Alverca do Ribatejo é uma cidadezinha nos arredores de Lisboa que possui 31 mil habitantes. Se a população inteira fosse levada ao Estádio José Alvalade, ocuparia pouco mais de 60% das arquibancadas. No entanto, foi da diminuta freguesia que veio o clube responsável por derrubar o Sporting na Taça de Portugal. Como se já não vivesse crise suficiente, os leoninos ainda sucumbiram ao Alverca, recém-promovido à terceira divisão do Campeonato Português. Dentro de sua casa, diante de 5 mil testemunhas, os azarões venceram por 2 a 0 e desbancaram os atuais campeões da Taça ainda nos 32-avos de final.

O Alverca já chegou a se meter entre os grandes de Portugal. Na virada do século, disputou quatro temporadas consecutivas na primeira divisão, mas não passou do 11° lugar. Neste período, contou com jogadores do calibre de Deco, Maniche, Mantorras e Ricardo Carvalho em seu elenco. Ainda voltaria brevemente à elite em 2003/04. Entretanto, o período de bonança logo seria seguido pela bancarrota da agremiação. Em 2005, por conta de problemas financeiros, o Alverca precisou extinguir seu futebol profissional. Recomeçou na segunda divisão distrital de Lisboa. Desde então, conquistou três acessos, até reaparecer na terceirona durante a atual temporada.

No passado, o Alverca sustentou um histórico respeitável contra o Sporting. Ficou sete partidas seguidas sem sucumbir aos leoninos entre 1999 e 2001, com quatro vitórias e três empates – e isso em tempos nos quais a potência ainda lutava pelo título no Campeonato Português. Pois esse passado voltou à tona nesta quinta-feira. Os anfitriões não se intimidaram com o favoritismo dos sportinguistas, que pouparam boa parte de seus titulares para a ocasião.

O Alverca precisou de dez minutos para traçar sua sorte. Logo no início do jogo, o brasileiro Alex Apolinário (ex-Athletico Paranaense e Cruzeiro) aproveitou o espaço deixado por Doumbia e abriu o placar com um chute de longe. Com a vantagem, a equipe da terceirona se segurou na defesa e esperou por uma oportunidade fatal. O gol da classificação sairia aos 10 da segunda etapa, graças ao também brasileiro Luan (ex-Guarani), que aproveitou uma saída errada do goleiro após cobrança de escanteio. Desorganizado, o Sporting não conseguiu reagir. Nem mesmo a entrada de Bruno Fernandes salvou os alviverdes.

Foi apenas a quinta vez na história da Taça de Portugal que o Sporting sucumbiu a um time de divisão inferior. O Porto caiu seis vezes a um oponente de degraus abaixo, enquanto o Benfica possui três eliminações do tipo. Já o Alverca não superava uma equipe de divisões acima desde 1992/93.

Para o Alverca, a vitória representa o maior momento do clube neste renascimento, ainda que a caminhada às fases mais agudas da Taça de Portugal seja longa. Já o Sporting vive o fundo do poço na Taça de Portugal, justamente o torneio que ofereceu um alento na temporada passada. Os leoninos trocaram de técnico e Jorge Silas chegou sob a promessa de recuperar a equipe. Entretanto, depois de vencer seus dois primeiros compromissos, o tropeço ganha ares de hecatombe. E o clima não favorece a recuperação imediata.

O Sporting ocupa o modesto sexto lugar no Campeonato Português. Venceu apenas três jogos nas sete primeiras rodadas e aparece a oito pontos do líder Famalicão. Além disso, a equipe já sofreu os seus primeiros tropeços na Taça da Liga e na Liga Europa. Perder na Taça de Portugal era tudo o que os sportinguistas não precisavam. Em meio a protestos nas arquibancadas de Alverca do Ribatejo, alguns torcedores pediam até mesmo a renúncia do presidente Federico Varandas. Enquanto isso, o Alverca desfruta a fama de “tomba-gigantes”. Aos pequeninos, o valor do triunfo é indescritível. E permite sonhar com mais.