O estilo de jogo aplicado por Jorge Sampaoli costuma ser uma faca de dois gumes. Se a vitória acontece, especialmente por um placar dilatado, ela rende elogios pela postura ofensiva. As derrotas, no entanto, são implacáveis. Retratam uma pressão pouco produtiva, contra um adversário concentrado na defesa e eficiente nas raras chances que surgem. Exatamente o que aconteceu nesta terça-feira, com a emblemática eliminação na Copa Sul-Americana. O favoritismo do Peixe diante do River Plate do Uruguai, dentro do Pacaembu de portões fechados pelos incidentes na última Libertadores, era imenso. E os alvinegros fizeram o seu papel, dominando os visitantes. Faltou um gol: depois que os uruguaios inauguraram o marcador, os santistas não foram além do empate por 1 a 1, que selou a eliminação após o 0 a 0 em Montevidéu. Sampaoli ainda merece os elogios por fazer diferente, por fugir da mesmice vista no Brasil. Mas acaba arcando com as consequências de uma queda vexatória. Apesar da presença de alguns bons jogadores, a falta de um elenco mais homogêneo cobra seu preço, culminando na decepção dentro do torneio continental.

Desde o primeiro tempo, o Santos mostrou quem mandava no Pacaembu. Trabalhava a bola no campo de ataque e tentava sufocar o River Plate. No entanto, a marcação sólida dos uruguaios não concedia muitos espaços aos alvinegros. A troca de passes incessante se transformava em samba de uma nota só e, apesar da insistência, raras foram as oportunidades reais do Peixe para balançar as redes. Exceção feita a uma defesa em dois tempos nos primeiros minutos e a uma cabeçada de Gustavo Henrique ao lado da trave, o goleiro Gastón Olveira levou poucos sustos. Enquanto isso, os alvirrubros aguardavam uma bola para resolver. As escapadas eram escassas, explorando os contra-ataques, mas a situação parecia ardilosa aos santistas. Os 78% de posse renderam apenas seis finalizações aos anfitriões.

A brecha que o River Plate aguardava aconteceu logo aos nove minutos do segundo tempo, quando os uruguaios abriram o placar em contragolpe gerado por uma roubada de bola. O experiente Juan Manuel Oliveira deu um excelente passe em profundidade, por entre os zagueiros, para Mauro da Luz. O meia pegou uma avenida na intermediária e, com Vanderlei saindo tresloucado da área, driblou o goleiro com facilidade. Então, ficou com a meta aberta para definir, e avançou até a área antes de balançar as redes. Era a vantagem que os alvirrubros aguardavam e que aumentaria o empenho na defesa. O empate com gols já obrigava o Santos a virar. Por isso mesmo, a resposta de Sampaoli foi imediata, dando mais presença ofensiva ao ataque com a entrada de Felippe Cardoso – que não correspondeu.

O cenário imposto pelo placar deixou ainda mais clara a diferença entre os times. Enquanto o River Plate se continha à defesa, o Santos partia para cima e tentava encontrar um espaço para finalizar. O relógio era o principal inimigo do Peixe e logo o goleiro Gastón Olveira também se transformou em outro. Quando Felippe Cardoso tentou igualar com um chute rasteiro, o arqueiro fez boa intervenção. O caminho aos uruguaios era travar os chutes e limitar os paulistas a arremates de média distância. O trabalho dos alvirrubros deu certo até os 42 minutos, até que um lance confuso recolocou os santistas no confronto.

Mais uma vez, o Santos precisou arriscar de média distância. Jean Mota mandou de longe o cruzamento e contou com a ajuda de Soteldo, que atrapalhou o goleiro Olveira no meio do caminho. A bola venenosa acabou morrendo no canto, sem chances de defesa. Apesar do alívio, os alvinegros ainda precisavam de um gol para se garantir na fase seguinte. E o desespero bateu na hora de tentar aproveitar os últimos instantes. Copete ficou a um triz de realizar o milagre, em cabeçada que passou muito próxima da trave. A persistência vinha principalmente nas bolas alçadas rumo à área, que a defesa do River Plate conseguia afastar. Mesmo os cinco minutos de acréscimos não foram suficientes. Ficou a clara desolação dos santistas ao apito final. As arquibancadas vazias aumentavam a melancolia.

Que o Santos tenha sentido falta de alguns jogadores importantes, indisponíveis para o jogo, seus problemas são evidentes. O Peixe careceu de alguém com mais presença de área, apesar de todo o esforço de Soteldo na linha de frente. Mais do que isso, se mostrou afobado na definição das jogadas, não sabendo o momento correto de acelerar o passe ou pensar um pouco melhor com a bola nos pés. Apesar de uma boa postura coletiva, os erros individuais na criação atravancaram a equipe. Falta mais qualidade no elenco, algo que se agrava quando alguns dos principais jogadores não estão em noite inspirada – como Carlos Sánchez. Ao final, o tropeço soa como desastre. A Copa Sul-Americana era uma excelente alternativa ao clube, fora da Libertadores. Precisará se contentar com as competições nacionais. Que o aproveitamento de Sampaoli seja muito bom até aqui, os revezes ecoam: a goleada do Ituano, única derrota até o momento, e o fracasso contra o River Plate.

Obviamente, há um outro lado nesta história. Os nanicos do Uruguai comemoram uma classificação gigantesca na competição continental. Mas isso também oferece um sinal de alerta ao futebol brasileiro. Por enquanto, o desempenho nas fases iniciais dos torneios da Conmebol é decepcionante. São Paulo, Chapecoense e Bahia também foram eliminados por oponentes com investimento bem menor. A queda do Santos aumenta o questionamento sobre a falta de competitividade.