O que sabemos sobre a acusação de estupro contra Cristiano Ronaldo

O atacante Cristiano Ronaldo está sendo acusado de estupro por uma mulher americana, Kathryn Mayorga, por um caso ocorrido em Las Vegas, em junho de 2009. A denúncia não é nova, foi feita à polícia americana já naquele mesmo ano. O que é novo é a revelação do nome daquele que é um dos maiores nomes do futebol mundial. Um caso de jornalismo investigativo que colocou luz em um evento que estava destinado às sombras. A revista Der Spiegel, da Alemanha, levantou dados por quase dois anos até conseguir os documentos que revelaram o ocorrido.

A pesquisa da revista foi detalhada e passou por diversos processos, como contou o editor da revista no Twitter, Christoph Winterbach. Além de um processo longo de apuração dos fatos, a revista também teve que entender por que Mayorga não queria falar e, algum tempo depois, decidiu abrir o jogo sobre o caso, nove anos depois do acontecido. Depois de encontrar centenas de documentos de diferentes fontes, de e-mails a relatórios médicos e da polícia, a revista conseguiu montar o quebra-cabeça.

Em 2009, Mayorga acusou Cristiano Ronaldo de estupro. Ela disse que tinha medo de revelar à polícia o nome do jogador de futebol e levar o caso ao tribunal, porque temia o assédio que sofreria dos fãs do português, um astro mundial. De um lado, uma modelo em ascensão, de 25 anos, desconhecida. De outro, um astro mundial, que cerca de duas semanas depois seria apresentado como a contratação mais cara do futebol até então saindo do Manchester United e indo para o Real Madrid por € 94 milhões. O tempo mostraria que ela tinha razões para se preocupar.

Com medo do que poderia acontecer se levasse a acusação às últimas consequências em um tribunal, Mayorga assinou um acordo de confidencialidade, no valor de US$ 375 mil (€ 260 mil). Isso significava, na época, o salário que ele recebia por semana no Real Madrid, depois da transferência. O acordo proibia Mayorga de falar sobre o assunto e desistir de qualquer acusação contra Ronaldo. Proibia inclusive que o nome do jogador fosse citado em terapia. Além disso, ela seria obrigada a mostrar provas que destruiu e apagou todos os materiais gerados ou recebidos como resultado desse incidente.

A primeira reportagem saiu em 19 de abril de 2017. Antes da publicação, a Spiegel tentou falar com Cristiano Ronaldo várias vezes. A sua equipe de advogados sempre se recusou a falar sobre o assunto, negando todas as acusações. Ao serem indagados sobre a reportagem que seria publicada, a agência de Ronaldo, Gestifute, disse que “o artigo é nada além de uma peça de ficção jornalística”. Além disso, a empresa divulgou um comunicado dizendo que a reportagem se baseava em documentos que não estavam assinados e que as partes não estavam identificadas, algo que a Spiegel consegue provar que não é verdade. Como Mayorga previu, os comentários da matéria a atacaram. “Como se Cristiano Ronaldo precisasse estuprar alguém”, dizia um comentário.

A Gestifute ameaçou a Spiegel de processo, caso a reportagem fosse publicada. Ela foi. Os documentos, alega a revista, eram sólidos e provavam o que a reportagem mostrava. A existência dos documentos, segundo a revista, pode explicar porque, um ano e meio depois da publicação da primeira reportagem sobre o assunto, sem os depoimentos de Mayorga, Cristiano Ronaldo e seus representantes jamais entraram com processo contra a revista. O que a Gestifute fez foi desacreditar a vítima, dizendo que ela “se recusava a se apresentar e confirmar a veracidade da acusação”. Claro que ela não falaria nada a respeito: o acordo assinado por ela era justamente esse. Se ela falasse, ela teria que pagar o valor recebido de volta e, além disso, pagar uma indenização a ele, possivelmente.

