Se assim desejasse, Gabriel García Márquez poderia muito bem ter escrito um livro sobre o futebol colombiano. Paixão ao torcedor do Junior de Barranquilla não faltava. Conteúdo também não. A veia jornalística de Gabo certamente afloraria diante dos fatos que permearam o balompié cafetero desde os seus primórdios. E ainda assim as páginas de seus relatos poderiam ganhar contornos de realismo fantástico, inspirar a sua imaginação singular à literatura e render contos deliciosos. Seja qual fosse a maneira como o caribenho trataria seus escritos, um personagem seria inescapável: Francisco Maturana, ou simplesmente “Pacho”. O homenzarrão de terno bem alinhado é um digno pensador do esporte, responsável pelos maiores feitos da Colômbia dentro de campo. Mas também misturou o erudito e o boleiro, o popular e o nobre, a emoção e a razão. Mentor dos times (sim, no plural) que fizeram seus compatriotas sonharem em conquistar o mundo, também ganhou o mundo por si em suas andanças. Um sábio acima de tudo, com contornos de fantasia em sua própria realidade. Um mestre do futebol que completou 70 anos nesta sexta.

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Francisco Antonio nasceu em Quibdó, uma cidade não tão distante do mar, como Gabo em sua Aracataca. O estrategista, olhando o horizonte do Pacífico; o escritor, se banhando no Caribe. Veio ao mundo em 1949, justamente na mesma época em que a Colômbia descobria o seu grande fervor pelo futebol, deslumbrada pelos craques do El Dorado. García Márquez escrevia suas crônicas, por vezes futebolísticas, ao jornal El Heraldo. Enquanto isso, o jovem Pacho se encantava com a bola, mas não deixava de se interessar pelas letras.

Aos oito anos, a família de Maturana mudou-se a Medellín. Passou a morar em Los Alcázeres, a uns minutos de caminhada do Estádio Atanásio Girardot. “Um bairro determinante em minha vida. Tudo era futebol”, recordaria Maturana. Nas ruas onde brincava com os amigos, Pacho topava a cada esquina com os ídolos dos clubes paisas. Sentava-se na calçada para ver o lendário Óscar López. Ia até a casa de Julio Gaviria para levar sua bolsa até o estádio. E havia um lugar onde ele mesmo se transmutava nestas lendas: o potrero, os campinhos de terra batida que são a essência do esporte na Colômbia. Por lá formava o seu caráter como futuro zagueiro e conhecedor da essência de seu povo. Isso até cair a noite, onde irremediavelmente tinha um compromisso em casa com os livros.

“Quando meu pai chegava, esgotado pelo trabalho, tudo era acúmulo de cultura. Havia um prêmio especial para o filho que respondesse as perguntas sobre a mitologia grega. O que fez Ulisses? Qual foi a bruxa que burlou o encanto das sereias? Qual o nome daquele determinado cão lendário? O que ganhava recebia umas moedas. Logo depois, o velho lia para a gente os contos de ‘Mil e Uma Noites’ e era tudo fantasia. Aí se semeou tudo. Depois vieram outras leituras, como Mario Benedetti e Eduardo Galeano”, recordou. Mas o pai também dava lições de cultura nacional. Pouco depois que Pacho completou dez anos, em 1959 ou 1960, ele visitou as arquibancadas do Atanásio Girardot pela primeira vez. Foi logo na ‘Korea’, o setor popular das tribunas. Era dia de clássico, Atlético Nacional e Independiente Medellín. Entre os aplausos para os verdolagas e os fogos para os rojos, o menino acabou regido pelo medo. A pólvora o afastou do DIM e, assim, se apaixonou pelo verde do Nacional.

O futebol, de qualquer maneira, não parecia uma alternativa ao futuro de Francisco. Seu pai, Marceliano, era um inspetor de saúde que também enveredava pela literatura e lançou duas obras antes do fim da vida. Já a mãe, Hilda, se dedicava como professora. “Meus pais tinham bem claro que eu precisava estudar. Naquela época, dizer que um filho seria jogador de futebol era declarar que seria deserdado. Se minha mãe percebesse que eu estava jogando com os sapatos que custaram o esforço do meu pai, teria sérios problemas. Um dia, cheguei a deixar os sapatos no gol, para não gastá-los e joguei descalço, mas acabaram me roubando. Fiquei no potrero até anoitecer, pensando no que ia dizer. Quando cheguei em casa, me castigaram e disseram que não voltaria a jogar nunca mais. Então precisei fazer às escondidas”, recorda-se.

