Uma pessoa com um mínimo de bom senso não faria aquilo. Ficar cinco horas e meia apertado na arquibancada, na chuva, para ver um jogo. Pior, era antevéspera de Natal e havia formas mais produtivas de ocupar aquele domingo, até porque eu não torcia por nenhum dos times que entrariam em campo. Mas, em 23 de dezembro de 2001, eu estava entre os 20 mil torcedores (número oficial, pois a sensação é de que enfiaram mais gente no estádio) que estavam no Anacleto Campanella para ver a final do Brasileirão de 2001 entre São Caetano e Atlético Paranaense. Por quê? Porque eu quis e me esforcei para gostar do Azulão.

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Tudo bem, não foi algo gratuito. Minha família materna é do bairro da Vila Prudente, colado na divisa com São Caetano do Sul. Então, passar pelo C do ABC paulista era algo comum desde sempre. Algo que ficou mais reforçado quando tive meu primeiro estágio, no Diário do Grande ABC, em 1998. Assim, ver um time da região despontar no cenário nacional soava legal, até porque o São Caetano subiu degrau por degrau, usando uma base de jogadores desconhecidos ou rejeitados por tantos outros clubes.

Era um time com alto potencial para ser folclórico e simpático. O artilheiro era o fanfarrão Adhemar. Os craques eram César, que havia passado pela prisão por um erro que ele admitiu ter cometido, e Claudecir, volante com passada elegante. O goleiro era Silvio Luiz, de passagem apagada no Flamengo. E ainda havia uns apelidos interessantes como Dininho, Adãozinho, Japinha e Esquerdinha, nomes de jogadores de uma era mais romântica do futebol. Não teve jeito: eu não me tornaria torcedor do São Caetano porque virar casaca é falta de caráter, mas daria para adotar como uma daquelas equipes que se segue com simpatia.

Sorrateiramente, essa equipe eliminou o Fluminense de Roger, o Palmeiras de Marcos e Arce e o Grêmio de Ronaldinho Gaúcho e Zinho na Copa João Havelange de 2000. Só caiu na final para o Vasco de Romário, Juninho Pernambucano e Juninho Paulista. Parecia um acidente, um fenômeno de um mata-mata de um torneio que havia sido aleatório desde sua existência. Mas aquele acidente foi se repetindo, com a grande campanha do Brasileiro de 2001, o vice da Libertadores de 2002 (sim, eu estava no Pacaembu naquele jogo contra o Olímpia, o da foto no alto), o título Paulista de 2004.

Torcedores do São Caetano na final do Paulistão de 2004 (AP Photo/Andre Penner)
Torcedores do São Caetano na final do Paulistão de 2004 (AP Photo/Andre Penner)

Mas gostar do São Caetano era coisa de alguém abnegado demais, ou com um vínculo com a menor (em área) cidade do ABC. Afinal, o clube não fazia nada para ser amado. O são-caetanense é um sujeito orgulhoso de viver em uma das cidades com melhor IDH do Brasil, mas o clube ignorava isso. Não havia uma tentativa de estabelecer um vínculo com a comunidade. Uma coisa que se foi de vez com a morte de Serginho, durante um jogo contra o São Paulo no Morumbi no Brasileirão de 2004.

O primeiro sinal desse desapego foi a média de público. No auge, em 2001, foi de 4.479 pagantes. Parece pouco, mas foi maior que a de Paraná e Juventude, e mais da metade do Vasco (8,1 mil). Daí, foi ladeira abaixo: 3.172 em 2002, 2.367 em 2003, 2.472 em 2004, 3.094 em 2005 e 1.905 em 2006. Detalhe: a partir de 2003, com a adoção dos pontos corridos, o time tinha garantia que jogaria em casa contra todos os grandes de São Paulo, lotando o Anacleto e mascarando um pouco a média de público real da equipe (em 2003, o Palmeiras estava na Série B, e só por isso a média de 2004 e 2005 foram ligeiramente superiores).

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Enquanto isso, o interesse principal do São Caetano era seguir o projeto político-econômico de seus dirigentes, ligados à prefeitura e a empresários de futebol. O time que soava tão simpático em 2000 ficou com cara de equipe artificial. Muitos simpatizantes, como eu, deserdaram. Sobraram alguns poucos, que merecem respeito pela abnegação a um clube que se importa tão pouco com sua torcida. Também não dava para viver da venda de jogador, pois nunca foi feito um trabalho de categoria de base forte.

Obs.: só dois exemplos bem locais, do ABC. Apesar de também ter apoio político, o São Bernardo faz um trabalho para que as pessoas da cidade vão ao estádio e adotem o time. E o Santo André, com os anos de elite estadual nas décadas de 1980 e 90, conseguiu construir uma torcida própria. É pequena, mas é determinada e barulhenta.

O Azulão caiu para a Série D do Brasileiro, completando três quedas em dois anos (foi da A1 para a A2 paulista e da B para a C nacional em 2013, e agora da C para a D nacional em 2014) é consequência direta de tudo isso. O São Caetano teve uma raríssima oportunidade de jogar como grande, e poderia ter construído uma base ali na qual se sustentaria por um bom tempo. No mínimo, como uma equipe do interior paulista com força local para garantir alguns investimentos.

Mas não. E, se o São Caetano está agonizando agora, é porque não soube fazer que muita gente se importasse com sua decadência e, agora, chorasse por ele. Uma pena, pois, por piores que tenham sido os dirigentes são-caetanenses, o clube fez parte de alguns capítulos da história do futebol brasileiro e seria triste se, um dia, tudo isso virasse entulho em alguma sala abandonada e empoeirada do Anacleto.