A final da Copa Argentina desta temporada tinha ares apocalípticos. Afinal, reunia dois times conhecidos pelo azar de não conquistarem nada. O Gimnasia de La Plata amarga um jejum de títulos importantes que dura desde 1929, a única e última vez que faturaram o Campeonato Argentino. Desde então, amargaram muitos vices, sobretudo a partir da década de 1990 – quando ergueram uma tal Copa Centenário, organizada pela AFA, daqueles torneios que valem apenas pela chacota. Do outro lado, o Rosario Central atravessava uma seca desde 1995, quando levou a Copa Conmebol. E pior que o tabu era a sina na própria copa, com três vices nos últimos quatro anos. Pois na disputa cósmica entre karmas, melhor aos canallas. O empate por 1 a 1 prevaleceu enquanto a bola rolou e, nos pênaltis, o Central venceu por 4 a 1, levantando a taça em Mendoza. Um prêmio, enfim, ao bom trabalho que os rosarinos vêm fazendo ao longo dos últimos anos.

Afinal, não faz muito tempo que o Rosario Central chegou a ser cotado para conquistar a Copa Libertadores. O ano era 2016 e o time de futebol ofensivo treinado por Eduardo Coudet fez grandes jogos, despachando Palmeiras e Grêmio. Já nas quartas de final, aconteceram os duelos inebriantes contra o Atlético Nacional. Partidas emocionantes em que os Verdolagas evitaram o pior no Gigante de Arroyito, com direito a uma sequência de defesas impossíveis de Franco Armani, e arrancaram a classificação nos minutos finais do jogo de volta em Medellín, com grandes atuações de Alejandro Guerra e Orlando Berrío. Além disso, os canallas disputaram o título do Campeonato Argentino em 2015, terminando em terceiro. E vinham de seu dissabor das frustrações na copa.

O primeiro vice na Copa Argentina aconteceu em 2014, em San Juan. O empate por 0 a 0 com o Huracán prevaleceu e, na marca da cal, o Globo garantiu a taça. Um ano depois, o Boca Juniors se impôs com a vitória por 2 a 0 em Córdoba – e isso depois de uma campanha maiúscula em que o Central eliminou River Plate, Estudiantes e Racing. Por fim, a final mais amarga foi a de 2016. Os canallas fizeram um jogo inesquecível contra o River Plate, de sete gols. Ao final, a vitória por 4 a 3 pendeu para os millonarios. E depois da breve pausa no maltrato aos corações em 2017, quando o Atlético Tucumán foi o algoz nas semifinais, surgiu a nova chance contra o Gimnasia.

A campanha do Rosario Central já era histórica. Não pegou adversários de tanto peso quanto em algumas das outras ocasiões, mas teve o gosto de enfrentar o rival Newell’s Old Boys nas quartas de final, em raro clássico por mata-matas. O jogo que enlouqueceu os rosarinos, embora tenha sido disputado sob portões fechados em Sarandí. Limitação que até impediu a verdadeira festa nas arquibancadas, mas não conteve a multidão auriazul na hora de celebrar nas ruas da cidade – e nem mesmo a revolta dos leprosos, que ameaçaram Germán Herrera, herói da tarde. Por outro lado, o Gimnasia eliminou Boca Juniors e River Plate, este com contros épicos nas semifinais.

A decisão em Mendoza foi aberta. Durante o primeiro tempo, o Rosario Central aproveitou para dar um passo à frente. Abriu o placar aos 19 minutos, em bate-rebate para Fernando Zampedri estufar as redes. E ele quase anotaria o segundo, obrigando grande defesa de Alexis Martín Arias. O empate do Gimnasia saiu aos sete minutos da etapa complementar. Santiago Silva roubou a bola e, em belo contra-ataque, Maximiliano Comba cruzou para Lorenzo Faravelli fuzilar. O Lobo ainda criou melhores chances para virar, com destaque a uma cabeçada de El Tanque na qual o goleiro Jeremías Ledesma fez milagre.

Já na marca da cal, pesou muito mais a qualidade do Central. O primeiro a bater o pênalti foi Néstor Ortigoza, o homem que deu a Libertadores de 2014 ao San Lorenzo e que, na juventude, participava de disputas de pênalti valendo dinheiro no subúrbio onde morava. Com tranquilidade, fez. Depois veio El Tanque Silva e simplesmente isolou, aumentando o seu histórico de falhas em momentos decisivos. Marco Ruben ampliou aos canallas, até que Ledesma defendesse a batida de Manuel Guanini. Alfonso Parot e Jan Carlos Hurtado acertaram na terceira série. Por fim, precisando converter para assegurar a taça aos rosarinos, Matías Caruzzo ainda viu a bola tocar os dedos de Arias, mas ela passou e estufou as redes. A festa era auriazul.

Raros personagens deste Rosario Central fizeram parte da sina entre 2014 e 2016, mas há muitos valores que merecem o reconhecimento. Ledesma foi o reserva em todos estes anos, até ganhar a posição e se tornar decisivo. Ortigoza saiu do San Lorenzo de maneira pouco justa a um ídolo e volta a se afirmar como um jogador decisivo. Zampedri possui uma carreira rodada por equipes pequenas e, aos 30 anos, chega ao ápice do reconhecimento. Ruben, o capitão, é o principal elo com outros tempos, a referência ofensiva que sabe o valor da camisa canalla. Do banco, ainda veio Herrera, desfrutando um pouco da idolatria aos 35 anos no clube onde despontou.

Por fim, há à beira do campo a figura de Edgardo Bauza. O Patón viveu grande parte de sua carreira como jogador no Central, superando os 300 jogos. É um verdadeiro símbolo do clube, por toda a sua dedicação dentro de campo. Depois, também trabalhou como técnico, logo no início de carreira, chegando a ser vice do Apertura. E o retorno, depois de sua malfadada passagem pela seleção argentina, serve para relembrar o grande técnico que é. O bicampeão da Libertadores pôde experimentar pela primeira vez o gosto de conduzir seu time de coração a uma taça. É o primeiro na história do clube a vencer um campeonato como jogador e como técnico. Adiciona mais uma estrela ao escudo, mais gratidão à sua história.

A festa do Central logo tomou as ruas de Rosario, com milhares e milhares de canallas ocupando a Praça da Bandeira, principal ponto de concentração da cidade. Além disso, sequer se limitaram às fronteiras. Giovani Lo Celso, parte do elenco no início das angústias nesta década, postou fotos uniformizado e celebrando em suas redes sociais. Comemoração certamente compartilhada por Ángel Di María e Ángel Correa, outros dois célebres torcedores auriazuis. Na próxima temporada, poderão disputar novamente a Copa Libertadores. O momento é dos rosarinos, como há tanto esperavam. Ainda que, do outro lado, precisassem ampliar a penúria do Gimnasia, que não deixou de lotar sua parte do estádio em Mendoza e agora seguirá sua caminhada no deserto. Foi uma final sobre fanatismos, e aquilo que não se resume aos dois gigantes do país.