O destino, porém, tratou de dar o seu próprio nó na história. Pacho começou a levar a sério o futebol justamente no Liceo Antioqueño, onde estudava. Por lá chamou a atenção de um olheiro do Atlético Nacional. Além de promessa da base verdolaga, também tinha sua própria torcida organizada durante a adolescência. E aquela febre de bola não demorou a se espalhar pela residência dos Maturana. César, um de seus 11 irmãos, também se tornaria jogador profissional. Ídolo do Independiente Santa Fe, faria carreira como treinador. Mas até a própria Dona Hilda se renderia. Engajada socialmente, ela montou um time de futebol com a intenção de afastar meninos do narcotráfico. Percebeu o verdadeiro significado daquele jogo, onde seus filhos se consagrariam.

Francisco não abandonou os estudos enquanto jogava pelo Atlético Nacional. Muito pelo contrário: levava bem mais a sério os livros e entrou para a universidade. Formou-se em odontologia. E a vida como dentista parecia mesmo o seu rumo quando a sorte se transformou, aos 23 anos. Era 1973. Tardiamente, o zagueiro estreou na equipe principal dos verdolagas. Integrou um timaço que conquistou o Campeonato Colombiano e encerrou o jejum do clube que durava desde 1954. Se antes de estourar Pacho pensava em concluir sua formação no interior, o sucesso o levou a montar seu próprio consultório em Medellín. Atendia companheiros e principalmente meninos, torcedores de seu time, que gostavam de estar sob os cuidados do ídolo. Um deles, um guri de dez anos, que precisava de um tratamento e só aceitou encarar o motorzinho quando soube quem seria o doutor. O pequeno Luis Alfredo, que teve seus caninos substituídos, jogava na base do DIM e ouviu o conselho para que continuasse estudando. Graduou-se em administração de empresas, mas também se tornou jogador profissional. “El Bendito” Fajardo, futuro campeão da Libertadores com o Atlético Nacional e presente na Copa de 1990 com a seleção.

Naquela época, Maturana dividia-se entre diferentes mundos. Inclusive entre as noitadas, com os companheiros de Atlético Nacional. Um dos craques do time era Miguel Ángel Lopez, veterano argentino que, antes de brilhar nos gramados, tocava bandoneón em grupos de tango. Bebiam juntos, apostavam em corridas de cavalos juntos, jogavam juntos. E juntos foram campeões nacionais novamente em 1976, no último ano de carreira de ‘El Zurdo’. Não que isso incomodasse o técnico, Osvaldo Zubeldía, que colecionou títulos em seus tempos à frente do Estudiantes. Ele também apreciava as corridas de cavalo, embora exigisse o profissionalismo e a preparação física de seu comandado. Não importava onde passava as noites, a resposta precisava vir em campo. Vinha. Pacho era um zagueiro classudo, de ótimo trato com a bola e capacidade para sair jogando. Desde já demonstrava sua aptidão à liderança. Aprendeu bastante com o treinador.

Em quase uma década como jogador do Atlético Nacional, Maturana superou os 300 jogos. Chegou até mesmo à seleção colombiana, disputando seis partidas com quadros secundários dos Cafeteros. O fim de sua história no clube paisa, vejam só, teria influência de Dona Hilda. Pacho ainda morava com a mãe e a deixava noites em claro enquanto aproveitava a rumba. Para viver sozinho, aceitou uma proposta do Atlético de Bucaramanga e se mudou de cidade. Por lá, se aprimorou como dentista, fazendo estágio em um povoado rural da região. Atendia pessoas carentes e cumpria suas vontades. Depois ainda jogou por seis meses no Deportes Tolima, atendendo em uma clínica infantil na cidade. Até que decidiu pendurar as chuteiras em 1983, aos 34 anos. Seu futuro? Retomar sua carreira como dentista na clínica em Medellín. Mais do que isso, passou a dar aulas no curso de odontologia na UDEA, a Universidad de Antioquia.

