O sucesso do Leicester na Premier League conta com uma série de protagonistas improváveis. A começar por Claudio Ranieri, um tanto quanto desacreditado por seus últimos trabalhos, em especial pelos fracassos com a seleção da Grécia. O elenco, por sua vez, conta com uma porção de jogadores desconhecidos, a maioria absoluta trazida a menos de um milhão de libras. Ainda assim, o conjunto deu liga. O trabalho coletivo e a excelente fase de alguns destaques individuais vêm pesando para colocar as Raposas no topo da Premier League. Para fazer o trabalho no Estádio King Power se sobressair contra tantos clubes milionários.

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A escalada do Leicester, no entanto, não se limita a quem aparece em campo. Há uma série de outros funcionários por trás do clube, ajudando a criar o ambiente favorável para a liderança da Premier League. Nesta semana, a Sky Sports foi à sede do clube conversar com estes homens. E mostrou como todos sentem muito orgulho e uma pontinha de participação naquilo que se reflete no topo da tabela.

Entre aqueles que se esforçam no dia a dia do Leicester, está John Ledwidge, o homem responsável por cuidar do gramado do Estádio King Power. Ele pode não desempenhar um papel tão decisivo quanto Bill Taylor, que ajudou a botar as Raposas na rota do título por causa da grama, durante o rigoroso inverno da temporada de 1962/63. Mesmo assim, exerce o seu papel com dedicação para facilitar a vida do elenco.

“Temos que buscar o melhor o tempo todo, isso é um sinônimo para o nosso clube. Todo mundo aqui trabalha excepcionalmente duro. Era uma questão de tempo antes que tudo acontecesse. É de cima a baixo. São todos os pequenos gestos nos bastidores e o esforço dos garotos em campo, isso faz o ano bem-sucedido. Estamos apenas felizes com o que está ocorrendo”, declara Ledwidge. “Na temporada passada, apesar da nossa posição, o time estava jogando bem e todos no clube estavam fazendo o mesmo, então neste ano tudo acontece. É uma grande jornada e uma grande história, que fazem você se sentir orgulhoso por ser parte do Leicester”.

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Aliás, não é totalmente verdade que o jejum de títulos do Leicester se estende há anos. Ledwidge garantiu em novembro o Football Grounds Team of the Year Award, prêmio entregue ao clube que mais se destaca no futebol inglês por seus gramados. Os desenhos bem trabalhados chegaram a ser responsabilizados por algumas vitórias, mas, diante da reclamação de alguns árbitros, evitarão polêmicas na reta final da temporada. “Nós estávamos criando desenhos quando o campo parecia em seu melhor estado, mas agora vamos voltar ao básico. É o pior pesadelo de um árbitro, eles gostam de blocos para poder ver os impedimentos. Eu tive algumas reclamações na última semana sobre os desenhos que nós fazíamos aqui”.

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Em comum entre os funcionários, permanece não apenas o sentimento de ser mais um da equipe, mas também o pertencimento à torcida. Eles ajudam a fazer esse elo, em um clube com ambiente familiar. Um exemplo disso vem de Jim Donnelly, membro da segurança do Estádio King Power há mais de 15 anos. Ele também se tornou um personagem conhecido entre as Raposas pela comemoração efusiva durante a virada sobre o Aston Villa, no primeiro turno. O Leicester perdia por 2 a 0 até os 18 do segundo tempo, buscando três gols em 17 minutos, com o tento decisivo de Nathan Dyer já aos 44. Donnelly não se conteve.

“Infelizmente, eu me tornei um viral. Eu fiquei daquele jeito quando Vardy empatou. Estava empolgado porque perdíamos por 2 a 0. Eu tendo a ficar um pouco exaltado quando eu torço pelo Leicester e eu apenas entrei nesse espírito”, explicou. “É absolutamente incrível. Eu sou um torcedor do Leicester dos pés à cabeça e não posso descrever o momento. É inacreditável o que estamos vendo. Os torcedores têm sido incríveis, eles vêm cantando ainda mais alto no estádio. Estão fazendo barulho, empurrando os garotos. Eles são fantásticos”.

Enquanto isso, o pensamento de alguns vai longe. O roupeiro Paul McAndrew está no Leicester há duas décadas. Assim, pôde desfrutar das últimas conquistas das Raposas, a Copa da Liga de 1997 e a de 2000. Mas não esperava viajar às competições europeias outra vez tão cedo: “Eu vi alguns altos e baixos, mas o momento é grandioso. Em meus primeiros quatro ou cinco anos, fomos a Wembley e às competições europeias, foi ótimo. Agora, isso está acontecendo novamente. Eu não acho que há alguém mais surpreso do que nós. Tem sido fantástico desde o primeiro minuto e tomara que continue assim até maio”.

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E o incentivo ao Leicester veio até mesmo espiritualmente. Ao longo dos últimos três anos, o dono do clube – o tailandês Vichai Srivaddhanaprabha – levou monges budistas para auxiliar na preparação dos jogadores. Um grupo de religiosos faz viagens regulares da Tailândia à Inglaterra para proteger o gramado e entregar talismãs ao elenco, além de transmitir tranquilidade para a sequência do trabalho.

“Eu não tenho certeza se os jogadores entenderam o que expliquei sobre os amuletos, mas eles sabem que isso poderia lhes trazer boa sorte. O presidente trouxe os monges para orar pelos jogos, pela equipe técnica e pelos jogadores. Eles estavam felizes em ver os monges indo ao clube. Eles nos cumprimentaram e se juntaram à cerimônia. Mesmo que sejamos de diferentes religiões, estivemos juntos como se fossemos bons amigos. Confio que os jogadores têm resistência e mental forte para seguir lutando bravamente”, disse Phra Prommangkalachan, um dos líderes espirituais que trabalharam com o Leicester, em entrevista à AFP.

Desta maneira, o sentimento de proteção do elenco do Leicester se estende a diferentes planos. E são os cuidados destes funcionários que garantem concentração para que os resultados também apareçam em campo. Qualquer campanha no futebol vai além de 11 homens – é sempre bom ressaltar isso, ainda mais em um sucesso tão eloquente.


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