Uma cláusula que foi pedida por Mayorga para fechar o acordo foi que uma carta escrita por ela fosse lida para Cristiano Ronaldo em um período de até duas semanas. A Der Spiegel conta que são seis páginas em que ela desabafa para o português. Entre os trechos:

“Eu gritei NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃÃÃÃO várias e várias vezes e eu implorei para você parar”, diz ela.

“Você pulou em mim por trás, com um rosário branco no seu pescoço!!! O que Deus pensaria disso!!! O que Deus pensaria de você!!!”

“Eu espero que você perceba o que você fez e aprenda com esse erro terrível!!! Não tire a vida de outra mulher como você tirou a minha!!!”

“Eu não me importo com a seu dinheiro, isso era a última coisa que eu queria!!! Eu queria justiça! E realmente não há justiça nesse caso”.

Em e-mails conseguidos pela revista, pelo Football Leaks, mostra Osório, advogado de Ronaldo, sendo perguntado sobre já ter lido a carta para Ronaldo, uma vez que o prazo de duas semanas estabelecido em contrato estava se encerrando. Ele responde confirmando que a carta foi lida. Um outro advogado responde a ele: “Pinóquio”.

No comunicado divulgado pela Gestifute, refutando inicialmente as acusações de Mayorga e o relato na Der Spiegel, a empresa afirma que Cristiano Ronaldo não recebeu qualquer carta de Mayorga citada pela reportagem. Depois, porém, foi revelado que isso era parte do acordo. Não ter recebido a carta, como alegado no comunicado pela Gestifute, significaria uma quebra de contrato por parte de Cristiano Ronaldo e de seus advogados. Uma infração do contrato confirmada via comunicado oficial.

O documento perigoso

Um dos pontos mais importantes do caso foi revelado pelo Football Leaks. As trocas de e-mails entre os advogados de Ronaldo falavam sobre a melhor estratégia a se seguir no caso, em julho de 2009. Uma lista com centenas de perguntas foi mandada a Ronaldo, seu cunhado e seu primo, todos presentes no dia que Mayorga alega ter sido estuprada pelo jogador. No documento, Ronaldo é “X” e Kathryn Mayorga é referida como “Ms. C”. As perguntas, diz a revista, são praticamente as mesmas, mas as respostas não. Em dezembro de 2009, Ronaldo diz que o sexo foi consensual e que não houve qualquer indicação que ela não estava bem durante o sexo ou que não parecesse estar bem depois.

O problema é que há uma versão anterior. Um documento que, este sim, pode complicar bastante as coisas para Ronaldo. As respostas do jogador em setembro de 2009, por e-mail, indicam outro cenário. O remetente foi um advogado do escritório de Osório de Castro, advogado português de Ronaldo. Os destinatários eram o próprio Osório de Castro e mais um colega. Em resposta a uma pergunta se a Ms. C levantou a voz alguma vez, gritou ou chamou alguém, X respondeu, de acordo com o documento, o seguinte: “Ela disse ‘não’ e ‘pare’ várias vezes”.

As coisas ficam piores. No documento, X alega que ela estava deitada do lado dele. “Eu a penetrei por trás. Foi rude. Nós não mudamos a posição. Durou de cinco a sete minutos. Ela disse que ela não queria, mas ela se fez disponível”. E continua: “Mas ela continuou dizendo ‘não’. ‘Não faça isso’. ‘Eu não sou como outras’. Eu pedi desculpas depois”. Ele ainda descreve no documento que ela nunca gritou e nem chamou por ninguém.

O documento segue com outra pergunta: “A Ms. C disse algo depois sobre o sexo ser bruto?”. X: “Ela não reclamou sobre ter sido bruto. Ela reclamou que eu a forcei. Ela não disse nada sobre querer ir para a polícia”. Nas respostas para a lista de perguntas feitas, Ronaldo confirma a versão de Mayorga que ela disse “não” várias vezes e pediu desculpas depois. Esse é a parte da história que os dois contam da mesma forma. Em outros pontos, as histórias se contradizem. Ele, por exemplo, alega que eles tiveram preliminares em que ela usa a mão nos genitais dele, enquanto ela diz que isso nunca aconteceu, por exemplo. As histórias são ligeiramente diferentes também de como se deu a aproximação e o convite para que ela fosse para o quarto onde o estupro alegado aconteceu.