Os clientes famosos iam e vinham pela cadeira de Maturana,. Entre eles, Luis Cubilla. O grande ‘Negro’ Cubilla. Em seus tempos de jogador, o atacante empilhou títulos. Foi bicampeão da Libertadores com o Peñarol e também levaria a taça com o Nacional. Não contente em faturar o Campeonato Uruguaio com ambos os gigantes, ainda fez parte do Defensor que quebrou o duopólio em 1976. E o jogador de três Copas do Mundo ainda vestira a camisa do Barcelona na década de 1960. Uma lenda que, logo após encerrar a trajetória como atleta, ainda levou o Olimpia ao seu inédito título continental, poucos anos antes de assumir o Atlético Nacional. A caminhada até Antioquia explicava o porquê de estar ali, boca escancarada, diante de Pacho.

Maturana logo virou amigo de Cubilla. E do amigo, ouviu um pedido que não recusaria: “Volte ao futebol, preciso de você. Se não for para jogar, então me ajude com a equipe. Você tem autoridade. Além do mais, está engordando. Precisa do futebol para se manter em forma”. Quando Pacho disse sim a Luis, olharam através da janela do consultório. Viram uma garoa de minúsculas flores amarelas. Caíram a noite inteira numa tempestade silenciosa, e cobriram os telhados e tamparam as portas e sufocaram os animais que dormiam na intempérie. Tantas flores caíram do céu, que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta. O futebol colombiano se transformava naquele momento. O amarelo seria sua cor.

O retorno de Francisco Maturana ao Atlético Nacional o colocou à frente das categorias de base. Dirigia meninos de 16 anos, que poderiam ser os seus pacientes. Entre eles, René Higuita. Naquela mesma época, também assumiu voluntariamente um time de bairro com meninos de até 13 anos. Em 1985, conquistou a primeira edição do Pony Fútbol – um tradicional torneio de futebol em Medellín que inicialmente reunia garotos de diferentes distritos da cidade, mas logo se abriu ao restante do país. “A competição tem um grande papel social. Famílias, amigos e parentes vão encorajar os seus meninos, mas sempre num espírito saudável e de amizade entre as diferentes vizinhanças. Isso também transmite valores e solidariedade para esses bairros, alguns em situações bastante difíceis”, avaliaria, à So Foot. O filho de Dona Hilda, afinal, sempre demonstrou sua consciência. “O potrero é insubstituível. Depois disso, o Pony Fútbol é o próximo passo aos meninos colombianos no futebol. Ele começa nas ruas e o Pony desempenha um papel educacional. É essencial, porque você não pode imaginar quantos garotos atinge a cada ano. É normal ver grandes jogadores que saem de lá”.

Como na rotina de sua antiga vida em Los Alcázeres, se durante o dia estava com os meninos batendo bola, à noite Pacho voltou a se aprofundar na literatura clássica. Outros tipos de clássico, que Cubilla o orientava a estudar. O uruguaio deu o seu livro de tática ao pupilo e por lá ele aprendeu as ideias de Zubeldía, de Bilardo, de Menotti – diferentes escolas do futebol que eram praticadas com máxima intensidade às margens do Rio da Prata. “Ele chamava em sua casa, pegava os livros, tomávamos uísque e me fazia aprender, todas as noites, uma tática diferente. Entre as possíveis escolas, fui por aquela que jogava pelo prazer. A escola de desfrutar o futebol, mas com o trabalho de recuperar a bola, porque o que não tem a bola é o que sofre. O que tem, goza. Então, praticando os ensinamentos, comecei a ganhar tudo com aqueles garotos”, rememorou.

Cubilla ainda colocou Maturana em contato com Ricardo de León, treinador revolucionário do Defensor campeão em 1976. O iniciante colombiano nunca tinha se encontrado com o veterano uruguaio, mas sempre ligava para ele quando necessitava de algum esclarecimento. Estudou incansavelmente suas propostas de pressão e posicionamento, diretamente inspirados no Futebol Total da Holanda. De León era amigo de Rinus Michels. “Antes, nunca tínhamos encontrado nossa maneira, nunca tínhamos sido protagonistas. Mas neste momento, ao invés de nos preocuparmos com nossos rivais, começamos apenas a nos concentrar em curtir o momento, na maneira como nossos jogadores poderiam trabalhar melhor a bola. Nós aplicamos um estilo para expressar o que era a Colômbia como país: pessoas conhecidas por serem felizes, pessoas que são sonhadoras, pessoas que facilmente são inspiradas, mas com a ideia que também implementamos alguma ordem. A ordem era muito importante e as ideias nasceram a partir de minha experiência como jogador, mas também a partir daquilo que a Holanda vinha jogando”, relataria Maturana.

