Marcelo Gallardo coleciona resultados históricos ao longo dos cinco anos que comanda o River Plate. Ainda assim, impressiona a capacidade do treinador ir além e estabelecer outras marcas memoráveis. Neste sábado, afinal, os millonarios conquistaram uma das vitórias mais emblemáticas sob as ordens do veterano. Dentro do Cilindro de Avellaneda, o Racing contava com o apoio de sua pulsante torcida e abriu o placar. O que se desenhava como uma vitória notável do atual campeão argentino, entretanto, terminou como um massacre do River. Os visitantes conquistaram não apenas uma “virada-relâmpago”, como também surraram os albicelestes. A goleada por 6 a 1 é a maior já aplicada pelo técnico no Campeonato Argentino.

O Racing precisou de apenas três minutos para sair em vantagem no Cilindro, com um belo gol. A jogada começou na lateral, onde Alexis Soto brigou pela bola e descolou um passe de trivela. Lisandro López fez o corta-luz e Augusto Solari disparou para balançar as redes. Mas, antes do intervalo, o River Plate arrancou a virada de maneira contundente. Anotou três gols entre os 35 e os 38 minutos, aproveitando a postura ofensiva dos racinguistas em campo. Rafael Santos Borré garantiu o empate, após ser lançado em profundidade por Exequiel Palacios, e também a virada, em jogada que nasceu a partir de outra enfiada de Palacios, antes de Matías Suárez ajeitar. Já no terceiro, Nicolás de la Cruz presenteou Suárez, que não perdoou.

Baqueado, o Racing viu a situação piorar no início do segundo tempo. Leonardo Sigali deu um carrinho fortíssimo e foi expulso aos quatro minutos. Com um jogador a mais, o River alargou o placar. O quarto veio aos 19, em cobrança de pênalti convertida por Nacho Fernández. Lucas Pratto, que saíra do banco, deu um bom passe para De la Cruz anotar o quinto aos 23. E a pá de cal aconteceu já aos 26, numa cabeçada de Ignacio Scocco, que aproveitou o bom cruzamento de De la Cruz. Que os racinguistas tenham se exposto demais na defesa, isso não tira os méritos dos millonarios por sua verticalidade e por sua precisão.

O clássico ainda deixou evidente o respeito que permaneceu entre River Plate e Racing. Os vencedores não usaram a goleada para humilhar os derrotados com jogadas desnecessárias. No máximo, reduziram o ritmo nos minutos finais, depois de uma atuação tão intensa. Gallardo também elogiou o profissionalismo dos racinguistas, que não perderam a mão com a derrota para abusar da violência. O próprio Sigali pediu desculpas após sua expulsão, enquanto a torcida preferiu apoiar o time.

“A ideia era empurrar a pressão do Racing para trás. Para encontrar os espaços e os gols, foi fundamental jogar a bola sempre para frente, não para os lados ou recuar. Assim, pudemos neutralizar a pressão que o Racing iria exercer”, analisou Gallardo, na saída de campo. Contra um rival igualmente ofensivo, a estratégia foi perfeita.

O chocolate revela outros números imponentes do River Plate de Gallardo. Os millonarios não sabem o que é perder um clássico há 14 jogos. Desde novembro de 2017, o clube não é derrotado em confrontos diretos contra os “quatro grandes” do futebol argentino. O último revés aconteceu diante do Independiente de Ariel Holán, que celebrou o triunfo por 1 a 0. Desde então, foram dez vitórias millonarias e quatro empates, que incluem a conquista da Copa Libertadores em cima do Boca Juniors. Uma marca respeitável, que ressalta como Gallardo sabe preparar a sua equipe para jogos grandes. É o que se nota também em mata-matas.

Especificamente contra o Racing, a vitória deste sábado ampliou a freguesia. É a maior goleada do River Plate contra La Academia em competições oficiais, dando o troco aos 6 a 1 que os albicelestes aplicaram em 1942. Além disso, os millonarios possuem 50 vitórias a mais que os racinguistas no confronto direto, em contagem desde o início do profissionalismo. São 91 triunfos do River, contra 41 do Racing. Entre os principais clássicos do futebol argentino, esta é a maior “paternidade” existente.

O resultado motiva o River Plate em uma semana importante. Após chegar aos sete pontos no Campeonato Argentino, ocupando a vice-liderança após três rodadas, o time agora se volta à Libertadores. O primeiro confronto com o Cerro Porteño pelas quartas de final acontece nesta quinta-feira, no Monumental de Núñez. Não há dúvidas sobre o favoritismo dos millonarios, especialmente diante da oportunidade de realizar outra semifinal contra o Boca Juniors. E, pela maneira como Gallardo vem dominando os clássicos, há motivos para os xeneizes se precaverem antes de uma possível revanche. Depois de um primeiro semestre relativamente morno, o River parece crescer outra vez no momento certo.