A equipe de advogados de Ronaldo contratou investigadores particulares para levantarem tudo que pudessem sobre a vida de Kathryn Mayorga para usar contra ela. Queriam provar que ela não tinha sofrido nenhum trauma emocional, que continuava saindo, se divertindo e que queria chantageá-lo. Apesar do esforço de meses, o investigador não conseguiu nenhum material que os advogados considerassem suficiente. A própria Mayorga disse à revista que percebeu estar sendo seguida e, mais do que isso, que o investigador nem parecia muito querer disfarçar.

O acordo foi feito em janeiro de 2010, depois de um longo e difícil processo para Mayorga. Foram cerca de 12 horas de negociações, com um mediador indo de uma sala, onde estava Mayorga com seu advogado, para outra sala, onde estavam os advogados de Ronaldo – ele não compareceu. Mensagens de texto que a revista teve acesso mostram o advogado de Ronaldo, Osório, falando com ele sobre como estava a negociação. Aquela rodada de negociações, desgastante para Mayorga, acabou no acordo de US$ 375 mil (€ 260 mil), a proibição de falar sobre o caso e citar o nome dele até durante sessões de terapia e o pedido dela que a carta que ela escreveu fosse lida para o jogador.

Por que ela decidiu falar sobre o assunto agora?

A reportagem da Der Spiegel traz três motivos fundamentais para a mudança de posição de Kathryn Mayorga, depois de nove anos do acontecido. Primeiro de tudo, a mudança de advogado. O advogado que atendeu Mayorga em 2009 não tinha qualquer experiência nesse tipo de caso. Sua especialidade eram violações de trânsito. Enquanto isso, do outro lado havia advogados especializados em lidar com pessoas de Hollywood. O novo advogado de Mayorga é experiente com esse tipo de caso. Ele acredita que o acordo de não divulgação não é juridicamente válido e entrou com uma queixa civil contra Ronaldo, em nome de Kathryn Mayorga.

A segunda razão é que o mundo mudou desde aquele dia 12 de junho de 2009 para mulheres que são vítimas de crimes sexuais. Há um ano, acusações contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein vieram a público. As acusações eram que ele passou décadas assediando e molestando e mesmo estuprando mulheres. Weinstein nega as acusações. O escândalo teve um efeito dominó.

A atriz Alyssa Milano encorajou outras mulheres que sofreram assédio sexual a virem a púbico com a hashtag na internet #MeToo. Milhares de pessoas fizeram isso, o que mudou completamente a forma como esse tipo de assédio é encarado. Com isso, o tradicional processo de minimizar os incidentes, especialmente quando o acusado é rico, famoso e poderoso, se tornou mais complicado. As vítimas passaram a ter mais coragem, com tantos depoimentos vindo à tona. Mayorga foi uma delas. Ela conta que passou horas em frente ao computador lendo relatos de outras mulheres.

Por fim, a terceira razão que a faz querer falar sobre o assunto é descobrir se há outras mulheres que dizem que foram assediadas sexualmente por Ronaldo. “É algo que eu sempre me perguntei”, disse ela à Der Spiegel.

Atualmente com 34 anos, Mayorga contou à revista que largou o seu emprego como modelo depois do caso de assédio sexual, porque não conseguia ficar nos mesmos ambientes onde tudo tinha acontecido e não ser atormentada pelas lembranças. Contou que assinou o acordo na época porque queria tirar isso da frente dela e não ser mais incomodada. Afinal, quem é vítima de estupro passa pelo constrangimento de contar e recontar a histórias muitas vezes, além de exames no hospital e depoimentos na polícia, como ela fez na época.

