O roteiro até parecia escrito a uma tragédia. O torcedor rubro-negro, ressabiado, já tinha visto o filme antes. E temia o desfecho doloroso. O Flamengo controlava o jogo, mas perdia gols a rodo em Montevidéu. Não resolvia uma partida que estava em suas mãos. A expulsão de Pará, tão “amado” pelos flamenguistas, se sugeria como mais um requinte à aflição. O gol da LDU saiu em Quito quase ao mesmo tempo, algo que aumentava o drama do Peñarol. Porém, ao final, o pior não aconteceu aos cariocas. Fatalidade inescapável na mente dos mais pessimistas, o cruel tento carbonero era um mero fruto da imaginação. Os minutos que se arrastavam, na verdade, só escancaravam a incapacidade dos aurinegros. E o término do jogo foi estranho, meio sem terminar, com o apito que não soou durante a confusão. Fato é que o 0 a 0 alivia o Fla, a salvo de todo o repetido pesadelo na fase de grupos da Libertadores. Pelo segundo ano consecutivo, o time avança aos mata-matas. Mas não dá motivos para se animar tanto assim rumo às oitavas.

O Flamengo tinha uma missão clara no Estádio Campeón del Siglo. O empate serviria para a classificação, independentemente do que acontecesse no outro jogo da chave. Todavia, para evitar os riscos desnecessários, era precioso buscar os gols. Este Peñarol não intimida, mas já tinha se mostrado matreiro na visita ao Maracanã, com o gol no final. No mínimo, o time de Abel Braga precisava demonstrar que assimilou alguma lição. E, poupado no Brasileirão, também precisava apresentar um futebol mais convincente do que o costumeiro durante os últimos meses.

O nervosismo do torcedor flamenguista estava mais na cabeça, insistente no trauma de outras temporadas, do que no jogo em si. Logo no primeiro minuto, a equipe já providenciou o que seria um resumo do jogo. Em contra-ataque, Gabigol recebeu o passe de Arrascaeta e ficou em excelentes condições para marcar. De maneira inacreditável, mandou para fora. Era praticamente um pênalti perdido. E seriam vários os momentos em que os rubro-negros passariam raiva com seus atacantes.

O Peñarol respondeu logo depois. Brian Rodríguez soltou o pé de fora da área e deu um susto em César. Mas, na verdade, aquele era o único suspiro dos carboneros durante o primeiro tempo. Os anfitriões seriam extremamente passivos, permitindo ao Flamengo manter o controle da posse de bola sem problemas. Que o empate em Quito lhes bastasse, os uruguaios precisavam ter consciência dos riscos que corriam com a provável vitória da LDU. Os aurinegros sequer conseguiam acertar o seu jogo ofensivo e muito menos botar pressão pelo triunfo. Era uma noite totalmente favorável aos flamenguistas, que não a aproveitavam. O ataque funcionou com fluidez e o quarteto da frente se entendia bem. Só não sabia como balançar o barbante.

Aos 16, o cruzamento rasante de Everton Ribeiro atravessou a pequena área, mas não encontrou o bico da chuteira de Bruno Henrique. Arrascaeta, ativo na criação, daria outro presente para Gabigol jogar fora. Bruno Henrique e William Arão também não concluíam da melhor maneira outras chegadas, enquanto os acréscimos ainda ratificaram a incapacidade do Flamengo diante do gol. Primeiro foi Gabigol, sempre ele, a carimbar o goleiro Kevin Dawson. Depois, Arão cruzou rende à trave e é até difícil explicar como a bola não parou nas redes. Ao torcedor angustiado, parecia claro que a bola puniria no segundo tempo.

Não que o Peñarol fosse melindroso. Até finalizou mais no primeiro tempo, em um punhado de chutes sem direção. As criações do Flamengo foram bem mais contundentes, aproveitando a velocidade de sua linha de frente. Para a etapa complementar, os carboneros aumentaram sua presença de área. Apostaram em Gabriel Fernández, artilheiro do último Campeonato Uruguaio. De fato, os aurinegros foram mais ao ataque durante os 45 minutos finais. Só que isso não gerou grandes reflexos no placar.

A agonia que se vivia era justamente pelo marasmo de acontecimentos, não pela convulsão deles. O Peñarol passou a buscar o jogo aéreo, sem que isso provocasse grandes problemas na defesa rubro-negra. E o Flamengo seguia oferecendo mais perigo no ataque. Seguia, sobretudo, desperdiçando lances. Com pouco mais de dez minutos, já tinham sido quatro investidas sem sucesso. Gabigol bateria para fora e pararia em Dawson. O goleiro também fez intervenção segura contra Arrascaeta, o melhor do time. E daria sorte ao ver Bruno Henrique falhar a mira, logo na sequência.

