Arsenal e Valencia tentam reviver sua importância continental nesta Liga Europa. O duelo nas semifinais, além de oferecer uma grande oportunidade aos dois clubes, ajuda a recontar o histórico do confronto. Será a quarta vez que Gunners e Ches se encaram por competições da Uefa. E o passado está recheado de duelos notáveis, marcando períodos áureos às agremiações. Chegaram mesmo a valer taça, embora a memória mais viva a boa parte dos torcedores seja relativamente recente, pela Liga dos Campeões.

Em 1980, Arsenal e Valencia fizeram uma final europeia. Eram momentos em que as copas nacionais representavam a grande chance de título aos clubes. Enquanto os Gunners chegaram a emendar três finais consecutivas na Copa da Inglaterra, os Ches conquistaram a Copa do Rei de 1979, após uma série de decisões na virada da década anterior. Pois a afeição aos mata-matas também impulsionou a dupla na Recopa. Os ingleses desbancaram uma favorita Juventus nas semifinais, bem como os espanhóis encerraram nas quartas a busca do Barcelona pelo bicampeonato. Diante de 40 mil pessoas, acabaram se enfrentando na decisão em Heysel.

A grande estrela do Valencia estava no comando do ataque: Mario Kempes. Artilheiro da Copa de 1978 já como jogador dos Ches, o argentino é considerado por muitos o maior ídolo da história do clube. Tinha em sua companhia ainda outros nomes importantes. O alemão Rainer Bonhof aparecia no meio-campo, enquanto Miguel Tendillo e Enrique Saura se destacavam na seleção espanhola durante aquele período. O comando técnico ficava sob as ordens do mítico Alfredo Di Stéfano. Já o Arsenal era dirigido por Terry Neill, antigo zagueiro da equipe, que assumiu o cargo a partir de 1976. O treinador, aliás, representava a força de norte-irlandeses e irlandeses em Highbury. Seis jogadores do time titular na final nasceram na ilha, todos icônicos: Pat Jennings, Pat Rice, Sammy Nelson, David O’Leary, Liam Brady e Frank Stapleton. Eram complementados por ingleses com nível de seleção, como Brian Talbot e Alan Sunderland.

Dentro de campo, prevaleceu o equilíbrio. A final acabou determinada pela inspiração dos goleiros. Pat Jennings e Carlos Pereira colecionaram defesas, com menção especial aos milagres do espanhol. Assim, depois de 120 minutos sem gols, a definição ficou para os pênaltis. Jennings pegou o primeiro chute, de Kempes, mas Pereira respondeu buscando a cobrança de Brady no cantinho. Depois disso, todos os oito cobradores converteram, até as alternadas. Ricardo Arias colocou o Valencia em vantagem e Pereira terminou de se consagrar, ao rebater o arremate de Graham Six. Com o triunfo por 5 a 4, os Ches faturavam sua primeira Recopa, o terceiro título continental até aquele momento – após duas Taças das Cidades com Feiras, precursora da Copa da Uefa, nos anos 1960.

Foram mais duas décadas até o reencontro, em 2001. Arsenal e Valencia atravessavam eras brilhantes em sua história. Os Ches voltavam a lutar pelo título no Campeonato Espanhol e haviam alcançado sua primeira final de Champions no ano anterior. Os Gunners, por sua vez, disputavam o protagonismo na Inglaterra com o Manchester United e acabaram como vice-campeões da Copa da Uefa em 2000. As pretensões eram grandiosas, mas apenas um sobreviveria nas quartas-de-final da Liga dos Campeões 2000/01.

As próprias campanhas falavam por si. O Arsenal superara as fases anteriores enfrentando forças como Lazio, Bayern e Lyon. Já o Valencia terminou a segunda fase de grupos na primeira colocação, à frente do Manchester United. Naquele momento, eram candidatos factíveis ao título continental. Arsène Wenger comandava um esquadrão estrelado por Thierry Henry, Patrick Vieira, Robert Pirès, Fredrik Ljungberg e Nwakwo Kanu. Do outro lado, um time não menos forte sob as ordens de Héctor Cúper, com Pablo Aimar, Santiago Cañizares, Gaizka Mendieta, Killy González e Rubén Baraja.