Cubilla se foi de Medellín poucos meses depois. Chegou Aníbal Ruiz, outro mestre uruguaio que passava as noites falando de futebol e tomando uísque com Maturana. Até que um dia, em seu consultório, chega um senhor de Manizales. O forasteiro não desejava cuidar de seus dentes. Ele propôs um novo emprego ao ex-zagueiro: que treinasse o Once Caldas. Oferta aceita, o novo clube seria tal qual um grito de liberdade ao jovem dentista. Sua mente estava tomada por aquelas ideias de um futebol com retoques de arte. Um futebol com um quê de magia, que talvez coubesse nos livros que seu pai lhe oferecia nos tempos de criança. Fecharia as portas do consultório, dali por diante. Assumiria-se como um regente. O prazer por jogar conduzia os 11 corpos às suas ordens, transformando o estádio cheio de gente em um pedacinho do velho potrero surrado. Era um futebol de sonho o que Pacho tornava realidade.

O Once Caldas seria o primeiro estágio de Francisco Maturana, o treinador. Um antecedente para abrir os olhos do Atlético Nacional, que o buscou de volta em 1987, junto ao seu braço direito Hernán Darío Gómez. Levou alguns jogadores de Manizales, bem como aproveitou os pratas da casa, a exemplo de Andrés Escobar e René Higuita. Montou um esquadrão baseado apenas em ‘criollos’, colombianos – algo muito significativo em um campeonato que sempre se valeu de referências estrangeiras em suas melhores equipes. O professor inseria uma diretriz futebolística, mas ia além. “Eu queria deixar as histórias em quadrinho de lado. Eu dei poesia a eles. Vamos ler Mario Benedetti, disse aos jogadores. Logo falei para melhorarem a relação com as pessoas e a maneira como se vestiam. Porque quando você não se cuida, também não cuida do seu jogo. Se você frequenta lugares ruins, as pessoas não vão te respeitar”, reconta.

Os verdolagas começaram a encantar. Não era só uma questão de investimento ou de grandes craques, mas de atletas que abraçavam aqueles ideais de um jogo livre. O futebol colombiano descobria sua identidade. No entanto, simultaneamente vinham as controvérsias. Em tempos prósperos ao Cartel de Medellín, ligar os pontos não exigia grande esforço mental. E naquelas peripécias do destino críveis apenas em um livro, Maturana havia sido colega de Pablo Escobar nos tempos de colégio. “Eu o conhecia, mas vamos deixar claro que há muitos mitos sobre Escobar. Viemos da mesma escola e Pablo era dois anos mais novo que eu. Depois ele se tornou político e, em certo momento, era uma pessoa pública. Neste momento, você conseguia encontrá-lo a cada esquina de Medellín, inaugurando campos de futebol e dando discursos pela cidade. Mas como criminoso, quem deveria se preocupar com ele: eu ou as autoridades? Nós viemos do mesmo lugar, assim como muitos jogadores. Estes são os caminhos da vida, que acontecem com todo mundo: os ricos, os pobres, os bons, os maus. Não era minha tarefa impedi-lo”, esclareceu.

E complementava: “Se ele falava de futebol comigo? Sobre o que mais poderíamos conversar? Algumas vezes as pessoas vinham até você e queriam saber sobre o seu trabalho, o que eu poderia fazer? Mas naquele tempo ele era apenas um político. Não estava claro que Escobar era o criminoso mais procurado do mundo”. A influência do ‘Patrón ‘ no sucesso do Atlético Nacional gera um debate acalorado há décadas, desde a força financeira para comprar os melhores jogadores e oferecer premiações polpudas, às ameaças contra árbitros e a intimidação de oponentes. Mas, ainda que o torcedor do DIM exercesse seu poder nos bastidores dos verdolagas através de seus ‘sócios’ no Cartel, isso não diminui a figura de Pacho. Seu ideal de futebol extrapolava a realidade, até porque o ex-dentista ajudava a combater as mazelas. E o impacto do jogo promovido pelo treinador logo abriria outros horizontes. Ainda em maio de 1987, Maturana assumiu a missão de dirigir a Colômbia.

