O salto de Omam-Biyik foi do tamanho da surpresa provocada por Camarões na abertura da Copa de 90

Se qualquer jogo de Copa do Mundo tem uma capacidade ímpar de marcar a vida da gente, a abertura do torneio possui uma primazia para ficar na nossa memória. Você provavelmente se lembra do lugar onde assistiu à maioria das aberturas e talvez até algumas coisas aleatórias que fez no dia. A expectativa imensa para o início do torneio contribui a esse efeito. E ajuda um pouco mais o fato de que os jogos iniciais dos Mundiais são pródigos em guardarem grandes surpresas. A mais marcante aconteceu em 8 de junho de 1990, dentro do San Siro: Camarões não quis saber de Maradona do outro lado e derrotou a Argentina por 1 a 0, abrindo uma campanha que seria ainda mais especial aos Leões Indomáveis.

Camarões disputava sua segunda Copa do Mundo e não era um time desconhecido, sobretudo aos italianos. Em 1982, os camaroneses entraram em um grupo dificílimo contra Itália, Polônia e Peru. Conseguiram segurar três empates e poderiam até mesmo ter encerrado precocemente a campanha da Azzurra rumo ao tri mundial. Oito anos depois, alguns remanescentes apareciam no elenco dos Leões Indomáveis. A classificação veio superando a Nigéria na fase de grupos das Eliminatórias, antes de bater a Tunísia no confronto decisivo. Já na preparação, os resultados ruins elevavam as desconfianças sobre o time. Camarões caiu na fase de grupos da Copa Africana de 1990 e perdeu para clubes sem relevância nos amistosos antes do Mundial.

Dez jogadores do elenco defendiam equipes europeias, sobretudo francesas, mas a maioria atuava apenas em divisões de acesso. Entre os nomes mais tarimbados estava o goleiro Thomas N’Kono, destaque em 1982, que fazia longa carreira no Espanyol desde então – reapresentado nesta bela entrevista a Julio Gomes, no UOL Esporte. O grande astro, de qualquer maneira, era Roger Milla. O atacante já se inseria como um dos maiores futebolistas africanos da história naquele momento e havia construído sua fama no Campeonato Francês. Todavia, aos 38 anos, já tinha se despedido da seleção e se encaminhava ao final da carreira no futebol amador das Ilhas Reunião. Seu retorno ao elenco aconteceu através do presidente de Camarões, Paul Biya, que ligou a Milla e o convenceu a disputar sua segunda Copa.

O clima ruim na concentração de Camarões aumentava as reticências. O elenco camaronês se rachou, com os mais novos se distanciando dos mais velhos. Muitos jogadores não estavam satisfeitos com a canetada que incluiu Roger Milla na convocação e o pagamento dos prêmios pela classificação à Copa (sempre isso) estava atrasado. O porta-voz do grupo era Joseph-Antoine Bell, goleiro que vinha em ótima fase no Bordeaux e foi o titular durante toda a preparação. Às vésperas da estreia, o arqueiro de personalidade forte meteu a boca no trombone e expôs as feridas durante uma entrevista à imprensa francesa.

Bell declarou que Camarões não tinha chances contra a Argentina e que o time cairia logo na fase de grupos. Também criticou a preparação elaborada pela federação e a escolha do técnico, o soviético Valery Nepomnyashchy, contratado em 1988. O comandante só estava na posição pelas relações políticas entre União Soviética e Camarões, não por seu currículo – limitado a um clube da terceira divisão na URSS. O treinador sequer falava francês, contando com os serviços de tradutor do antigo motorista da embaixada camaronesa em Moscou, e aplicava um rígido esquema de treinamentos, com atividades começando às sete da matina. Não agradava a muitos jogadores, que o viam como um fantoche do governo.

E se a crise surgia de todos os lados em Camarões, a Argentina carregava ainda mais favoritismo consigo, mesmo que tivesse também seus entraves internos. A equipe seguia estrelada por Diego Maradona, que vinha de temporada exuberante com o Napoli, campeão italiano cerca de um mês antes. Outros medalhões do elenco campeão em 1986 continuavam ao lado do craque, como Jorge Burruchaga e Oscar Ruggeri, ainda comandados por Carlos Bilardo. E a Albiceleste também se servia de talentos em ascensão, mais notadamente alguns em atividade no próprio Calcio – a exemplo de Claudio Caniggia, Abel Balbo e Roberto Sensini.

Antes que a bola rolasse no San Siro, reformado para a Copa do Mundo, a organização do torneio realizou um grande evento de abertura. As óperas de Giuseppe Verdi e as canções oficiais da competição ditariam o ritmo da festa, que contou com a participação dos principais estilistas italianos da época, homenageando os quatro continentes presentes no torneio. As bandeiras dos 24 países tomaram o gramado, enquanto os torcedores acenavam com margaridas nas arquibancadas. Cerca de 800 milhões de pessoas sintonizavam a abertura do Mundial na televisão, transmitida ao vivo para 147 países.

