O Paços de Ferreira é um costumeiro participante da primeira divisão portuguesa. São 20 aparições na elite desde 1991, quando aconteceu sua estreia. Ao longo deste século, exceção feita a uma rápida passagem pela segundona em 2004/05, os Castores se mantiveram no primeiro nível e chegaram até mesmo a disputar a fase de grupos da Liga Europa, após um honroso terceiro lugar em 2012/13. A temporada passada, porém, guardou um novo rebaixamento aos pacenses. E a maneira de encurtar o retorno à primeira divisão foi confiando em um especialista: Vítor Oliveira. Neste final de semana, o Paços de Ferreira confirmou que estará de volta ao Portuguesão em 2019/20. Enquanto isso, engordou os números do treinador como o verdadeiro “Rei do Acesso” – ou, como dizem no país, “Rei das Subidas”. Desde 1991, quando levou o próprio clube à elite pela primeira vez, são 11 promoções com dez equipes diferentes.

Filho de uma peixeira e de um pescador, o garoto nascido em Matosinhos logo demonstrou o seu talento ao futebol. Apesar da aptidão em matemática e física, Vitor Oliveira assumiu a carreira nos gramados, ainda que tenha tentado conciliar os treinamentos com o curso de engenharia na Universidade do Porto. O meia construiu uma trajetória respeitável nos anos 1970 e 1980, passando pelas seleções de base e por diversos clubes médios. Chegou a disputar a final da Taça de Portugal com a camisa do Braga, até se aventurar como treinador. Tinha 31 anos e, quando imaginava que o presidente do Portimonense ofereceria a renovação de seu contrato como atleta, o convidou para assumir a prancheta. Abraçou o desafio, levando o clube ao sétimo lugar da liga.

Vitor Oliveira ainda passou pelo Maia, antes de começar a construir sua fama como Rei das Subidas à frente do Paços de Ferreira. Permaneceu quatro anos na equipe e a levou de maneira inédita à primeira divisão. Trabalhou depois no Gil Vicente e no Vitória de Guimarães, sem grandes impactos por lá, até assumir a Acadêmica de Coimbra na segundona em 1996/97. Subiu de novo. Pois aí é que sua fama se alastrou. Na temporada seguinte, em 1997/98, rumou à União de Leiria e também foi promovido. E adivinha o que aconteceu em 1998/99? Calma, que há um prólogo. Com moral alto, ele foi levado pelo Braga. Treinava um clube de projeção da elite, mas conquistou apenas três vitórias em 14 rodadas. Demitido no primeiro turno, retornou à segunda divisão às vésperas do Natal. Dirigiria outro histórico, o Belenenses, rebaixado no ano anterior. Aí, sim, deu um gás na campanha e emendou o terceiro acesso seguido. O reconhecimento definitivo.

As habilidades de Vitor Oliveira na segundona ficaram por um tempo adormecidas, até levar o Leixões à elite em 2006/07. O feito tinha um gosto especial. O veterano começou a carreira no clube de sua cidade natal, seu time do coração. Entretanto, prometera que nunca iria treiná-lo enquanto o pai fosse vivo. O técnico não queria expô-lo a qualquer insulto, já que o idoso costumava frequentar as arquibancadas. Quando pôde assumir o cargo, marcou seu nome e se emocionou durante a comemoração. Durante o desfile em carro aberto em Matosinhos, avistou sua mãe no meio da multidão. Em meados da década passada, o Rei das Subidas ainda trabalhou outras vezes na primeira divisão, mas não passou do meio da tabela e (vejam só) sofreu alguns rebaixamentos. Assim, assumiu de vez sua fama mágica a partir de 2012/13.

