Luka Modric sai da Copa do Mundo com a Bola de Ouro de melhor jogador. Ivan Perisic teve o heroísmo reconhecido pelos momentos decisivos nas duas partidas finais. Mario Mandzukic anotou o gol mais importante da história do país, na prorrogação contra a Inglaterra. Danijel Subasic pegou quatro pênaltis para levar a seleção tão longe. Quando se falar sobre esta Croácia, entretanto, será necessário sempre citar um craque que estava nas entrelinhas. E que jogou uma enormidade na decisão no Estádio Luzhniki, independentemente do resultado final. Os croatas mandaram no confronto com a França durante boa parte do tempo, e muito por conta da influência exercida por Ivan Rakitic. Não deixa a competição com um rótulo de lembrança instantânea adicionado ao seu nome, mas foi muitíssimo bem, principalmente na reta decisiva da competição. Brilhantismo que deve ser reconhecido.

Antes do Mundial, haviam certos questionamentos sobre Rakitic. O meio-campista não vinha de uma boa temporada no Barcelona. Manteve-se como peça fundamental com a chegada de Ernesto Valverde, mas não conseguiu apresentar o seu nível costumeiro. Foi um mero figurante, abaixo de seu talento, e com várias atuações ruins. A Copa do Mundo, todavia, ofereceria uma oportunidade diferente ao meio-campista. Estaria em outro cenário, com outros companheiros. Que o cansaço de mais de 60 partidas pesassem sobre as pernas, o camisa 7 se reergueu. Potencializou o seu jogo e também o dos demais companheiros.

Rakitic já tinha feito boas exibições na primeira fase, principalmente pela maneira como esmerilhou a Argentina na segunda rodada. Com gol e outros tantos lances sensacionais, foi o responsável pela noite histórica, ao lado de Luka Modric. A Copa, ainda assim, ofereceria mais momentos ao camisa 7. Ele exerceu um papel fundamental na equipe, dividindo encargos com o outro maestro de quadriculado. Recuava um pouco mais, auxiliava no controle das partidas, ditava o ritmo da equipe. E isso com uma regularidade respeitável. Não contribuiu com gols nas partidas decisivas dos croatas. Em compensação, o sucesso necessitava da participação do veterano, sempre chamando o jogo para si. Inclusive nas disputas por pênaltis, fechando as vitórias sobre Dinamarca e Rússia, em partidas em que se voltou sobretudo à saída de bola.

Contra a Inglaterra, Rakitic se soltou mais ao ataque. E a pressão a partir do segundo tempo contava com sua atitude agressiva. Perisic e Mandzukic resolveram, mas a partir dos passes que vinham do meio-campista, caindo justamente pelo lado esquerdo, onde ajudava o ponta. Já na decisão, o veterano chegou embalado. Parecia ter controle da situação em um time que partia para cima e que incomodou a França durante quase uma hora, dominando o meio-campo. N’Golo Kanté sofreu como não acontecia há meses. Nisso, pesa a leitura de jogo do croata, conduzindo a equipe com o auxílio dos outros companheiros cerebrais que possui ao lado. Pesa a qualidade de antever os lances e distribuir ótimos passes.

Rakitic foi excepcional principalmente quando a Croácia se impôs no jogo, na meia hora inicial. Servia de ponto de referência a equipe e orientava a pressão dos quadriculados, com movimentação e inteligência nas jogadas. Entrou muitíssimo ligado, e isso fazia a diferença. Ser dominante, porém, não garante necessariamente a efetividade. E as bolas paradas acabaram sendo bem mais decisivas à França para seguir ao intervalo em vantagem. O mesmo parecia se repetir no início da segunda etapa, com o camisa 7 articulando as jogadas ao lado de Modric. O problema viria com os três tentos dos Bleus, cabais para o baque sentido pelos croatas. Rakitic até voltou a se sobressair na tentativa de reação, mas nada que valesse a vitória. Nada que inibisse a decepção.

Griezmann recebeu o prêmio de melhor em campo. De fato, terminou como o grande personagem da partida, decisivo em quase todos os tentos de seu time. A escolha, feita a partir de votação popular, também estaria em boas mãos se fosse a Paul Pogba. Derrotado, Ivan Rakitic dificilmente seria o eleito. Mas bem que merecia. Foi completo durante os melhores minutos da Croácia, dominou sua área no campo, pensou e participou de diferentes fases do jogo. O placar, de qualquer forma, não reflete diretamente esta preponderância. Restou sair de campo ciente que foi fundamental, ainda que a decisão tenha pendido em outros detalhes. A qualidade já conhecida do camisa 7 teve o seu melhor exemplo no maior dos palcos, apesar do resultado.

Aliás, Rakitic não é o único desta seleção croata que merece o destaque além dos nomes já citados. Sime Vrsaljko dominou a lateral direita, excelente no apoio e na marcação, ao menos entre os três melhores da posição. Domagoj Vida e Dejan Lovren atuaram acima de suas próprias possibilidades. Marcelo Brozovic fez uma função que não é a sua com muita competência. Ante Rebic, depois de uma temporada excelente pelo Eintracht Frankfurt, doou-se a cada partida e deu intensidade ao ataque, saindo bastante valorizado da Rússia. São caras que devem ser exaltados também nesta caminhada histórica.

Após a partida, diminuída a frustração pela derrota, o orgulho pela campanha tomou o vestiário da Croácia. Rakitic postou uma foto em suas redes sociais, parabenizando Modric, com a Bola de Ouro compartilhada entre quatro mãos. O camisa 7 também é parte importante nesta conquista individual do companheiro, especialmente pela maneira como até se encarregou mais da coordenação do time durante os jogos finais. Uma pena para ele que sua atuação de gala no Luzhniki não conte o melhor final.