A Copa do Mundo de Rúgbi está prestes a começar. A Inglaterra e o País de Gales receberão 20 países em seus estádios, muitos deles os mais modernos possíveis, como Wembley e o Olímpico de Londres. A expectativa é vender mais de 2,4 milhões de ingressos em todos os 48 jogos e ter o maior público da história da competição, que comeceu em 1987. Também há a previsão de um faturamento sem precedentes: 400 milhões de libras (equivalente a R$ 2,4 bilhões). Não à toa, o torneio se considera o terceiro maior evento esportivo do mundo, atrás da Olimpíada e da Copa do Mundo.

O rúgbi cresce, e já se tornou um esporte de projeção mundial. Algo que ocorre com relativo atraso se considerarmos que ele surgiu junto com o futebol. Foi, por exemplo, na Escola de Rugby que surgiu o primeiro código de regras do futebol. Na quinta reunião, da Football Association da Inglaterra, em 1863, a entidade decidiu proibir de vez o uso das mãos para conduzir a bola. O representante Blackheath foi contra e rachou com os outros clubes fundadores. Oito anos depois, ajudou a fundar a Rugby Football Union.

Desde então, cada um tomou o seu rumo, mas o jogo com a bola nos pés acabou se espalhando de forma muito mais rápida pelo globo. A dinâmica do esporte ajuda. O futebol exige menos força física e tem regras muito simples, enquanto que é preciso experiência e técnica para se meter nos tackles de um jogo de rúgbi sem se machucar. Mas outro motivo para a diferenciação foi o modo como as duas modalidades encararam o profissionalismo.

O futebol começou a pagar seus jogadores rapidamente. Na Inglaterra, o esporte era profissional em 1885. Isso facilitou a penetração na classe operária no Reino Unido e no resto do mundo. O rúgbi não fez nada disso, ou ao menos, demorou muito para fazer.

Dez anos após a profissionalização do futebol, o tema ficou quente no rúgbi. A Rugby Football Union, de Londres, achava insultante pagar para os atletas, enquanto que a Northern Rugby Football Union, das cidades ao norte da Inglaterra, defendiam a ideia. Na capital, o esporte era praticado em escolas públicas e majoritariamente pela elite. Na região industrial, pela classe trabalhadora, que não podia abandonar seus empregos ou faltar para disputar as partidas.

Apesar de o esporte não ser profissional, os dirigentes do norte davam seus jeitinhos para compensar essas faltas e remunerar os jogadores. As acusações de profissionalismo chegavam aos ouvidos da Rugby Football Union, que ratificou a proibição dessas medidas e também não permitiu mais que houvesse partidas em estádios que cobrassem ingresso. Ameaçou expulsar clubes que não pudessem provar seu amadorismo, mas nem foi preciso ir às vias de fato: em 1895, 22 clubes fundaram a Northern Rugby Football Union e, em quinze anos, receberam a companhia de mais de 200 equipes.

O profissionalismo rapidamente foi permitido nessa nova entidade, mas a cisão também criou esportes com regras diferentes: o rugby league, praticado pela Northern Rugby Football Union (atual Rugby Football League), com presença maior da classe trabalhadora; e o rugby union, da Rugby Football Union, jogado pela elite e pela nobreza. Isso aconteceu porque, na época da separação, nem todas as regras eram uniformizadas, e cada uma das modalidades tomou suas próprias decisões. Hoje, são considerados dois esportes diferente.

Em um primeiro momento, a manutenção do amadorismo foi benéfica para o rúgbi (o union). Quem conseguia estudar em outros países, viajar e levar o esporte para as colônias inglesas eram os mais abastados, os nobres e os militares. A única exceção foi a Austrália, que tem uma presença forte da classe trabalhadora britânica e até hoje prefere o rugby league. Ao mesmo tempo, o rugby union continuou a ser o mais praticado nas escolas públicas.

No entanto, esse amadorismo limitou a internacionalização do rúgbi. Por décadas, a modalidade teve penetração apenas nos países que tiveram presença da elite britânica. Em outras nações, era limitado a grupos de expatriados ingleses ou a escolas/universidades. Enquanto isso, o caráter mais popular do futebol facilitou a entrada em várias regiões, muitas delas com presença britânica bem mais discreta.

O amadorismo foi fundamental para construir a filosofia do rúgbi, a forma como jogadores se relacionam, o código de ética da modalide. No entanto, se tornou insustentável na medida em que começou a limitar a capacidade de desenvolvimento técnico dos atletas e comercial das competições, incluindo a Copa do Mundo (criada apenas em 1987). A profissionalização acabou vindo em 1995, 110 anos depois do futebol oficializar o pagamento a atletas.

Sob essa nova estrutura, o rúgbi começou a recuperar um pouco o atraso em relação ao esporte-irmão. E, apenas 20 anos depois de se tornar profissional, já transformou seu principal torneio de seleções em um evento de relevância mundial. Demorou, mas chegou.