Desde então, Vitor Oliveira conquistou seis acessos em sete temporadas – número que só não foi maior porque resolveu trabalhar na elite em um desses anos. Arouca, Moreirense, União da Madeira, Deportivo de Chaves e Portimonense haviam agradecido por seus serviços. O Portimonense foi o único onde continuou rumo à elite, deixando o clube após terminar a Primeira Liga 2017/18 na décima colocação. Já nesta temporada, foi o escolhido pelo Paços de Ferreira. O comandante carimbou o retorno com quatro rodadas de antecedência e ainda tem a chance de conquistar seu sexto título na segundona. E com o detalhe de que os pacenses são a primeira “figurinha repetida” nesta epopeia. Curiosamente, a outra vaga na elite deve ficar com o Famalicão, clube com o qual Oliveira registrou seu único acesso como jogador. Faturou a segundona em 1977, uma promoção que não costuma ser incluída em seus números “oficiais”.

Ainda assim, Vitor Oliveira sobra na história da segunda divisão. O segundo treinador com mais acessos é Manuel Fernandes, com cinco promoções – apesar do excelente aproveitamento de conquistá-las em apenas oito temporadas. De qualquer maneira, está muito distante de atingir um número tão espantoso quanto o do verdadeiro “Rei das Subidas”. O veterano sustenta a fama com várias histórias curiosas – como na vez em que pediu para ser demitido do Arouca, por uma péssima campanha na segundona, mas permaneceu e conquistou a subida logo depois, iniciando sua sequência de façanhas nesta década.

Questionado sobre seu segredo, Oliveira mantém sua humildade. Como afirmou ao Expresso, em entrevista concedida após subir com o Desportivo de Chaves, em 2016: “Não há nada para revelar. Digo o que referi nas temporadas anteriores: as subidas não acontecem por acaso, mas também não há segredos escondidos. A base, como no Arouca ou no União da Madeira, é ter bons jogadores, unidos num projeto comum, boas condições de trabalho e envolvimento de todos os responsáveis pelo clube, a começar no presidente…”.

E apesar do reconhecimento que recebe no país, Oliveira não demonstra frustração por nunca ter recebido uma oportunidade de dirigir os três grandes. “Houve fases em que, como todos os treinadores, também aspirava a ter a possibilidade de chegar a um grande. Mas não cheguei. Provavelmente é verdade que haveria pessoas mais competentes do que eu nessas alturas para assumir essas equipes. Mas não tenho qualquer mágoa, nem nunca fiquei a pensar que poderia ter sido eu e porque é que foi aquele. Nunca tive grandes expectativas. E a verdade é que trabalhei sempre onde quis. Foi uma das grandes virtudes que tive na carreira. Nunca estive em lado nenhum contrariado. Isso manteve-me sempre feliz no futebol. Porque é ótimo quando trabalhamos onde queremos, fazemos o que gostamos e ainda por cima somos bem pagos. Eu tive essa felicidade. E onde não gostava de estar, ia-me embora”, declarou nesta semana, ao Diário de Notícias. Felicidade que se reflete através dos resultados.

Se não continuar à frente do Paços de Ferreira, apesar de toda a ligação histórica com a agremiação, o veterano de 65 anos certamente não terá muitos problemas para arranjar emprego na próxima temporada. Perguntado sobre os seus planos após o acesso, Vitor Oliveira respondeu em coletiva: “Sempre defendi que treinar na primeira divisão é melhor do que treinar na segunda. Agora, temos que ver quais são as perspectivas. Estou habituado a ganhar mais vezes que perder, mas na Primeira Liga os clubes que geralmente eu treino são aqueles que perdem mais do que ganham. Às vezes treinar na segunda divisão é uma opção de bem-estar, por uma situação mais positiva, por uma estabilidade”. Já rebaixado, o Feirense certamente tem ideia de quem pode ser seu treinador em 2019/20.

A lista de acessos de Vitor Oliveira:

  • Paços de Ferreira (1990/91)

  • Acadêmica (1996/97)

  • União de Leiria (1997/98)

  • Belenenses (1998/99)

  • Leixões (2006/07)

  • Arouca (2012/13)

  • Moreirense (2013/14)

  • União da Madeira (2014/15)

  • Desportivo de Chaves (2015/16)

  • Portimonense (2016/17)

  • Paços de Ferreira (2018/19)