Se o Flamengo era um retrato da incompetência para marcar gols, o Peñarol simbolizava a impotência de sequer criar as oportunidades que precisava. O lance de maior perigo, aos 15, aconteceu porque Lucas Viatri furou a bola dentro da área e, no susto, Renê quase mandou contra o próprio patrimônio. Léo Duarte salvou em cima da linha. Cinco minutos depois, os temores se ampliaram. De novo, por culpa dos rubro-negros. Pará recebeu o segundo amarelo, em marcação rigorosa do árbitro. Contudo, seja pelo currículo extenso de desserviços ou pelas infelicidades frequentes, o lateral parecia o protagonista perfeito à hecatombe.

Realmente, o Peñarol pressionou mais diante da vantagem numérica. Mas não como se espera que um time nessas condições e nessas necessidades faça. A LDU Quito acabara de anotar um gol e isso confirmava que o empate já não seria mais suficiente para os carboneros. Não que isso tenha empurrado o time. Entre finalizações mal feitas e bolas em cima de César, raros foram os lances de real perigo. No máximo, um chute desviado de Giovanni González que tirou tinta da trave. Os equatorianos ampliavam a goleada sobre o San José. Quem sentia era a torcida nas arquibancadas, murchando, se silenciando. E o medo dos rubro-negros, cada vez mais, parecia algo de sua cabeça.

Rodinei substituiu Bruno Henrique para ocupar a lateral. Depois, entrou Diego para acalmar o jogo no meio e Vitinho, dando velocidade aos contragolpes. O último lance com algum grau de ameaça do Peñarol veio em um balão de Cristian Rodríguez, que cabeceou por cima da meta de César. O relógio marcava 29 minutos e, depois disso, os aurinegros não mais arremataram a gol. Não conseguiam trocar meia dúzia de passes e mal acertavam um cruzamento. O estádio praticamente silencioso, admitia a sua própria tragédia. Que só relutava em se confirmar pelo incrível talento dos rubro-negros em perderem gols. Já nos acréscimos, Vitinho foi lançado de antes da linha central. Avançou com o campo livre e só precisava tirar do goleiro. Bateu em cima de Dawson, para manter os céticos com um pé atrás .

Mas a verdade é que, sem garra e muito menos qualidade, o Peñarol não chegou a lugar algum. A cena final do destempero aconteceu na lateral, com um carrinho forte de Giovanni González que gerou sua expulsão pelo segundo amarelo. Os jogadores se amontoaram à beira do campo e uma pancadaria se esboçou. Também não aconteceu. E quando os reservas flamenguistas invadiam o campo para comemorar, os aurinegros também achando que poderiam brigar, a geração de imagens já deu a peleja como encerrada. Sem apito final audível. Sem permitir que o torcedor rubro-negro entendesse direito que, sim, o desastre não se repetiu na Libertadores.

A quem deseja ver o copo meio cheio, até existem motivos. Primeiro, óbvio, pela classificação. É importante ao Flamengo deixar esse histórico de fracassos na fase de grupos para trás, até pela questão psicológica. Depois, pela maneira como a criação no ataque funcionou, com a velocidade abrindo os caminhos. E, depois, pela forma como a defesa se protegeu com um a menos – Rodrigo Caio e Léo Duarte cresceram no segundo tempo, enquanto Cuéllar segue em fase incrível. Mas também há o outro lado da moeda, entre a fraqueza do Peñarol e a própria impossibilidade de matar a partida. O time de Abel Braga segue na corda bamba, sem agradar e sem apresentar um futebol que justifique o preço de seu elenco. Flertou com o perigo, quando não precisava disso.

Com dez pontos, o Flamengo avança na primeira colocação, o que é um lucro. A LDU também passa em segundo com dez, atrás apenas no saldo de gols. E o Peñarol, com os mesmos dez, é quem menos aproveitou os encontros com o San José de Oruro. Terá que se contentar com a Copa Sul-Americana. Embora exista uma vantagem, os rubro-negros ainda podem pegar cruzamentos complicados nas oitavas, com o risco de toparem com River Plate ou Grêmio. Por isso mesmo, a classificação desta quarta é apenas parte do problema resolvido. Muito mais difícil será mudar alguns conceitos e fazer os ajustes necessários para que o time se torne mais confiável. Talento não falta. Falta é comprovar esse talento durante as exibições.