Ao longo de uma trajetória tão singular quanto a da Chapecoense, vários jogos deixaram marcas profundas. Uma das maiores virtudes do Verdão do Oeste era a sua valentia. A maneira como sempre encarava nos olhos qualquer adversário, independentemente de sua tradição ou do quão dourada era a sua sala de troféus. Assim aconteceu várias vezes. Nas goleadas sobre Internacional, Fluminense e Palmeiras. Nas vitórias sobre a maioria absoluta dos clubes que passaram pela Série A desde 2014. Nas classificações conquistadas no continente sobre San Lorenzo, Independiente, Junior de Barranquilla e Libertad.

Um dos confrontos mais impregnados na memória, entretanto, terminou com a eliminação da Chape. E nem por isso deixa de ser menor. Pelo contrário, talvez tenha sido a maior mostra da coragem que tomava o espírito dos alviverdes a cada duelo. O River Plate avançou nas quartas de final da Copa Sul-Americana de 2015. Mas o então dono das duas principais taças continentais precisou suar. Não houve camisa pesada ou estádio cheio que amedrontasse a Chapecoense. Por detalhes, a classificação não veio, o que não diminui os méritos dos catarinenses.

Na visita ao Monumental de Núñez, prevaleceu o orgulho. O peito estufado ao agarrar a oportunidade e jogar em um dos maiores templos do futebol. Dezenas de torcedores pegaram a estrada para viver aquela que, até então, era a maior noite do modesto clube do interior catarinense. E o time não decepcionou, mesmo sendo derrotado por 3 a 1. Jogou de igual contra um River Plate claramente superior, se preparando para o Mundial de Clubes. Danilo, autor de defesas importantes, foi um dos destaques.

Já na volta, a Arena Condá correspondeu à grandeza da ocasião. O mais importante, naquele momento, era representar a identidade que sempre regeu a Chapecoense. E olha que ainda deu para sonhar com a classificação. Os alviverdes colocaram o River Plate contra a parede. Abriram o placar e pressionaram muito em busca do segundo gol, que daria a classificação. Tomaram o empate, mas não desistiram. Marcaram outra vez e novamente tinham sede de história, pelo tento solitário que faltava para forçar a disputa dos pênaltis. Ele não veio – apesar de uma chance perdida na pequena área, um milagre de Barovero e uma bola no travessão. De qualquer maneira, a torcida nas arquibancadas teve o gosto de ver seu clube acuando um gigante continental. Pôde chamar o River de “timinho”, enquanto gastava o tempo pela classificação. Conquistou a vitória e a honra de aterrorizar os Millonarios.

Por respeito ao que viveu e a sua própria história, o River Plate se mostra como um dos clubes mais envolvidos com a tragédia da Chapecoense. A primeira homenagem aconteceu nesta quinta, na semifinal da Copa Argentina contra o Gimnasia La Plata. Os dois clubes usaram o escudo da Chape no centro da camisa, enquanto o Gimnasia ainda entrou em campo com uma camiseta especial com o símbolo dos catarinenses. Exibiram uma faixa desejando força e respeitaram um minuto de silêncio. Já nas arquibancadas do Estádio Bicentenário, em San Juan, os alvirrubros gritavam “Olê olê olê Chapê” e soltavam balões verdes. Quando a bola rolou, o clube de Núñez venceu por 2 a 0 e se garantiu na decisão contra o Rosario Central.

E o maior tributo virá no próximo domingo. Quis o destino que Independiente e River Plate se enfrentassem logo na próxima rodada do Campeonato Argentino. Dois dos gigantes que conheceram de perto a valentia da Chapecoense. O presidente dos Millonarios confirmou que sua equipe vestirá camisas e calções verdes – com os jogadores de linha usando um modelo anterior do uniforme de goleiros. Prova maior de respeito não há. E conquistado ainda em vida pelos heróis da Arena Condá.

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