Há alguns anos, uma convenção científica deliberou que o corpo celeste chamado Plutão seria “rebaixado” da categoria de planeta. Não tenho a menor ideia do motivo pelo qual os astrônomos assim decidiram, mas a distância que separa a elite do futebol brasileiro da Série D do campeonato nacional é mais ou menos a mesma entre a Terra e aquele que era o último planeta (astro?) do Sistema Solar.

Acompanho o futebol local desde o ano de 2002, quando fui a um estádio de futebol pela primeira vez. O jogo era no estádio municipal Nhozinho Santos, o “Gigante da Vila Passos”, bairro em que se localiza. Sampaio x Remo pela Série B. Vitória boliviana por 2×1. Até hoje lembro do gol da vitória. Estava atrás do gol onde a “Bolívia Querida” atacava no segundo tempo. Pênalti: Cristiano bateu e fez. Saí do estádio extasiado!

De lá pra cá fui em quase todos os jogos em São Luís, onde o time praticamente não perde. No século XXI, o Sampaio Corrêa perdeu apenas dez vezes em competições nacionais para times de outros estados, levando em conta todas as competições organizadas pela CBF: séries B, C e D, além da Copa do Brasil.

O abismo que existe entre a elite do futebol brasileiro e as séries de acesso pode ser percebida na proporção de inserção de matérias relacionadas às mesmas. Enquanto a elite, por motivos óbvios, é tema de um número de matérias maior que a quantidade de galáxias no universo, a série D fica restrita a notas de rodapé de programas esportivos dominicais ou a matérias quando há um fenômeno de público que expõe as baixas médias na série A, como o caso do Santa Cruz em 2011 e 2012 e do próprio Sampaio esse ano.

A série A tem todos os seus jogos transmitidos na TV a cabo e pelo menos um jogo é exibido em TV aberta; a série B tem uma ou duas transmissões garantidas por semana; a série C ganhou espaço em 2012 e uma partida é passada na TV paga; já a série D é igual cabeça de bacalhau: você sabe que existe, mas nunca vê.

Manutenção da base é decisiva: Arlindo Maracanã, o “ouro da casa”

Já que poucos viram, o que fez com que o Sampaio Corrêa tivesse uma campanha tão avassaladora, conseguindo o acesso de forma tranquila? Uma série de fatores contribuiu para o feito.

Nas séries inferiores do Campeonato Brasileiro e nos campeonatos estaduais é comum um time dispensar um grande número de jogadores e contratar no atacado a cada início de competição. A diretoria do Sampaio, no entanto, mantém a mesma base desde 2010. A maioria dos destaques do time em 2012 já estava no clube ano passado. O acréscimo de outros nomes, no entanto, teve boa participação no sucesso obtido.

Nomes como Rodrigo Ramos, goleiro e ídolo do time, Eloir, volante clássico, que joga fácil, de cabeça erguida, desarma e arma com a mesma qualidade além de chegar na área pra finalizar (foi o artilheiro do time na competição com 6 gols) e Pimentinha, no time há apenas dois meses, que infernizou todas as defesas adversárias, foram fundamentais para o acesso e o título da competição. Mas não há como comparar com o veterano Arlindo Maracanã, meio-campista que começou nas categorias de base do clube, participou do título invicto da série C em 1997 e voltou há pouco tempo pra (re) conquistar o Brasil da mesma forma, sem derrotas, 15 anos depois. Sua experiência e qualidade técnica foram cruciais para o bom desempenho do time, principalmente nos jogos fora de casa, o grande calcanhar de Aquiles nos anos anteriores.

A Série D para o Sampaio Corrêa esteve divididas em dois momentos distintos: a primeira fase o mata-mata. Parece um simples clichê, mas não é. Explico. Os primeiros cinco jogos do time foram no estádio municipal Nhozinho Santos, com capacidade pra pouco mais de 15 mil pessoas. A média, porém, ficou na casa dos 4.500 presentes.

Os dez primeiros jogos do time foram meros passeios. Dez vitórias, 25 gols marcados, nenhum sofrido, 100% de aproveitamento e a certeza de decidir em casa os confrontos em casa até o fim do campeonato caso fosse avançando de fase. A fragilidade do grupo serviu pra entrosar cada vez o time que, além dos citados, conta com ótimos jogadores, como o zagueiro Mimica, o volante cão de guarda Robson Simplício e o lateral direito Roniery.

A partir do mata-mata, o Sampaio fez a “campanha perfeita” nesse tipo de situação: empate com gols fora de casa e vitória em seus domínios. A exceção que confirmou a regra foi o confronto que decidiu o acesso, contra o Mixto de Cuiabá. Após dois empates, o gol marcado fora no 1×1 no jogo de ida fez jus ao termo “qualificado”.

Um outro diferencial das fases da competição foi o local dos jogos em São Luís. No mata-mata, o Castelão foi reentregue para jogos depois de uma reforma de oito anos. Com capacidade para 40 mil pessoas, quase sempre contanto com capacidade máxima, a força que vinha das arquibancadas foi uma força extra, haja vista que os adversários jogavam em estádios acanhados. O jogo da primeira semifinal contra o Baraúnas, por exemplo, foi jogada para um público de mais ou menos 1.500 pessoas no Rio Grande do Norte.

2013: Campeonato Maranhense, Copa União e Série C. E a Copa Nordeste?

Caso o time consiga manter o elenco e trazer jogadores para posições que precisam de reforços, as perspectivas para o Sampaio Corrêa em 2013 são boas. A priori, o time disputará três competições: no âmbito local, o Campeonato Maranhense e a Copa União (torneio criado há alguns anos para que os times do Estado tenha atividade no segundo semestre) e a Série C. Nesse momento, o leitor deve estar se perguntado se o time maranhense não jogará a Copa Nordeste, competição que volta ao calendário da CBF em 2013. A resposta é não. Por uma dessas questões que apenas os dirigentes brasileiros são capazes de proporcionar, o Maranhão e o Piauí fazem parte da região Norte no mapa do futebol. Os dois estados tinham representantes na extinta Copa Norte, competição vencida pelo Sampaio em 1998, que lhe deu vaga para disputar a Copa Conmebol – atingiu as semifinais naquele ano, caindo pro Santos na derrota em São Luís por 5 a 1 com o Castelão contanto com 98 mil pessoas.

A Serie D foi uma prova cabal que a geografia do futebol tem de passar por uma revisão e times do Maranhão e Piauí serem alocados na Copa Nordeste. A média de público do Sampaio Corrêa na competição foi de quase 20 mil pessoas por jogo, sendo a sexta maior entre todos os participação do Brasileirão levando em conta todas as divisões. O Sampaio tem mais torcida, mais história e mais apelo midiático do que boa parte das agremiações que compõe a competição. Assim, é impensável que o time não jogue a competição. Copa Nordeste sem times do Maranhão e Piauí não é Copa Nordeste. É, no máximo, a Copa do Semi-Árido.

A longo prazo, a conquista pela Bolívia Querida também pode ser o início de um processo de reestruturação do futebol local. Uma categoria de base deve ser desenvolvida, a qualificação do centro de treinamento, entre outros elementos. Se o Sampaio pretende estar na série B em 2014 e daqui alguns anos na série A, precisa aproveitar o momento. É uma segunda chance que a vida dá ao clube maranhense. Aquela dada em fins da década de 1990 não foi bem aproveitada. Torçamos para que os dirigentes, não apenas do clube boliviano, bem com da federação maranhense, não desperdicem a nova oportunidade.