Nem sempre o River Plate lidou bem com a pressão na Copa Libertadores. Ter um grande time foi praxe para os Millonarios na virada do século. Só que os nomes fortíssimos no papel só vingaram em campo uma vez, em 1996, no ápice da equipe de Francescoli e Crespo no torneio continental. De 1995 a 2006, o clube de Núñez sempre avançou aos mata-matas e, na maioria, frustrou sua torcida antes mesmo da final. O apelido de “galinhas”, de quem se amedronta nos grandes momentos, em partes tinha motivos para se sustentar. Desde então, muito se passou. O River caiu e subiu no Campeonato Argentino, perdeu um pouco de sua vocação para revelar. Mas se reergueu no continente, ganhando uma Copa Sul-Americana. E, 19 anos depois, quer reconquistar a Libertadores. Vem ignorando os velhos pesadelos, mesmo após a primeira fase sofrível. Após a vitória por 2 a 0 sobre o Guaraní, se aproxima demais da decisão.

O que é considerado uma desvantagem pelo regulamento da Conmebol pode se transformar em um bom empurrão dentro de campo. Os piores classificados têm o dever de decidir fora de casa. Porém, também têm a chance de começar a encaminhar seu destino diante de sua torcida. E a massa do River Plate ajudou demais o time desta vez. Os alvirrubros lotaram o Monumental de Núñez, para intimidar o Guaraní. Os paraguaios, que eliminaram Corinthians e Racing graças ao desespero que impuseram em Assunção, desta vez tiveram que lidar com o reverso. Eles acabaram sofrendo com o próprio remédio.

E os desfalques não foram bem um problema para o River, diante da gana da equipe. Teo Gutiérrez não volta mais, enquanto Sebastián Driussi se lesionou. Ainda assim, Marcelo Gallardo pôde contar com os reforços que o time trouxe para estes momentos finais da Libertadores. O veterano Lucho González e o garoto Lucas Alario deram conta do recado. Contra um time muito bem encaixado e com proposta de jogo definida, como o Guaraní, os Millonarios se impuseram no ataque. Mais importante, não deram as brechas para que os aurinegros ferissem em seus já famosos contra-ataques.

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O controle de jogo do River Plate não se converteu em gols no primeiro tempo, com poucas chances criadas. Por muito pouco. Lucho González, aparecendo surpreendentemente bem, forçou boa defesa do goleiro Aguilar, enquanto Rodrigo Mora acertou a trave no rebote. Era a melhor chance do primeiro tempo, mas que não faria falta na volta do intervalo. O veterano deixou o meio-campo e o time melhorou ainda mais com a entrada de Gonzalo Martínez.

Colocando os visitantes contra a parede, a bola parada ajudou os argentinos a abrirem o placar aos 15 minutos. Após cobrança de escanteio, Alario ajeitou para Gabriel Mercado fuzilar dentro da área. Já aos 28, um contragolpe foi letal ao próprio Guaraní, enquanto os paraguaios tentavam se recobrar do prejuízo. Alario ajeitou para Rodrigo Mora, que avançou com liberdade e deu um lindo toque por cobertura, contando com a colaboração de Aguilar. Um golaço, que desnorteou de vez os visitantes e completou a festa em Núñez.

O Guaraní possui um bom time e faz por merecer a excelente campanha na Libertadores. Contudo, as dúvidas são grandes sobre a maneira como o time irá lidar com o placar adverso para o reencontro em Assunção. Por seu estilo de jogo, os aurinegros fazem imaginar um bombardeio tão grande no Defensores del Chaco. Ou, se o fizerem, precisam melhorar demais a pontaria, ao contrário do que aconteceu no primeiro duelo com o Racing nas quartas de final. E, desta vez, contra um adversário que parece bem mais capacitado para se segurar na defesa. Cascudo desde a Sul-Americana, o River Plate parece suficientemente preparado para lidar com a situação no jogo de volta.

A missão dos Millonarios, agora, é não se desconcentrar no objetivo. Contra Boca Juniors e Cruzeiro, mesmo precisando jogar longe de Núñez, a equipe soube enfrentar as torcidas adversárias e (apesar das circunstâncias do clássico) jogou melhor no campo inimigo. Controlar a euforia e manter o foco serão os dois principais pontos de trabalho de Marcelo Gallardo durante a próxima semana. Por mais que o River passe longe da qualidade técnica dos anos 1990 e 2000, tem hoje um time onde a raça é bem mais pujante. E, na Liberadores,  isso pode ser fundamental. Para que o brio em falta tantas vezes o leve à final em uma edição que parecia perdida. Botando os Millonarios como fortes candidatos à taça que tanto lhes escapou.