Esse foi o sentimento da imprensa australiana em dois acontecimentos nada agradáveis que chocaram o futebol do país essa semana. Tudo começou no último sábado, no jogo entre Sydney FC e Melbourne Victory. Logo aos 25 minutos, o experiente Steve Corica foi expulso pelo árbitro Mark Shields, para muitos um exagero. Com um a mais, o Melbourne venceu com um gol no final do jogo. O lamentável aconteceu depois do apito final.

Na saída para o vestiário, o árbitro foi alvo da ira dos mais de 18 mil torcedores, que jogaram garrafas e copos plásticos em sua direção. Para a maioria deles, Shields queria mais aparecer do que apitar. A Football Federation Australia, juntamente com a polícia, está investigando os atos e não mediu as conseqüências para os vândalos. “Existe uma gama de punições que poderão ser aplicadas se os delatores forem identificados, como o cancelamento do plano deles como sócio do clube para o resto da temporada e talvez para o resto da vida”.

Menos de 24 horas depois do incidente de sábado, Central Coast Mariners e Newcastle Jets entraram em campo. Durante a partida, o atacante do Jets, Joel Griffiths, simplesmente golpeou a virilha do assistente Alex Glasgow. Pelo lance, o jogador foi punido apenas com um cartão amarelo, já que o árbitro da partida assim quis e também pelo fato de o incidente ter ocorrido dentro do campo. Como a Fifa não gosta que vídeos sejam usados para efeito de punição depois do jogo ficou decidido que o jogador sairia somente com o cartão amarelo.

Quatro minutos após o acontecido, a torcida do Jets colocou fogo num cachecol do Central Coast. O jornal The Daily Telegraph, um dos principais do país, classificou a atitude como uma “regressão do futebol à idade da pedra” e disse que “o ritual foi um distúrbio”.

Ferns e Matildas entre as melhores

Agora, as boas notícias. A Fifa divulgou na quarta-feira, a lista com os 30 candidatos e 26 candidatas a melhor jogador e jogadora do mundo em 2007. Entre os homens nenhum relacionado, mas as mulheres… Se por um lado a neozelandesa Rebecca Smith foi uma grata surpresa, a australiana Lisa De Vanna fez por merecer. Ela é a segunda jogadora do país a ficar entre as finalistas do prêmio – a capitã das Matildas (como a seleção feminina é chamada na Austrália) Cheryl Salisbury já esteve entre as indicadas.

No Mundial da China, De Vanna brilhou. Com quatro gols marcados, a atacante de 22 anos foi escolhida para o time do torneio e liderou a equipe até às quartas-de-final, quando as australianas sucumbiram diante de Marta e cia. E um desses quatro gols foi indicado a gol mais bonito da Copa.

Já na Nova Zelândia, muita surpresa e festa para Rebecca Smith. Como é de praxe em ano de Copa do Mundo, seja masculina ou feminina, o melhor jogador ou jogadora do ano naturalmente tem de brilhar individualmente no torneio, e sua seleção deve chegar no mínimo entre os quatro primeiros. Mas, para a Fifa, isso não teve de acontecer no recém-terminado Mundial.

Com números de dar inveja ao América-RN, as Ferns – apelido da seleção no país – foram muito mal na segunda participação em Copas da história. Nos três jogos do Grupo D foram 9 gols sofridos e nenhum marcado. Foi a terceira pior campanha da 1ª fase, à frente apenas de Gana e Argentina.

No entanto, graças ao Comitê Técnico da Fifa, que se impressionou com o esforço defensivo da seleção, Rebecca, que era a líder da zaga, foi uma das indicadas ao prêmio. E reconhece o trabalho de equipe. “Nós fizemos grandes jogos recentemente e você vai lá (na Copa do Mundo) para fazer o melhor, mas um país pequeno praticando um esporte conhecido mundialmente é fácil achar que nós não seríamos notadas. Penso que isso é um sinal que, como um time, estamos começando a ser reconhecidas.”

Será zebra se uma das duas jogadoras ficar entre as três melhores, afinal Marta e as alemãs Nadine Angerer e Birgit Prinz são as favoritas. Mas estar entre as 26 finalistas já é grande coisa para esses dois países que podem crescer ainda mais no esporte.

De Vanna: do céu ao inferno

Em menos de um mês, a artilheira australiana no Mundial da China, Lisa De Vanna – sim, a mesma do texto acima! –, passou de heroína nacional a uma simples trabalhadora na cidade de Perth.

Agora, De Vanna está vivendo na pele o que as nossas jogadoras vivem há muito tempo: se reúne com a seleção para uma Copa do Mundo, Olimpíada ou um torneio continental, joga bem, fica em evidência no país e depois cai no esquecimento.

A campanha que as Matildas fizeram na China foi a melhor das quatro participações que tiveram na história das Copas, o suficiente – ou não – para que as jogadoras, como De Vanna, fossem valorizadas e reconhecidas.

Como no Brasil, as jogadoras se vêem obrigadas a ter um trabalho secundário, algumas vezes principal, para sobreviver. No caso da australiana, um posto de gasolina em Perth é o seu atual local de trabalho. E lá, parece que os dias de artilheira passaram em branco para as suas colegas de trabalho. “O pessoal que trabalha comigo não tem idéia quem eu seja, então quando alguns clientes me parabenizam pelo trabalho feito na Copa as garotas olham para mim e ficam me perguntando quem sou eu”, conta, para depois desabafar: “Parece que está tudo morto para mim agora.”

Se depender dela, esses dias de sofrimento e tristeza vão acabar. Propostas de alguns times europeus foram feitas, mas diz que ainda está analisando. “Todos estão me dizendo que o melhor a fazer é deixar para o ano que vem, mas eu sou uma pessoa que quer agora, agora, agora.”

Nossas garotas não são as únicas que precisam ficar desapontadas. O futebol feminino ainda está em desenvolvimento em países desenvolvidos como a Austrália. A última Copa do Mundo mostrou que as jogadoras merecem ser profissionais e quem sabe daqui a quatro anos elas possam ter esse sonho realizado.

Juninho 1 x 0 Jardel

Não poderia deixar de dar o resultado do jogo que foi destaque na última coluna. O Sydney FC fez 1 a 0 no Newcastle Jets e Juninho Paulista saiu na frente no confronto melhor de três. Jardel foi substituído no intervalo.