A chegada à seleção, após trabalhar com o time pré-olímpico, se tornou um passo fundamental dentro do projeto maior. Uma decisão ousada ao escolherem o comandante de parca experiência, mas não exatamente absurda. A federação queria usar o Atlético Nacional como base dos Cafeteros, inspirada no que o Ajax representava à Holanda. Era uma padronização do estilo e uma memorização da forma de jogar. Maturana convocou oito jogadores do Atlético Nacional à Copa América, disputada na Argentina a partir de junho de 1987. Levou o time a um histórico terceiro lugar, ao derrotar inclusive a Albiceleste de Diego Maradona. Encantou pela maneira como a equipe tratava a bola. E em Carlos Valderrama encontrou o seu libertador. O Pibe de cabeça arejada. O líder capaz de livrar a seleção das velhas amarras e conduzir, na leveza de seu talento, a força do pensamento que se interiorizava entre os jogadores colombianos. O rapaz de cabeleira loira já faria uma competição estupenda naquela Copa América, algo que repetiria outras tantas vezes.

O primeiro grande marco da revolução de Maturana aconteceu em 1989. O Atlético Nacional conquistou a Copa Libertadores. Controvérsias à parte, os verdolagas jogavam por música e mereceram colocar a Colômbia pela primeira vez no topo das Américas. René Higuita virou herói de toda uma nação. Se existia uma disputa clara entre Bogotá e Medellín, alimentada pelas convocações da seleção que privilegiavam os paisas, a conquista consumada no Estádio El Campín servia para desafiar estas divisões. O goleiro brilhou no duelo contra o Olimpia, sobretudo na disputa por pênaltis. O menino que teve a sorte de ser treinado por Pacho na base viraria um dos maiores ídolos do país. E determinante ao jogo coletivo, pela maneira como também contribuía ao ataque através de suas saídas malucas da área. Um toque de insanidade dentro do plano, que logo seria marca daquela Colômbia.

“Eu não sei se eu procurava criar uma identidade específica do futebol colombiano, mas eu sempre procurei algo. Algumas vezes você não sabe o que quer, mas reconhece que era exatamente aquilo quando acontece. Foi o que se deu comigo. Quando o Nacional realmente começou a dar um renome ao futebol colombiano, o país inteiro passou a torcer pelo time, porque as pessoas gostavam desse futebol sem se importar com a vitória ou com a derrota. Era isso que eu buscava, porque a Colômia sempre teve bons jogadores, mas não existia um plano coletivo. Com o Nacional, a coletividade nos deixou em evidência”, recordaria Maturana.

Pois o ano memorável não pararia aí. Cinco meses depois, a seleção conquistaria a classificação à Copa do Mundo, rompendo uma espera de 28 anos. Se em 1962 Pacho era um menino ouvindo no rádio o histórico empate por 4 a 4 na estreia contra a União Soviética, as sensações que incutiria em seu povo seriam ainda melhores. Seu time fez uma partida apoteótica na repescagem contra Israel. “Em 30 de outubro de 1989, jogamos os 45 minutos mais brilhantes da seleção em todos os seus períodos. Uma equipe sóbria, que não cedeu nada, que jogou bonito. Quando a porta do avião abriu e entrou este cheiro da pátria, ouvi os gritos e os hinos, vi as centenas de bandeiras que cobriam os rostos jubilosos de milhares de compatriotas. Senti que verdadeiramente a missão rendera seus frutos”, poetizou, à biografia escrita por José Clopatofsky em 1990.

Os Cafeteros também estariam no centro das atenções durante a Copa. E não tinha como ignorar aquele futebol alegre, um tanto quanto irresponsável, que valeu atuações notáveis desde a fase de grupos – sobretudo no empate por 1 a 1 contra a poderosa Alemanha Ocidental. A eliminação ante Camarões nas oitavas de final guardou seus lamentos, é claro. Mas nada que rompesse o orgulho. Aquele time se tornou um verdadeiro embaixador da Colômbia. Em tempos de terror diário e da guerra dos narcotraficantes, o jogo atrevido transmitia outra imagem ao mundo. “Esse momento histórico do futebol colombiano ajudou a fortalecer o país. Porque era um tempo de muita angústia, a Colômbia tinha muitas dificuldades, havia insegurança e estávamos em guerra com nós mesmos. Quando as pessoas pensavam sobre a Colômbia, imediatamente identificavam como o país das drogas e do Pablo Escobar. Então, o futebol assegurou que a Colômbia aparecesse nos noticiários pelos motivos certos. Isso ajudou nosso povo quando estava realmente sofrendo. No estádio, você se sentava ao lado de todo o tipo de gente, mas longe dali isso raramente acontecia. Por isso que, para mim, o futebol foi um fator sociológico importante”, filosofou. Uma representação do povo colombiano, unindo diferentes regiões, mas se identificando com a mesma vivacidade.

