O que se sabe sobre a proposta de Liverpool e Manchester United para uma Superliga Europeia apoiada pela Fifa

Liverpool e Manchester United trabalharam em cooperação para o Project Big Picture nos últimos meses, uma ideia que trazia transformações importantes à Premier League, mas também concentrava o poder em poucas mãos. Bastou que as informações vazassem para que o castelo de cartas ruísse e a maioria dos clubes da elite inglesa rechaçasse o projeto. Mas não é por isso que as gestões americanas de ambos os gigantes se contentarão com a derrota. Nesta terça, a Sky Sports divulgou informações de outra iniciativa em conjunto de Reds e Red Devils. Querem o apoio da Fifa para a criação de uma Superliga Europeia, passando por cima da Premier League e da Uefa para isso.

Segundo a Sky Sports, diferentes clubes europeus discutem a iniciativa, liderada pela dupla do norte da Inglaterra e pelo Real Madrid. O novo projeto internacional teria um pacote de US$6 bilhões ao seu financiamento inicial, com a primeira edição projetada a 2022. O banco JP Morgan aparece como principal investidor neste primeiro ato. Ao mesmo tempo, a Fifa estaria envolvida no desenvolvimento da chamada ‘Premier League Europeia’. As conversas acontecem há mais de um ano, embora aceleradas pela pandemia.

Até 18 times integrariam a competição, saídos das cinco principais ligas da Europa – Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália. O torneio seria disputado em pontos corridos, com um mata-mata para definir o campeão ao final. Liverpool e Manchester United dão um passo à frente na Inglaterra, mas os outros componentes do ‘Big Six’ (Arsenal, Chelsea, Manchester City e Tottenham) também receberam contatos. Nos outros países, foram citados Atlético de Madrid, Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Juventus e Paris Saint-Germain.

Uma questão central à Premier League Europeia são as datas. O torneio deve acontecer durante a temporada europeia, tratado como prato principal aos grandes clubes. Assim, deverá ocorrer um conflito de calendário com as competições nacionais e também com a Champions League, embora os clubes não pretendam se apartar das ligas domésticas. De qualquer maneira, o racha e o redirecionamento das finanças é inescapável se a ideia sair do papel. A Fifa, como uma entidade interessada em lucros, e não no desenvolvimento do futebol mundial, parece pronta a dar sua chancela e se aproveitar da oportunidade. Tal competição afeta até mesmo os planos do novo Mundial de Clubes, mas se sugere mais rentável à federação internacional.

Conforme a Sky Sports, o anúncio dos planos devem acontecer até o fim de outubro. Os próximos dias serão decisivos para definir detalhes e apontar os clubes interessados. Em entrevista ao veículo britânico, um porta-voz da Fifa declarou: “A Fifa prefere não comentar e não participar de qualquer especulação sobre assuntos que vêm à tona com frequência e, pelos quais, as estruturas institucionais e marcos regulatórios estão bem implementados nos níveis nacional, europeu e global”.

Quem parece não ter compreendido a ameaça é a Uefa. Um porta-voz da entidade europeia, entre tantos problemas que a Superliga pode causar, preferiu acusá-la de ‘enfadonha’: “O presidente da Uefa deixou claro em várias ocasiões que a Uefa se opõe fortemente à Superliga. Os princípios de solidariedade, de promoção e de ligas abertas não é negociável. É isso que faz o futebol funcionar e a Champions League ser a melhor competição do mundo. A Uefa e os clubes estão empenhados em desenvolver essa força, não para destruir. Criar uma Superliga de 10, 12 ou mesmo 24 clubes seria inevitavelmente entediante”.

A criação da Premier League Europeia, entretanto, pode se transformar em uma guerra jurídica com a Uefa. A Champions possui contratos vigentes até a temporada 2023/24, o que atravanca negócios paralelos dos clubes europeus neste período. No momento, a tentativa da confederação europeia é convencer as potências de que as mudanças previstas na Champions poderão atrair mais receitas e proporcionar mais confrontos diretos. Ainda assim, não devem tanto dinheiro quanto uma Superliga.

Além da Champions, a Premier League Europeia seria um golpe dentro do próprio Projeto Big Picture, considerando a reação negativa que a iniciativa gerou na Inglaterra. Por mais que a Football League ainda apontasse a abertura ao plano de apoio, os demais clubes da Premier League se sentiram prejudicados pela maneira como perderiam poder de decisão ao Big Six e barraram a proposta. As críticas se concentraram também pela maneira como tudo foi feito na surdina, sem a participação dos demais atores do futebol inglês. Que houvesse boa vontade com parte dos pontos levantados, não seria isso que referendaria a ação de Liverpool e United.

Agora, os dois clubes aceleram as conversas e dão passos à frente, passando por cima da Premier League. O projeto de uma Superliga Europeia sempre esteve na pauta e isso se reforçou nos últimos anos, com ações esparsas e quase sempre rechaçadas. Neste momento, as potências parecem querer se aproveitar do momento de crise e de relações fragilizadas para atender seus próprios interesses, ignorando a maneira como o resto da indústria do futebol também atravessa dificuldades até mais graves.

A não ser que a Fifa adote uma postura regulatória e estabeleça mecanismos de solidariedade, o que parece difícil diante das cartas nas mãos dos clubes, a concentração das receitas se tornará maior com a Superliga. Num momento em que a maioria pede uma fatia maior do bolo para se recuperar, os grandes clubes pretendem levar o bolo inteiro para casa. Há um conflito até mesmo com políticos no Reino Unido, que pressionam por uma divisão maior das receitas para diminuir os impactos da crise nas divisões inferiores. Os dirigentes das potências, por outro lado, reclamam que são cobrados de maneira diferente ao que se aplica a outros setores da economia. Parecem não compreender os aspectos culturais que abarcam o esporte. O impacto comunitário e identitário de uma falência no futebol, além do desemprego, é muito maior.

Segundo a Sky Sports, para atrair os participantes, a Premier League Europeia oferecerá uma taxa de adesão de centenas de milhões de dólares para cada equipe que fechar contrato com a competição – o que já poderia representar uma parcela gorda das receitas anuais de cada um deles, estancando os efeitos da crise. Será este o dinheiro liberado pelo JP Morgan em forma de empréstimo. A partir de então, o banco recuperaria o seu investimento inicial através dos acordos televisivos ao novo torneio, estimados na casa dos bilhões.

Ainda não está claro se a Premier League Europeia teria apenas participantes fixos ou se admitiria novas equipes que se destacassem em ligas nacionais paralelas – como era outro projeto alinhado há alguns anos, conforme revelado pela revista alemã Der Spiegel. Segundo a Sky Sports, a nova competição deverá aproveitar parte deste regulamento antigo, mas seu formato ainda não está definido. Por todos os movimentos, a criação de uma Superliga não deve tardar, mesmo que absorvida pela Champions. O ponto é como as potências tem agido para isso, ignorando a maneira como a estrutura do futebol pode desabar com planos tão ensimesmados.