O Arsenal parecia mais próximo da classificação, ao vencer o primeiro jogo das quartas de final. Em Highbury, garantiu a virada por 2 a 1. O Valencia abriu o placar no final do primeiro tempo. A bola sobrou dentro da área e Roberto Ayala apareceu feito um centroavante, pronto para encher o pé, afundando David Seaman. A reação dos Gunners só aconteceu na etapa complementar. O empate nasceu aos 13, graças a um passe fenomenal de Pirès com o calcanhar. O meia encontrou Henry e, livre, o atacante não perdoou Cañizares. Por fim, a vitória se consumou um minuto depois, com o gol mais bonito da noite. Ray Parlour pegou a bola na intermediária e soltou um míssil do meio da rua. Foi indefensável, diretamente ao ângulo da meta adversária. Os londrinos davam um passo à frente, apesar da missão dura no Mestalla.

O retorno de Vicente à escalação era um reforço e tanto ao Valencia diante de sua torcida. No fim das contas, aquele gol de Ayala na Inglaterra se provou fundamental. Os Ches asseguraram a vitória por 1 a 0 no Mestalla e, graças ao tento fora de casa, avançaram às semifinais. A partida de volta terminou decidida por John Carew. Aos 30 do segundo tempo, Jocelyn Angloma descolou um cruzamento perfeito da direita e o norueguês saltou mais que a marcação para cabecear. A bola quicou no gramado e impossibilitou a defesa de Seaman. E os valencianos iriam mais longe. Eliminaram o Leeds United na etapa seguinte, antes da derrota contra o Bayern de Munique na decisão. Oliver Kahn brilhou na disputa de pênaltis dentro do San Siro.

Já o repeteco de Arsenal x Valencia aconteceu na Champions 2002/03, ainda naquele ciclo glorioso a ambos. Encararam-se na segunda fase de grupos, após prevalecerem na liderança de suas chaves durante a etapa anterior do torneio. E, mesmo sem o peso de um mata-mata, os Ches ganharam a queda de braço outra vez. Na segunda rodada, o placar não saiu do zero em Highbury. Já treinados por Rafa Benítez, os espanhóis seguraram o placar com um a menos durante os 20 minutos finais, após a expulsão de Miguel Ángel Angulo. Cabe dizer também que os Gunners tinham um elenco mais forte do que em 2001, após as incorporações de Sol Cambpbell e Gilberto Silva, além do retorno de Dennis Bergkamp à sua melhor fase.

Apesar disso, o Arsenal colecionou empates na sequência da competição e a situação na rodada final estava totalmente aberta. O clube inglês visitou o Mestalla precisando ao menos da igualdade, enquanto corria o risco de ser ultrapassado por Ajax e pelo próprio Valencia. Tudo deu errado a Arsène Wenger. Enquanto os Godenzonen ficaram com a segunda vaga, graças ao empate contra a Roma, o Valencia fez o seu dever de casa. Carew novamente foi o carrasco dos londrinos, encaminhando o triunfo por 2 a 1. A agonia dos Gunners na Champions se ampliava mais um pouco.

Henry parecia disposto a buscar a classificação e começou a noite com tudo. Forçou uma defesaça de Cañizares, antes de ver uma cabeçada ser salva em cima da linha. Já aos 34 minutos, um duro golpe ao Arsenal: Aimar arranjou um passe mágico a Carew e o centroavante abriu o placar. Os Gunners até reagiriam na volta do intervalo, com Henry. O craque deu uma de suas arrancadas características, batendo na saída do goleiro. Mas a festa era mesmo dos Ches. Logo na sequência, Vicente mostrou como era completo. Roubou a bola de Sylvain Wiltord, avançou pela esquerda e cruzou com precisão. Como dois anos antes, uma cabeçada firme de Carew garantia a vitória dos valencianos. O resultado valeu a primeira colocação, com o Arsenal eliminado em terceiro, um ponto atrás do Ajax. A equipe espanhola sucumbiria nas quartas de final, superada pela Internazionale de Héctor Cúper, seu ex-treinador.

As expectativas de outrora ficaram para trás. A realidade é mais modesta no Mestalla e no Emirates. Ainda assim, esta semifinal da Liga Europa não deixa de ser uma excelente chance a Arsenal e Valencia. Podem retornar a uma final continental, algo que não acontece desde a década anterior. E, principalmente, podem pavimentar o caminho a fases mais gloriosas, como neste passado não tão distante.