“Nós copiamos o modelo holandês. Interpretamos um futebol preciso, com um goleiro líder, não dez jogadores e um goleiro. Eram 11 que produziam o jogo. Cada um estava posicionado no campo conforme seus parâmetros e suas responsabilidades, algo que deixou a equipe com características reconhecidas mundialmente”, analisaria, à Agência Anadolu. “Se você analisa do ponto de vista antropológico, descobrimos que existem coisas importantes. Era uma questão de cultura. Assim como tivemos atacantes costeños ou meias vallunos, que eram pura magia, também tivemos a seriedade e o trabalho do manizaleño e o paisa na posse da ordem, que eram muito bons na zona de marcação. Não foi ao acaso que escolhi cada jogador. Nós nos apoiamos na cultura e na maneira de ser do povo colombiano para tirar o melhor proveito da seleção. Além do mais, havia um empoderamento e uma mentalidade, na qual cada um sabia o que fazer para melhorar o outro, por meio do conhecimento e não do entusiasmo. Isso se chama futebol holístico, que não é a soma de pessoas, mas a soma do que as pessoas fazem. Onde um começava, o outro terminava”.

A fama de Maturana não se continha à América do Sul. Logo após a Copa do Mundo, Pacho desembarcou na Espanha, onde dirigiria o Valladolid. Apesar do início difícil em sua primeira temporada à frente do clube, terminou na nona colocação e passou a ser respaldado por seu trabalho. Era visto como um técnico de vanguarda, exatamente por tentar reproduzir o que de mais moderno se via no futebol. Seu novo livro era o de Arrigo Sacchi – não apenas uma referência, mas também o adversário e o amigo que quase derrotou no Mundial Interclubes de 1989, em uma partidaça do Nacional contra o incensado Milan. Em 1991, o colombiano chegou até a assinar com o Real Madrid, que vinha em crise, e deveria assumir na temporada seguinte. O problema é que Radomir Antic entrou como interino e conquistou 19 dos 20 pontos possíveis, levando os merengues a revogarem o contrato com o sul-americano. E a sequência no Valladolid não seria tão boa quanto se esperava. Depois de já ter comprado Leonel Álvarez em seu primeiro ano, também levou René Higuita e Carlos Valderrama. Os entraves internos e a luta contra o rebaixamento custaram seu emprego antes do fim da temporada.

A redenção de Maturana aconteceu de volta à Colômbia, em Cali. Levou o América ao título nacional em 1992. No ano seguinte, mente arejada, seria a vez de reassumir a seleção nacional. A sua geração havia amadurecido. E a garoa de pequenas pétalas amarelas voltaria a cair, desta vez em Buenos Aires, pelas Eliminatórias. As ideias de liberdade floresceram em pleno gramado do Monumental de Núñez, em 5 de setembro de 1993. A Colômbia chegou ao ápice de seu futebol potrero, aplicando a inesquecível goleada por 5 a 0 sobre a Argentina. O realismo fantástico. “Só posso dizer que foi o resumo de toda uma história de treinamentos, de partidas, de coincidências, de um ambiente espetacular, de boas partidas. Foi um jogo complicado. Começando o segundo tempo, vencíamos por 1 a 0 e Óscar Córdoba era a figura. Logo tudo saiu redondo. E logo me dei conta de que foi uma partida importante. Estes 5 a 0, acima do resultado, foram uma vingança de muitas partes. Anos depois, estava caminhando na Nigéria e passei por uns garotinhos jogando. Eu fiquei assistindo e um deles me disse: ‘Maturana, Argentina zero, Colômbia five'”, relatou.

A relação de Maturana com a seleção colombiana não era a de um mero treinador. Pacho, de fato, possibilitou a excelência esportiva. Mas extrapolava suas funções como estrategista, como preparador, como analista. Ele também era o psicólogo, que ouvia os seus comandados; o pai, que acolhia nas dificuldades; o conselheiro, que indicava os caminhos. Ou como os próprios futebolistas costumavam dizer, “O Filósofo”, de palavras certeiras a cada momento e amplo conhecimento. Tinha o dom da oratória. As experiências de vida haviam possibilitado cada virtude do veterano. Um professor, de raros sorrisos e trabalho intenso, que deixava o seu contentamento à euforia expressa por aqueles que formavam o seu esquadrão e por aqueles que vibravam nas arquibancadas.

