Em 15 de maio de 2002, Zinedine Zidane proporcionou um dos momentos mais sublimes de sua carreira. Acariciou a bola rumo às redes, em seu gol mais célebre, determinando a conquista do Real Madrid na Liga dos Campeões. As expectativas em torno do craque às vésperas da Copa do Mundo de 2002 eram enormes. E não sem motivos, tanto por sua forma orquestrando os merengues quanto pelo desempenho arrasador da seleção francesa desde a conquista em 1998. Se dependesse do favoritismo, o Mundial da Coreia do Sul e do Japão poderia consagrar os Bleus como bicampeões. Não foi o que se viu, muito por conta de Zizou. Menos de um mês depois, em 11 de junho, o camisa 10 viveu uma de suas tardes mais frustrantes. O sacrifício em vão de um gênio, na derrota para a Dinamarca que selou o fracasso francês na fase de grupos.

VEJA TAMBÉM: Inglaterra vence a Argentina no dia da redenção de Beckham

Melhor jogador do mundo em 2001 e fortíssimo candidato a mais prêmios em 2002 por tudo o que fez com o Real Madrid na Champions, Zidane era naturalmente colocado como principal craque da Copa. Seu talento impulsionava o momento arrasador da França, campeã da Euro 2000 e da Copa das Confederações em 2001. O camisa 10 se colocava como o maestro de uma belíssima orquestra, de Henry, Trezeguet, Vieira, Makélélé, Desailly, Thuram e outros monstros. Cinco dias antes da estreia contra Senegal, contudo, os sonhos foram arruinados com apenas 38 minutos do último amistoso preparatório.

A França deveria fazer um jogo protocolar contra a co-anfitriã Coreia do Sul, logo na chegada dos campeões do mundo ao país. Titular de Roger Lemerre, Zizou sequer conseguiu terminar o primeiro tempo, sentindo a coxa. Permaneceu no banco de reservas com expressão de dor e uma bolsa de gelo na perna. Imagens desalentadoras, que se completaram com a péssima notícia após a ressonância: o meio-campista havia sofrido uma ruptura no quadríceps. Segundo o médico da seleção francesa, seria desfalque para os dois primeiros jogos e, na melhor das hipóteses, voltaria para o término da primeira fase.

O que ninguém previa era o fracasso da França sem o seu protagonista. Primeiro, os Bleus sucumbiram ao ímpeto de Senegal na estreia, com  derrota por 1 a 0. Depois, não passaram do empate por 0 a 0 contra o Uruguai na segunda rodada, quando precisaram jogar 65 minutos com um a menos, após a expulsão de Henry. Para avançar aos mata-matas, os franceses precisavam vencer ou vencer a Dinamarca, ainda dependendo do saldo de gols. Diante da situação delicada, Zidane estaria de volta. Mesmo sem apresentar sua melhor forma física, o camisa 10 carregava consigo as esperanças de uma reviravolta.

VEJA TAMBÉM: Há 15 anos, Senegal surpreendia a França e dava início a um mês de manhãs mágicas

Zidane jogou como meia central, logo atrás da trinca de ataque. Usando uma proteção na coxa, evitava carregar muito a bola. E, assim, seu esforço ganhou leveza. Tentava quase sempre dar um ou dois toques na bola. Com pouco, fazia muito. Ia alimentando os seus companheiros através de tabelas rápidas e passes em progressão, aproveitando o calcanhar como grande recurso. Apesar de estar claramente baleado, era o melhor dos Bleus, bastante lúcido na busca pela vitória. Uma tarde que, no entanto, não seria de seu time.

A Dinamarca abriu o placar aos 22 minutos. Zidane perdeu a dividida em sobra na entrada da área e, logo na sequência, Dennis Rommedahl completou para as redes. O camisa 10 quase deixou tudo igual, ao roubar uma bola no campo de ataque e emendar o chute ao girar o corpo. Maldosamente, o tiro passou a centímetros do ângulo de Thomas Sorensen. Na segunda etapa, o meia ainda participaria de duas jogadas que carimbariam o travessão: a primeira, cobrando escanteio para Desailly cabecear na moldura, antes de iniciar o lance que terminou com o azar de David Trezeguet no arremate. Entre uma jogada e outra, aos 21, os dinamarqueses ampliaram com Jon Dahl Tomasson. Nunca os franceses reagiriam ao 2 a 0 no placar.

Três imagens emblemáticas de Zidane ficaram daquela partida, apesar da ótima exibição individual, com todas as suas limitações. No primeiro tempo, na tentativa de continuar um lance dentro da área, desabou no chão, deixando a proteção na coxa exposta. Levantou-se e seguiu em frente. Depois, já na volta do intervalo, recebeu uma bola de Trezeguet parecida com aquela oferecida por Roberto Carlos semanas antes na final da Champions. Não teve o mesmo brilhantismo na conclusão, sem acertar a bola em cheio. Por fim, encerrado o duelo e a campanha francesa, ficou a frustração evidente no rosto, consolado pelos companheiros.

De longe, Zidane acompanhou a volta por cima de Ronaldo e dos demais brasileiros com a conquista do penta. Teria que esperar mais quatro anos para sentir o gosto de disputar mais uma Copa do Mundo. A sua última e a sua melhor, mesmo sem ficar com a taça. De certa maneira, a atuação limitada e cerebral contra a Dinamarca seria uma prévia daquilo que faria na Alemanha, controlando todos ao seu redor com a mente. Mente que se perdeu justo nos minutos derradeiros da prorrogação decisiva. Esta, porém, outra história do gênio.