passou a ocupar maior protagonismo, por diferentes razões: no cenário europeu, os Tugas têm participado das Eurocopas desde 1996, com campanhas meritórias (semifinalista em 2000 e vice-campeão em 2004). Em 2004, aliás, Portugal promoveu com competência e entusiasmo sua primeira Eurocopa. E, nos Mundiais, vai para sua terceira participação consecutiva (2002, 2006 e 2010), algo inédito para quem, até então, tinha apenas duas presenças em Copas (1966 e 1986).

Parte do prestígio que Portugal conquistou no Brasil tem a ver com o fato de a seleção lusa ter sido treinada pelo brasileiro Luiz Felipe Scolari de 2002 a 2008 (aliás, em setembro de 2002, esta coluna foi a primeira no Brasil a especular que Felipão poderia acertar com a Federação Portuguesa). O que muitos esquecem é que, nesse período, Portugal teve dois atletas eleitos o melhor do mundo pela Fifa: Luís Figo em 2001 e Cristiano Ronaldo em 2008. No século XXI, só o Brasil tem mais conquistas do que Portugal nessa eleição. E quando o Real Madrid contratou Luís Figo e Cristiano Ronaldo, as duas transações foram as recordistas da história do futebol mundial.

No âmbito dos clubes, o século XXI não foi de todo ruim para as equipes portuguesas. Diante da concentração de riquezas em torno dos clubes ingleses, espanhóis e italianos, apenas duas vezes o título da Liga dos Campeões não ficou nas mãos deles: em 2001, com o Bayern de Munique, e em 2004, com o Porto. O Porto, aliás, tem sido presença constante nas fases de mata-mata da competição, algo que o Benfica também alcançou em 2006, ao disputar as quartas-de-final com o Barcelona. Já no âmbito doméstico, meu primeiro ano de Trivela testemunhou o título nacional do Boavista, em 2001. Foi a segunda vez na história que o campeonato nacional não ficou nas mãos de Benfica, Porto ou Sporting (a outra foi em 1946, com o Belenenses).

Estigma de vira-latas
 

Fica, por último, um lamento: o futebol português, apesar de ser a liga que mais concentra jogadores brasileiros no exterior, ainda é muito desprezado no Brasil. A gigante ESPN, que mantém dois canais no país, sequer noticia o campeonato local em sua grade de programas jornalísticos – prefere ligas mais “exóticas”, como a russa. O mesmo acontece com a Sportv, que transmite o futebol francês. E a Folha de S. Paulo, jornal de maior vendagem por aqui, também ignora solenemente o campeonato português em suas páginas. Apenas a Bandsports apresenta jogos dos times lusos semanalmente, com transmissões sempre divertidas – e informações incompletas – na voz de Silvio Luiz.

Além de Portugal contar com dois jogadores brasileiros que certamente estarão na Copa do Mundo de 2010 (falo de Luisão e Ramires, ambos do Benfica), na seleção local alinham três brasileiros “nacionalizados” portugueses, que também estarão na próxima Copa: Deco, Pepe e Liedson – fato único no mundo do futebol. É óbvio que não dá para comparar a Liga Portuguesa com o que ocorre na Inglaterra, na Espanha e na Itália. Mas um pouco mais de boa vontade com o futebol luso permitiria que o leitor e o espectador brasileiro tivessem acesso a uma liga que, dentro de campo, não fica a dever nada ao que acontece nas ligas de França, Holanda, Escócia, Rússia e por aí vai.

Golo de Letra
 

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena. 

(Fernando Pessoa, “Mar Português”, em Mensagem)