O impacto nos Estados Unidos não se concretizou. A Colômbia, que chegou ao ápice coletivo na Copa de 1990, se perdeu em suas individualidades quatro anos depois. A Colômbia que significava a anestesia à sua gente logo refletiu o pior de um país em guerra. A Colômbia que se impunha dentro de campo sucumbiu, como outros traços da nação, no Mundial de 1994. “Tudo o que sobe também baixa. Outra coisa que se passou é que, na Colômbia, você precisa saber que não pode desligar o futebol de seu contexto social. E esse foi um momento péssimo: morto por aqui, ameaça por ali”, refletiria à Revista Bocas. À Blizzard, faria uma análise um tanto quanto sociológica: “Deixe me dar um exemplo. Quando Hernán Darío Gómez assumiu o Atlético Nacional, era um time excelente, mas jogava um tipo de futebol bastante diferente em relação à minha época. Era mais agressivo, e você sabe por que? Por causa da situação do país. No começo dos anos 1990, a Colômbia estava em um estado terrível, com muita violência, assassinatos e atentados a bomba. Era horrível. Mas isso se refletiu na equipe do time de Bolillo. Meu time no final da década de 1980 era muito mais, vamos dizer, Cem Anos de Solidão”. E não seria diferente com a seleção em 1994.

Entre a má fase de alguns jogadores e a infelicidade de outros, assim como diante da pressão exercida principalmente pela imprensa, os favoritos Cafeteros sequer avançaram aos mata-matas na Copa do Mundo. Maturana não apenas precisou lidar com a marca do fracasso. Ele precisou lidar com uma ameaça de morte. Horas antes do jogo contra os Estados Unidos, o treinador recebeu uma mensagem em seu hotel. Uma declaração de que, se escalasse Gabriel Jaime Gómez, sua vida estava em risco, assim como a do próprio atleta e de sua família. ‘Barrabás’ não jogou. O “Filósofo” não terminou a sua preleção, saindo do vestiário para chorar. A Colômbia sucumbiu de vez após a derrota ante os americanos, a sua segunda no torneio, já superados na estreia pela Romênia. Jogadores trocaram socos em meio ao treinamento e Pacho havia perdido sua razão, seu prazer. A eliminação se consumou apesar da vitória sobre a Suíça na terceira rodada.

E, mesmo podendo voltar vivo para casa, Maturana perdeu um pedaço de si após o Mundial. Autor de um gol contra diante dos EUA, Andrés Escobar acabaria assassinado, em outros desdobramentos daquele ambiente implacável que se enfrentava no país. Encarar a vida seria diferente a partir de então. “Andrés é o tipo de jogador ideal para qualquer equipe, não só porque era apto técnica e taticamente, mas também porque sua condição humana era inigualável. Porque dentro e fora de campo sua imagem se projetava com personalidade, porque tinha o dom de lidar com as pessoas. Em síntese, porque era um senhor”, avaliaria Maturana. Um menino que ajudou a lapidar e que perdia, em um rompante.

Apesar de tudo, Maturana prefere atribuir a decepção nos Estados Unidos ao futebol. “Quando você perde, todas as portas e janelas estão escancaradas, com as pessoas tentando encontrar razões. Eles tentaram explicar dizendo que perdemos por isso ou aquilo. Mas para mim, a explanação se concentra no nosso futebol. A Colômbia chegou ao seu pico nas Eliminatórias. Se a Copa do Mundo fosse dois meses depois do jogo contra a Argentina, nós teríamos vencido. Mas muito aconteceu a partir disso. Vários jogadores caíram de nível, outros não estavam jogando regularmente, existiam algumas lesões e não sabíamos como lidar. E as pessoas responderam procurando outras questões: disseram que os cartéis estavam envolvidos ou que fizeram bruxaria. Ouvi tudo isso e criaram boas histórias, mas você precisa apenas ignorar”, analisou.

“Depois da derrota para a Romênia na estreia, não mantivemos nossa união. Estávamos em um hotel tomado pela imprensa e pelos torcedores. Sentíamos a angústia. Perdemos a comunicação e os jogadores queriam ficar em seus quartos, para evitar o contato com a mídia. Você pode dizer que perdemos nosso caminho espiritual e foi um erro ficar em um ambiente assim. Queríamos que todos compartilhassem esse momento especial para mostrar que a Colômbia era uma família feliz. De novo, isso tinha a ver com o que acontecia em nossa sociedade. Mas as coisas não se desenrolaram como esperávamos e rapidamente se viraram contra nós. Foi quando os escândalos começaram e não podíamos fazer nada”, complementou. “Não acho que o narcotráfico foi a principal razão do nosso fracasso, absolutamente não. Falhamos por causa do nosso futebol e pelo que aconteceu após a derrota contra a Romênia. Foi um momento crucial, porque não aceitamos aquilo e não encontramos um caminho para elevar o moral. Respondemos de um jeito completamente errado”.

