Por Joza Novalis

Encravado na África do Sul, escondido no cume de montanhas, e com altitude mínima de 1.400 metros acima do nível do mar, o Reino do Lesoto pede licença para fazer parte da maior festa do futebol: a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Os Crocodilos do Sul vivem o melhor momento da história do seu futebol. Alimentando esse sonho um projeto sério; apimentando-o, um triunfo inédito sobre um gigante a seus olhos: o Burundi.

 

Lesoto. O que é isso?

Conhecido anteriormente como Basutolandia, na época da colonização britânica, pouco a pouco o país foi modificando seu nome para Lesoto. Há controvérsias sobre a paternidade do nome, mas há quem diga que antes de ser adotado por seus habitantes, o nome foi imposto por aqueles que viam nessas pessoas muitas esquisitices. Uma delas estava na língua que eles falavam, bem diferente das demais línguas da África Austral. Então, teria partido disso a alcunha de “aqueles que falam sesotho”.

Outra teoria parte da afirmação de que os próprios moradores das montanhas utilizaram o termo como forma de identificação nacional. Dessa forma, enchiam o peito e afirmavam para todos: “aqui está o país dos que falam sesotho. A língua é uma das mais profundas marcas da identidade nacional do Reino do Lesoto.
Isto aqui, o que é? Lesoto

De diferente do mundo o país tem o fato de que 99% de sua população faz parte de uma mesma etnia (basotha). Outra diferença está no fato de ainda dispor de uma atmosfera saudável, para a qual contribuem uma baixa densidade demográfica, o ar puro e frio das montanhas e ruas razoavelmente limpas para o cenário urbano de um país subdesenvolvido.
No mais, quase todos os problemas sociais dos povos subdesenvolvidos: pobreza, déficit educacional, demagogia política… Para acusá-los, uma população de mais ou menos dois milhões de habitantes. Carentes, encontram refúgio em outro traço típico que une o país montanhoso ao Brasil: o esporte. No caso do Lesoto, notadamente o futebol. Apesar de que, por causa desse esporte, é também conhecido na África como “a grande piada”.

De Piada ao sonho da Copa do Mundo

A seleção de futebol do país nunca esteve nas fases decisivas de uma Olimpíada, de uma Copa Africana e, claro, de uma Copa do Mundo. Trata-se do típico freguês até mesmo de Zimbabwe e Malawi, países bastante inexpressivos no futebol africano. No entanto, as coisas se modificam pouco a pouco no sul do continente africano. As razões são muitas. Na origem de todas elas está o fim do apartheid, na África do Sul. Entre elas, está o crescimento econômico e, no caso específico do Lesoto, alguns projetos sérios de desenvolvimento do futebol nacional.
Todo o sul da África sofreu de uma forma ou de outra com o apartheid. Fora do país onde essa política era implantada, Suazilândia e Lesoto foram cruelmente vitimados. Contudo, por questões demográficas e políticas, o que passou a Suazilândia não chega perto das crueldades infringidas ao povo do pequeno país montanhoso. O Lesoto fica completamente dentro da África do Sul. Nesse caso, era obrigado a se comportar como uma espécie de subalterno que no mínimo fechasse as portas de sua casa a líderes políticos cassados, feito cães, pelas tropas do país vizinho. Ainda que o mundo pouco se importasse com o seu destino, o Lesoto fazia justamente o contrário do que exigia a África do Sul: abria as suas portas para os refugiados políticos e permitia, inclusive, que eles se reorganizassem politicamente a partir de seus domínios territoriais.

A consequência foi que invasões, confisco de suas riquezas e bloqueio generalizado asfixiaram a economia local.  Foram décadas sem crescimento e a fome passou a ser um componente diário do povo do Lesoto.  Porém, o fim do apartheid trouxe ventos fortes que vão varrendo o cenário de miséria e instaurando uma época de sonhos. Como condutor dessa nova época está justamente o futebol, esporte também vitimado pelos tempos difíceis. 

Era de se esperar que a reorganização do futebol não ocorresse facilmente. E foi o que aconteceu. Primeiro veio a empolgação, depois a decepção em razão dos péssimos resultados em amistosos e competições oficiais. Até que, em 2008, decidiu-se que haveria uma reestruturação profunda no futebol do país. A seleção ainda disputou a Copa Cosafa (torneio para as equipes da África Austral) um ano depois e com relativo sucesso (venceu as ilhas Maurício por 1×0 e empatou com o Zimbabwe por dois gols).

Decidiu-se pelo afastamento da seleção das competições oficiais e os recursos ao futebol foram direcionados à estruturação da base. O projeto consistia em fazer o futebol não somente o esporte oficial, mas uma bandeira na luta contra a expansão da AIDS no país. Vale lembrar que o país tem 25% de infectados em sua população. O projeto chamou a atenção de entidades internacionais, que enviaram recursos financeiros para expandi-lo e decretá-lo, pouco depois, como uma iniciativa de sucesso.

