Para encontrar uma façanha de igual tamanho na Europa, é preciso voltar quatro décadas no tempo. O continente não contava com um tricampeão além de suas fronteiras desde o Liverpool, em 1978 – completando a tríplice com duas conquistas na Copa dos Campeões e uma na Copa da Uefa. Antes disso, só outros três esquadrões da Champions: o Real Madrid penta, o Ajax tri e o Bayern de Munique tri. O Sevilla não está no mesmo patamar destes campeões, mas é, sim, um time histórico. O que o clube protagonizou na Liga Europa é raríssimo. Ainda mais quando se considera que são cinco taças em 11 anos. Uma dominância que supera inclusive a vivida pelo Barcelona na Champions. Não é pouco.

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Pelas próprias circunstâncias em que é composta, a Liga Europa se torna um torneio mais difícil de contar com vencedores consecutivos. Afinal, ela costuma indicar um processo de ascensão. Até a expansão atual no número de participantes da Champions, ocorrida em 2000, somente um clube havia conseguido o bicampeonato na Copa da Uefa: o Real Madrid dos anos 1980. Já nos últimos anos, a proeza se restringiu ao Sevilla. Em quatro das cinco campanhas vitoriosas, os andaluzes militaram desde a fase de grupos. A exceção veio nesta temporada, com a inédita vaga automática para a Champions. Porém, a equipe de Unai Emery não conseguiu provar a sua força em uma chave complicada, que ainda tinha Juventus, Manchester City e Borussia Mönchengladbach.

A série de títulos ressalta principalmente a mentalidade exemplar do Sevilla ao tratar a Liga Europa. Enquanto a Champions e os próprios campeonatos nacionais parecem cada vez mais restritas (embora o Leicester deixe uma impressão diferente), a segunda competição continental se torna uma alternativa palpável de glória. Para um clube médio da Espanha, que não fatura La Liga há 70 anos, a Liga Europa se tornou a oportunidade de provar sua força. Assim, os rojiblancos compreenderam o torneio mais do que qualquer outro adversário. E conseguiram se impor seguidamente, arrancando resultados notáveis nos últimos três anos. A virada sobre o Liverpool é só mais um exemplo, unindo suor e talento.

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Outra virtude essencial do Sevilla é a capacidade de se reinventar. Carlos Bacca e Ivan Rakitic foram os nomes mais notáveis vendidos a cada conquista. Mesmo assim, os andaluzes mantiveram sua identidade. Méritos de Unai Emery, ao saber garimpar as peças de reposição e também por se manter fiel a um estilo pautado no coletivo, que acabe não dependendo tanto de seus grandes destaques. Neste caminho, Gameiro e Banega assumiram o protagonismo na atual campanha. Pode ser que também saiam. Mas, se isso acontecer, não farão necessariamente a equipe mais fraca.

Há, inclusive, certos ares místicos neste tricampeonato do Sevilla. Membros do elenco não deixaram de creditar o feito a Antonio Puerta, bicampeão da Copa da Uefa nos tempos de Juande Ramos, que faleceu em campo durante a primeira rodada de La Liga 2007/08. “Puerta nos ajudou muito, tínhamos que ganhar esta final por ele”, afirmou Unai Emery. Honrar a memória do ex-campeão tornou-se uma missão de todos, ainda que o seu único ex-companheiro remanescente no elenco seja José Antonio Reyes. Puerta se tornou um santo para todos os rojiblancos, de jogadores a torcedores. Representa a motivação que se transforma em empenho no gramado.

Com o título do Sevilla, a Espanha se saiu campeã em todas as sete taças europeias disputadas desde 2014 – incluindo também a Supercopa. E, considerando a final espanhola da Champions, também terá mais duas conquistas garantidas nas próximas semanas. Nesta temporada, em 17 confrontos em mata-matas com equipes de outros países, os espanhóis se impuseram em 16. Além disso, desde 2013/14, a conta aponta 47 triunfos em 51 duelos. Supremacia notável que pode se explicar pelo gigantismo de Barcelona e Real Madrid, mas que se torna bem mais didática pela atitude do Sevilla. Agora, a expectativa é de que os rojiblancos possam dar também alguns passos além, como fez o Atlético de Madrid há quatro anos. Na história, de qualquer forma, eles já estão, e não é de hoje.