Ao final da década de 1990, Maturana tentou se encontrar em outras partes do mundo. Assumiu o Atlético de Madrid e durou poucos meses. Fez um bom trabalho na seleção do Equador, conquistando vitórias históricas, mesmo sem levá-la à Copa. Dirigiu o Millonarios, o que considera o maior erro de sua vida, ante o ódio que ainda recebia em Bogotá pelos tempos em que era o “inimigo” no Atlético Nacional. Esteve à frente também de Costa Rica e Peru. Até que atendeu o terceiro chamado dos Cafeteros. A Colômbia estava prestes a receber a Copa América, uma edição conturbada pela guerra com as FARC, e a confiança só seria garantida com o antigo mestre. Pacho assumiu uma geração totalmente diferente. A alegria de outrora não era tão expressa no futebol. Ela viria por outros caminhos. Com um time sólido na defesa, os colombianos não tomara um gol sequer ao longo do torneio continental. Conquistaram o título, o mais importante de sua história. Novamente, uma façanha para abrandar a realidade sufocante que a população encarava.

À frente do Al Hilal, faturou o Campeonato Saudita e tornou concretas as imaginações formadas enquanto seu pai lia as ‘Mil e Uma Noites’. Voltaria a um último ato na seleção da Colômbia, entre 2002 e 2003, para ver que a gratidão inexiste no futebol quando se encara uma tormenta. Dirigiria ainda Colón, Gimnasia, Trinidad e Tobago, Al Nassr. Os resultados não eram os mesmos, o prazer já tinha se esvaído. Em 2012, Pacho Maturana deu um tempo à prancheta. Até a retomou em 2017, tentando se reencontrar no Once Caldas onde tudo começou. Desejo efêmero. Sua representatividade, em contrapartida, é eterna.

Anos depois de seu auge, o velho dentista permanece como uma referência. O treinador que trocava figurinhas com Johan Cruyff já fez o mesmo com Pep Guardiola. Virou amigo de Arrigo Sacchi e anualmente vai aos Alpes para debater ideias com estrategistas locais, a exemplo de Carlo Ancelotti. Há uma conexão perene entre Medellín e o Uruguai, a Holanda, a Argentina, a Itália, a Espanha. Pontes que se ligam nas sinapses de Pacho. Dona Hilda e Don Marceliano certamente sentem orgulho da educação que ofereceram ao seu filho, hoje zelando por ele em outro plano.

O maior legado de Francisco Maturana ao futebol não está nos títulos que conquistou, nos craques que revelou, nas vitórias memoráveis que conduziu ou na própria maneira como fez a seleção colombiana ser respeitada pelo resto do mundo. Ele se concentra no potrero, no parque, na praia ou seja lá onde a bola role em seu país. Porque a alegria dessas crianças não é apenas se divertir. É se inspirar naqueles que exibem o melhor da Colômbia como identidade e como cultura. “Minha felicidade não tem nada a ver com o futebol. Minha felicidade vem dos meus amigos, da minha família e das minhas crianças. O futebol é apenas uma desculpa para conversar, rir e chorar”, diria o filósofo, que compartilha seu conhecimento com os mais eruditos, ao menos tempo em que se agacha para conversar com os pequeninos. Graças a ele, o futebol se tornou um enorme pretexto para a Colômbia exibir o seu melhor sorriso e seguir em frente ao longo de anos tão difíceis.

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Este texto é baseado principalmente nas entrevistas de Francisco Maturana à Revista Boca, em 2013, e à The Blizzard, em 2016. As demais citações do treinador estão mencionadas conforme suas fontes. Há, entretanto, a licença poética de um trecho adaptado de ‘Cem Anos de Solidão’. A transcrição da icônica cena está identificada em itálico. A vida de Pacho, que tanto transita entre os ares ficcionais, bem que merecia se cruzar com as histórias de Gabo. O treinador, afinal, por vezes transformou a Colômbia em uma grande Macondo.