Paralelamente ao projeto acima, um outro, patrocinado pela FIFA e com células em vários países, foi instaurado no Lesoto em 2011, o “Football for Hope”. O objetivo era o mesmo: associar o futebol ao combate a AIDS, mas também à educação sobre demais problemas de saúde pública. Aos órfãos da AIDS e aos filhos dos garimpeiros das montanhas o futebol foi oferecido como uma prática lúdica e salvadora.

O Retorno

Em 2009, o técnico sérvio Zavisa Milosavljevic deixou o comando da Seleção e foi substituído por Leslie Notsi. De cara Notsi foi dirigir a equipe Sub-20 e tinha como meta à classificação a Copa Africana da Categoria. Os Crocodilos eliminaram Quênia, Moçambique e África do Sul e garantiram vaga no torneio. Era a segunda vez na história que o futebol lesotiano conseguia o feito. A empolgação e orgulho nacional ficaram em polvorosa. Os jovens atletas foram tidos como os novos heróis nacionais, ainda que não conseguissem a classificação ao Mundial Su-20 FIFA, na Colômbia.

Pois bem, Lesli Notsi teve apenas o trabalho de levar vários desses jogadores à seleção principal. Ele a modificou em mais de 60% e manteve na formação original apenas jogadores experientes que ainda estavam em boa condição física e técnica. Alguns amistosos foram realizados e mesmo naqueles em que os resultados não foram satisfatórios, o time apresentou um raro padrão de futebol nunca visto na seleção lesotiana. Porém, mesmo com o incrível empate em 0 a 0 com a Botswana fora de casa, os Crocodilos ainda eram considerados uma zebra.

Então, três anos depois de uma partida oficial, a Seleção retornou a uma competição de futebol. Na mira, a fase preliminar da Copa no Brasil em 2014. Pela frente um adversário poderoso para o país das montanhas: o Burundi, cuja população é quase cinco vezes maior que a do Lesoto. O Burundi tinha vários atletas atuando no futebol europeu; o Lesoto, apenas um, Thapelo Tale, de 23 anos, do FK Srem, da segunda divisão da Sérvia. O rival tinha história e certa tradição no Sul da África, o Lesoto tinha apenas um currículo em branco.

Do riso ao choque

Os Crocodilos do Sul dominaram o primeiro encontro em Maseu, sua capital, e quando todos já se preparavam para comemorar o empate, apareceu Lehlomela Ramabele, aos 37 do segundo tempo apareceu para fazer o gol da primeira vitória do país na história das Eliminatórias para uma Copa do Mundo.

Mas partida de volta, em Bujumbura, capital do Burundi, até o presidente da federação local não acreditava no triunfo. Então a equipe se comportou de maneira brilhante na cancha do rival. Marcando a saída de jogo do Burundi com vários jogadores e grande velocidade na articulação, ao retomarem a bola, os torcedores locais se assustaram com o abafa que sua equipe levava. Aos 16 minutos, Thapelo Tale apareceu diante do arqueiro e fez 1 a 0 para os Crocodilos. Atônito em campo, o Burundi foi surpreendido seis minutos depois, quando Bokang Mothoana fez o segundo: 2 a 0 Lesoto. A concentração dos visitantes era tamanha que levou à falha, que resultou no gol de desconto da equipe local, aos 29, com Cedric Amissi: 2 a 1.

Então chegou o momento dos lesotianos se recomporem e deixar com que o rival corresse atrás do placar. Com um meio-de-campo criativo e distribuindo bolas aos atacantes, os Crocodilos tiveram a chance de ampliar por várias vezes. No fim, aos 43 dos segundo tempo, um pênalti contestado tirou da equipe a chance da segunda vitória na história das Eliminatórias. O empate, porém, deu ao Lesoto a chance de compor o Grupo D e efetivamente lutar par ir a uma Copa do Mundo.

O Grupo da Morte

Presente no Grupo D, o Lesoto tem tudo para ganhar experiência e amadurecer seu sonho para uma futura Copa do Mundo. Isso por que a equipe caiu numa espécie de grupo da morte, em que estão Gana, Zâmbia e Sudão, três dos destaques entre as seleções africanas. Apenas o campeão passa à terceira fase, e por mais que o futebol do Lesoto esteja em alta, é quase impossível sua classificação no Grupo D. Porém, fica a lembrança. Os dois maiores feitos do país anteriormente tinham sido duas vitórias cora de casa e contra “gigantes”. Em 1970, bateu no Malaui por 1 a 0 em Lilongwe; em 1992 humilhou a Botswana por 4 a 0 em Gaborone.

Ficha
Nome oficial: Federação Lesotiana de Futebol
Apelido: Likuena (Crocodilos)
Treinador: Lesli Notsi (Lesoto)
Ranking FIFA: 160
Participações em Copa do Mundo: nenhuma
Participação em Copa Africana de Nações: nenhum
Participação em Olimpíada: nenhuma
Principais rivais: Botswana, Burundi, Zimbabwe
Principais jogadores: Lehlohonolo Seema (capitão), Thapelo Tale, Bushy Moletsane e Bokang Mothoana.
Fique de olho: Lehlomela Ramabele


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