“A razão que eu assinei o contrato em primeiro lugar foi porque eu não queria que meu nome aparecesse”, ela conta à revista. “Eu queria ensinar uma lição a ele. Eu queria que ele tivesse que lidar com isso, ter que me encarar”, diz ainda Mayorga, que alega que não queria ganhar dinheiro com o caso, mas queria que ele pagasse o tratamento dela. “Eu não vou pagar pelo meu maldito tratamento. Ele me estuprou. Ele irá pagar pelo meu maldito tratamento”.

Depois de primeiros anos muito ruins, Mayorga conseguiu voltar a se sentir feliz depois de cinco anos do incidente. Passou a trabalhar como educadora física em uma escola, com crianças, algo que ela diz que foi terapêutico para ela. O contato com as crianças a ajudou a se sentir melhor e lidar melhor com essa situação. Antes da entrada do processo contra Cristiano Ronaldo desta vez, ela decidiu pedir demissão e está em um local não revelado, fugindo do assédio que esse caso vai causar. A revista relata que atualmente ela está inalcançável, que o contato é feito apenas com o advogado. Fazer uma entrevista como a Der Spiegel conseguiu, em Las Vegas, meses antes, é algo muito mais complicado atualmente, se é que é possível. Ela sabe que o efeito que terá que enfrentar será grande.

Conspiração criminosa para obstrução da Justiça

O novo advogado de Mayorga é Leslie Mark Stovall, de 65 anos, com muito mais experiência nesse tipo de caso. “O nosso pedido visa anular o acordo de não divulgação e declará-lo inválido”, contou o advogado à Der Spiegel. “Kathryn não era competente para assinar o acordo por causa do dano psicológico que sofreu com a agressão sexual. E isso torna o acordo inválido”, alega ainda Stovall.

“Eles desenvolveram uma estratégia para explorar o seu estado emocional”, diz ainda o advogado, que não diz isso à toa: trocas de e-mails entre os advogados de Ronaldo citam o estado psicológica de Mayorga na elaboração das estratégias. Em abril deste ano, Mayorga foi examinada por um psiquiatra forense, a pedido do advogado dela. Foi diagnosticado que ela sofre de estresse pós-traumático e depressão como resultado direto e exclusivo da agressão sexual sofrida por ela.

O advogado de Mayorga ainda traz um outro motivo para considerar o acordo inválido juridicamente. “Na minha opinião, esses documentos são prova de uma conspiração criminosa para esconder e obstruir a acusação de agressão sexual”, afirma Stovall. “É absolutamente legal se defender. É absolutamente apropriado para uma pessoa que cometeu um crime contratar investigadores e advogados para encontrar o melhor que eles puderem para defender o indivíduo. Mas há uma linha. E a linha é: esses indivíduos não podem obstruir a justiça. Eles não podem obstruir o processo de investigar um crime e o julgamento de um crime. Quando você passa da defesa de um criminoso para obstrução, ocultando atividades criminosas em benefício do seu cliente, isso em si mesmo é um crime. E foi isso que ocorreu neste caso, na minha opinião”, alega ainda o advogado à Der Spiegel.

O caso parece estar longe de um fim. Mas é preciso que haja esclarecimento sobre tudo isso que aconteceu, sobre as alegações da vítima. Ser um jogador de futebol, rico, poderoso e com recursos muito maiores, não pode dar a essas pessoas o direito de fazerem o que elas quiserem, inclusive rompendo as leis. Por isso, é preciso que haja investigação e julgamento justo. Esse tipo de caso cria um problema enorme para as vítimas. São alegações muito sérias e precisam ser apuradas com rigor.

Cristiano Ronaldo respondeu no Instagram dizendo que é tudo “Fake News”, que eles querem ficar famosos dizendo o seu nome. Que isso é parte do seu jogo. Os advogados de Ronaldo afirmam que a reportagem é descaradamente ilegal. Só que dizer isso é pouco. É preciso que esse caso seja lidado nas esferas realmente competentes em relação a isso. Dizer que é fake news parece uma estratégia bastante recorrente atualmente, mas diante de provas tão contundentes, será preciso que Ronaldo e seus advogados se apresentem diante da justiça para esclarecer tudo isso.

Leia a reportagem completa na Der Spiegel (em inglês).