Há clássicos que se eternizam de imediato, assim que o apito final soa. E o 9 de fevereiro de 2020 certamente ecoará por longas décadas nas ruas de Avellaneda, em épico imortalizado pelo Racing tão logo o triunfo no Cilindro se confirmou. Em pleno dérbi, a Academia superou enormes provações para derrotar o Independiente. Os albicelestes, com duas expulsões, jogaram todo o segundo tempo com nove homens. Como se não bastasse, um de seus atletas lesionou o ombro e precisou permanecer em campo no sacrifício durante os últimos minutos. Mas as dificuldades deram mais gana aos racinguistas e, aos 41 da etapa final, Marcelo Díaz definiu o triunfo por 1 a 0. As imagens já se gravaram na memória coletiva dos torcedores.

O Cilindro parecia antever o clássico histórico prestes a se desenrolar. Com entradas esgotadas, a torcida pulsante ditava a atmosfera especial em Avellaneda. O Racing tratava de impor sua superioridade também em campo. O primeiro tempo foi repleto de chances aos anfitriões, incluindo um tirambaço de Walter Montoya que Martín Campaña desviou com a ponta dos dedos e ainda viu bater no travessão. Mas eis que, numa rara chegada perigosa do Independiente, a história da epopeia começa a se formar.

Aos 40 minutos, num contra-ataque puxado por Cecílio Domínguez, o goleiro Gabriel Arias meteu a mão na bola fora de sua área. Recebeu o vermelho direto e forçou a entrada de seu reserva, o veterano Javier García, de 33 anos. E como se não fosse suficiente, o zagueiro Leonardo Sigali também foi expulso logo aos cinco segundos da etapa complementar. O beque acertou o cotovelo na cabeça de Leandro Fernández, num lance que não teve exagero de força, mas terminou flagrado pelo árbitro como agressão. Sebastián Beccacece queimou sua segunda substituição logo depois, para recompor a equipe.

A partir desse momento, segurar o empate já parecia algo excelente ao Racing. E, com dois a mais, o Independiente teve oportunidades para vencer – ainda que não se lançasse totalmente ao ataque. O goleiro García despontou como herói, ao realizar três ótimas defesas. A cabeçada de Alan Franco, que espalmou para fora, foi um verdadeiro milagre. Além disso, o Rojo também desperdiçou outras jogadas, em especial um chute travado de Cecílio Domínguez na linha da pequena área. Já a terceira substituição albiceleste aconteceu aos 24, quando Darío Cvitanich entrou no lugar do capitão Lisandro López.

O Racing tratava o clássico como uma verdadeira batalha. Deixava tudo de si dentro de campo e vários jogadores acabaram se machucando. Cvitanich, García e Nery Domínguez tomaram pontos por cortes na cabeça. A imagem de Domínguez, aliás, se tornou emblemática. O zagueiro sofreu um ferimento no couro cabeludo e uma luxação no ombro. Voltou a campo com uma bandagem que não serviu para conter o sangue que escorria sobre o seu rosto e também com uma “tipoia improvisada” na camisa – com um furo no meio da barriga para posicionar o polegar e tentar imobilizar o braço. Era uma cena semelhante à protagonizada por José Luis Brown na final da Copa do Mundo de 1986.

O gol da vitória aconteceu num raro ataque do Racing, aos 41 do segundo tempo. Uma falta despretensiosa no meio do campo se tornou oportunidade para Cvitanich brigar pela posse na lateral da área. Com muito esforço, o veterano encontrou uma brecha e deu o passe. Leonel Miranda foi muito inteligente ao executar o corta-luz. Então, Marcelo Díaz apareceu livre na entrada da área para definir. Não era um lance tão simples, com cinco adversários tentando se colocar na frente de seu caminho às redes. O chileno, ainda assim, teve calma para bater no contrapé de Campaña e evitar também dos defensores. Mansa, a bola premiou a raça dos racinguistas. O Cilindro pulsava.

O Racing ainda tinha os acréscimos para defender sua vantagem. Todavia, o Independiente perdeu a cabeça depois do tento. Logo na retomada da partida, Cecílio Domínguez se estranhou com García na linha de fundo, agrediu o goleiro e recebeu o vermelho direto. Já no quinto minuto extra, o Rojo também ficou com nove homens, quando Lucas Romero recebeu o seu segundo amarelo. O apito final permitiu a apoteose da Academia, com uma comemoração tão aliviada quanto enlouquecida. A festa parecia a de um título. Esta vitória não valeu taça, mas rendeu um capítulo aos racinguistas que será mais recontado que algumas conquistas.

Algumas cenas se tornaram cheias de significado. O ensanguentado Nery Domínguez representa o espírito do Racing, por todo o seu esforço para seguir em campo. Marcelo Díaz, o autor do gol decisivo, havia comido uma banana no gramado pouco antes e a fruta virou meme da “energia” que os albicelestes tiveram para buscar o resultado. Já nas tribunas, o agora dirigente Diego Milito apresentou toda a sua paixão como torcedor, ao explodir na celebração do tento. Vai ter história para contar em casa, onde o irmão Gabi Milito é ídolo do Independiente. Segundo o Olé, 11 dos 14 jogadores mereceram “nota 10”, assim como Beccacece.

Protagonista na conquista do Campeonato Argentino de 2018/19, Marcelo Díaz apontou que este clássico é decisivo para eternizar o time: “A sensação é de que entramos para a história do clube. Jogamos com dois a menos durante metade da partida, mas com muita coragem, colhões e paixão. Isso fica marcado. Ganhamos porque somos uma equipe que luta até o final, nos entregamos até a morte. Corremos como animais e isso te dá os resultados. Em nenhum momento pensei que nos escaparia. Nestas horas, você trata de fazer o melhor”.

Já Beccacece, que chegou ao Racing recentemente, meses depois de uma passagem apagada pelo Independiente, falou sobre o orgulho: “Não deve haver algo igual na história recente do clube. É comovente. Tenho a imagem dos nove jogadores pressionando no ataque, era demasiado risco, mas isso fala do valor que esses futebolistas têm. Isso vai ser a história viva, será muito difícil que o torcedor apague de sua memória e de seu coração. Não dava para não jogar essa partida com a alma e os rapazes fizeram isso. Quando cada um tem esse compromisso, as expulsões acabam em segundo plano. Fico com esse jogo tatuado pelo resto da vida”.

Do lado do Independiente, a vergonha era geral. Os jogadores foram insultados pela torcida em sua chegada ao hotel, após a partida. O capitão Silvio Romero pediu desculpas na coletiva de imprensa: “Faltou criatividade. Tomamos decisões erradas e entramos em um funil. Temos que pedir perdão aos torcedores. Tínhamos tudo para ganhar e acabamos derrotados. É incrível”. Já o técnico Lucas Pusineri assumiu a culpa pelo resultado: “É um resultado que prejudica seu ânimo. Eu assumo, não saiu absolutamente nada e trataremos de melhorar”.

Com mais quatro rodadas da Superliga pela frente, o Racing não briga mais pelo título. A Academia ocupa a quinta colocação, oito pontos atrás do líder River Plate. Em compensação, as chances de se classificar à próxima Libertadores permanecessem vivíssimas, um ponto abaixo do G-4. O triunfo no clássico interrompeu uma série de cinco partidas sem vencer no campeonato, as duas últimas sob as ordens de Beccacece. Já o Independiente cumpre uma campanha bem mais modesta e aparece no 14° lugar. Está a cinco pontos da zona à Copa Sul-Americana. E se a liga pode terminar morna a ambos, a lendária façanha fica aos racinguistas.