Eduardo Coudet representa uma perda difícil de se reparar ao Racing, não apenas por aquilo que conquistou com a Academia, mas também pela identificação que criou junto ao clube nos últimos dois anos. Os racinguistas não puderam cobrir a proposta do Internacional, mas buscaram uma reposição coerente ao comando técnico, ainda que possua suas reticências. Nesta terça-feira, o clube de Avellaneda apresentou Sebastián Beccacece como seu novo treinador. O novato mantém uma filosofia parecida à de Coudet, embora necessite se provar.

Por enquanto, Beccacece possui mais grife do que currículo. O jovem treinador foi pupilo de Jorge Sampaoli por longos anos, desde a época na qual o compatriota trabalhava no Sport Boys. Aos 22 anos, Beccacece se mudou ao Peru para se tornar assistente e seguiu Sampaoli em outras tantas empreitadas. Apesar do convite para auxiliar Marcelo Bielsa na seleção chilena, o prodígio optou por se manter fiel ao mestre e também participou das conquistas com a Universidad de Chile no começo desta década. Ao lado de Sampaoli, trabalharia na seleção chilena só depois, durante a Copa de 2014 e também na conquista da Copa América em 2015.

Beccacece rompeu o cordão umbilical quando recebeu uma proposta da Universidad de Chile em dezembro de 2015, para se tornar o comandante principal. Sua primeira experiência no posto, todavia, não seria bem sucedida. Em um clube que não mantinha a mesma força no elenco e sentia o aumento de sua crise financeira, o novato não engrenou. Mesmo ganhando um voto de confiança ante a falta de resultados, Beccacece sequer terminou o ano à frente de La U. Seu time não apresentava ideias tão claras e a irregularidade se percebia na tabela do Campeonato Chileno. Além do mais, problemas de relacionamento minaram o argentino, demitido em setembro de 2016.

O recomeço de Beccacece seria positivo. Aliás, é o trabalho que sustenta sua grife atualmente. O argentino retornou ao seu país e assumiu o Defensa y Justicia, no lugar de Ariel Holan. Conseguiria manter o bom trabalho realizado pelo antecessor, com um futebol envolvente e ofensivo. A classificação contra o São Paulo na Copa Sul-Americana foi o grande resultado conquistado. Além disso, terminaria o Campeonato Argentino em alta, com uma campanha de recuperação que levou os auriverdes do 27° ao 10° lugar em 20 rodadas. Com 73% de aproveitamento, despediu-se da torcida para retomar a parceria com Jorge Sampaoli.

Beccacece aceitou a missão de auxiliar novamente o treinador na seleção argentina, além de assumir a sub-20. A dupla chegou em um momento delicado da Albiceleste e conseguiu a classificação à Copa do Mundo, mas não se deu bem na Rússia. Em meio à bagunça que marcou a campanha argentina no Mundial de 2018, Beccacece esteve no meio do furacão. Suas brigas com Sampaoli se tornaram costumeiras e, às vésperas da derrota para a Croácia, os dois discutiram diante dos jogadores, em ocasião na qual Javier Mascherano precisou intervir para que não saíssem no braço. O auxiliar pensou em renunciar, mas seguiu a pedido dos dirigentes, pelo trânsito que possuía com parte dos atletas. No final, não evitou a derrocada.

Fora da seleção, Beccacece veria as portas do Defensa y Justicia abertas mais uma vez. E recuperou o seu moral no clube durante o Campeonato Argentino 2018/19. Os auriverdes representaram justamente a maior ameaça ao Racing, terminando com a segunda colocação na Superliga, um feito histórico à pequena agremiação. Não era uma equipe de marcar muitos gols, mas sabia trabalhar bem a posse de bola e mantinha o seu equilíbrio. A surpresa seguiu no páreo até o fim da campanha e ficou a quatro pontos dos campeões. O feito reabriu portas ao antigo assistente de Sampaoli, após a tempestade no Mundial de 2018.

Depois disso, Beccacece novamente tornou-se substituto de Ariel Holán. Chegou ao Independiente em junho de 2019, com contrato de uma temporada. Desta vez, esteve distante de manter a toada do antecessor. O time oscilava no Campeonato Argentino e em nenhum momento parecia justificar seu potencial. Uma sequência de três derrotas em outubro, que deixaram o Rojo no 14° lugar da Superliga e também custaram a eliminação nas quartas de final da Copa Argentina, encerraram a passagem do técnico pelo Estádio Libertadores de América.

A fama de Beccacece ainda o manteve especulado em clubes brasileiros, até que pulasse o muro em Avellaneda dois meses depois. O acerto com o Racing possui o seu sentido, ainda que as desconfianças sejam naturais. O treinador já demonstrou sua aptidão na montagem tática de equipes, diante de tudo o que absorveu e compartilhou com Sampaoli. Entretanto, possui suas dificuldades no trato com as pessoas e ainda não realizou um trabalho que seja mais “autoral”, sem ser visto como continuidade a outro técnico. A experiência na Academia pode ser um divisor de águas, tanto para afirmar o argentino, quanto para reduzir sua badalação.

Curioso é que a própria chegada de Beccacece guardou seu primeiro tumulto. O treinador deveria conceder sua primeira coletiva nesta segunda. Contudo, poucas horas antes da realização da entrevista, o evento precisou ser cancelado por pendências contratuais. O mesmo havia ocorrido em sua chegada ao Independiente. Nesta terça, enfim, com tudo assinado, o novo comandante pôde se apresentar. Prometeu deixar “coração e alma” e não quis polemizar por trocar rivais. Mais importante que suas palavras serão os resultados. A quatro pontos da liderança no Campeonato Argentino e presente na fase de grupos da Libertadores, o Racing possui time para sonhar com mais títulos.

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Sobre a história em comum de Beccacece nos rivais de Avellaneda, vale conferir também o especial dos amigos do Futebol Portenho, que relembra os treinadores que passaram por Independiente e Racing.