Camarões entrou em campo sem Milla, mas com N’Kono, no lugar do barrado Bell – que nem no banco ficou, com o espaço ocupado pelo jovem Jacques Songo’o. Como em voga durante toda aquela Copa do Mundo, os Leões Indomáveis apresentaram um futebol de forte marcação e muito vigor físico, por vezes até exagerando nas entradas mais duras. O capitão Stephen Tataw liderava o trabalho árduo atrás, responsável por cuidar de Maradona. Por outro lado, os Leões Indomáveis também tinham sua dose de malícia e talento. Na linha de frente, os camaroneses apostavam na qualidade de François Omam-Biyik e Cyrille Makanaky, dois jovens que atuavam em clubes pouco expressivos do Francesão.

A Argentina teve sua chance nos primeiros cinco minutos, quando desperdiçou bons lances para abrir o placar, esbarrando em N’Kono. Depois disso, a equipe de Bilardo se viu travada por Camarões, que se defendia bem, mas não deixava de contragolpear com velocidade e perigo – em avanços muitas vezes puxados por Louis-Paul M’Fédé, camisa 10 de habilidade e criatividade. François Omam-Biyik era outro que incomodava bastante e viu os argentinos se safarem. Já durante o intervalo, a Albiceleste precisou tirar da zaga Ruggeri, com problemas físicos. Caniggia entrou mais à frente para dar velocidade ao ataque.

Os sinais de que uma zebra poderia desfilar em Milão ressurgiram na volta ao segundo tempo, com Omam-Biyik e Makanaky assustando. A Argentina até criou esperanças aos 16 minutos, quando ficou em vantagem numérica. Uma decisão rigorosa do árbitro Michel Vautrot (ainda mais tendo em vista algumas entradas bem mais violentas no primeiro tempo) rendeu o vermelho direto a André Kana-Biyik. Só que, justamente no momento em que parecia menos provável, Camarões causou o espanto no San Siro.

O gol da vitória saiu aos 22 minutos. Após uma falta cobrada por Bertin Ebwellé no lado esquerdo do ataque, Makanaky desviou no primeiro pau e François Omam-Biyik (irmão mais novo do expulso André) subiu ao sexto andar para cabecear. A finalização veio em direção ao chão, mas sem tanta força. No entanto, Pumpido errou em seu movimento e viu a bola bater em suas mãos antes de entrar. A falha permitia a surpresa de Camarões, que continuaria se segurando até o final.

A Argentina tentou pressionar, mas os cruzamentos na área acabavam nas mãos de N’Kono. Quando Balbo teve uma boa oportunidade, cabeceou para fora. Já aos 43 minutos, os Leões Indomáveis ficaram com nove homens, depois que Benjamin Massing também foi expulso – em entrada truculenta sobre Caniggia, na qual perdeu até a chuteira. Mesmo assim, quase deu para os africanos ampliarem, em boa chance de Emile M’Bouh nos acréscimos. Terminaram o duelo com 15 finalizações, contra apenas seis dos argentinos.

O apito final desencadeou uma comemoração emocionada dos jogadores de Camarões. Sob os aplausos da torcida em Milão, os reservas invadiram o campo, como se já tivessem conquistado um título. De fato, a representatividade daquela vitória ia muito além dos pontos na tabela. A preparação bagunçada, os jogadores pouco conhecidos e mesmo os rachas internos não seriam suficientes para atrapalhar a caminhada dos camaroneses na Itália. Os Leões se tornariam indomáveis na competição.

Do lado argentino, o tom era de estupefação. À Folha, Maradona não quis dar desculpas ou criticar qualquer um pelo resultado: “Depois do gol, eu sumi: foi um golpe que não esperava. Se Camarões ganhou, não foi por acaso. O resultado é bem claro e não admite dúvidas”. Já o técnico Carlos Bilardo se mostrava frustrado: “Foi a pior coisa que aconteceu em toda a minha vida – como técnico, como jogador, como tudo. A partida estava sob controle, até que Camarões ficou com dez homens. Nesse momento, o time se desorganizou e, na ansiedade de ganhar, deixou a defesa desprotegida. O principal problema está no que venho dizendo há algum tempo: alguns jogadores não tiveram oportunidade de se adaptar ainda ao esquema da seleção”.

Em Camarões, a ambição se reforçou também diante dos microfones. “Não há dúvidas de que poderemos ser o time surpresa desse Mundial”, declarou o capitão Tataw, depois da partida, em aspas reproduzidas pelo jornal O Globo. Ou como deixou claro o herói François Omam-Biyik, ao jornal The Guardian: “Ninguém pensava que nós poderíamos fazer qualquer coisa contra Maradona, mas nós sabíamos o que poderíamos fazer. Odiamos quando repórteres europeus nos perguntam se comemos macacos e se temos um feiticeiro como médico. Somos jogadores de verdade e provamos isso nesta noite”.

Camarões encaminhou a classificação às oitavas de final na segunda rodada, quando Roger Milla saiu do banco e anotou os dois gols na vitória por 2 a 1 sobre a Romênia. A goleada por 4 a 0 sofrida diante da eliminada União Soviética não tirou sequer a liderança dos camaroneses, mas serviu para chacoalhar o time antes dos mata-matas. Então, veio a classificação memorável contra a Colômbia nas oitavas, colocando pela primeira vez uma seleção africana entre as oito melhores do Mundial. Até, por fim, a amarga eliminação contra a Inglaterra – num 3 a 2 só definido durante a prorrogação. O salto incrível de François Omam-Biyik para a história teria um significado além da estreia surpreendente.