É impressionante a maneira como o futebol influencia o comportamento coletivo do brasileiro. Algo que pode ser explicado pelos longos períodos antidemocráticos que o país atravessou. Enquanto o Brasil tentava construir a sua identidade, os únicos grandes eventos que reuniam as massas eram os jogos de futebol. Diante da repressão que acontecia durante Ditadura Militar, manifestar o patriotismo muitas vezes era visto como simpatia à situação política nacional, exceto quando a Seleção estava envolvida – ainda que ela também tenha sido instrumento do regime.

Essa relação entre as massas e o futebol já tinha ficado visível na onda de manifestações de 2013. Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas, transformando muitos cânticos de torcidas em palavras de ordem. A voz dos protestos era o grito dos estádios adaptados às mais diversas pautas. De certa maneira, a sombra do futebol se repetiu no ato político registrado em algumas cidades do país neste domingo, o chamado “panelaço”.

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Afinal, o “chupa” da janela do apartamento se tornou tão tradicional em alguns bairros quanto os food trucks ou as paleterias mexicanas. Um fenômeno relativamente recente, já que o delay das televisões digitais parece ter transformado o grito de gol como mera provocação ao rival. No fim das contas, nada mais é do que um sentimento extravasado que ecoa entre os blocos de concreto. Mas sem nenhum efeito prático. O ódio pelo ódio.

Um vazio que se repetiu no ato deste domingo. Obviamente, não dá para desprezar a amplitude ou a espontaneidade do panelaço. Representa a insatisfação de muita gente contra o governo de Dilma Rousseff – algo que não pode ser limitado apenas aos eleitores de Aécio Neves, já que muitas das medidas que a presidente tomou neste início de ano desagradaram mesmo quem votou nela. Mas, independentemente da relevância simbólica, o peso político da ação coletiva é nulo. Os revoltados soltaram a raiva pela garganta, guardaram as panelas no armário e logo foram jantar a religiosa pizza dominical. Outra vez, o ódio pelo ódio.

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Se o futebol viu se multiplicarem nos últimos anos os torcedores de sofá (por inúmeros motivos, diga-se, não apenas por decisão própria), no domingo eclodiu o eleitor de sofá. Do conforto de seus estofados, reclamam do time, mas não colocam suas bundas no frio concreto da arquibancada ou os pés no asfalto para realmente influenciar o jogo – político ou esportivo.

O primeiro passo para mostrar a capacidade desse movimento de mudar a partida é evitar generalizações. O panelaço talvez não tenha sido exclusividade da classe média e alta – os relatos dos jornais se concentram apenas nos bairros mais nobres, sem informar qual foi a reação nas periferias – e muita gente que participou do protesto certamente tem sua consciência política. Qualquer dicotomia (achar que um lado é completamente bom e, o outro, completamente ruim) é burra, como aquela própria que divide a política brasileira neste momento. Mas é preciso mais uma vez frisar: o ato tem o seu eco, ainda que não mude o jogo.

Da mesma forma como o brasileiro nem sempre sabe torcer (o que se discutiu tanto na Copa do Mundo, por exemplo), muitas vezes também deixa a desejar na hora de fazer política. O silêncio que retrai o time dentro de campo tem o mesmo valor negativo da gritaria que não permite a reforma política necessária. Falta organização, informação e, sobretudo, clareza de ideias. Mais do que reclamar, é preciso se fazer ouvir. O que o outro lado não faz quando o único que sai da boca são xingamentos.

As manifestações de 2013 podem ter se perdido entre black blocks e gritos vazios contra a corrupção. Mas enquanto tiveram pauta bastante definida, o aumento nas tarifas de ônibus, elas conquistaram resultados. O mesmo vale para este momento. Mais do que xingar a presidente com os palavrões pesados (e misóginos, uma imbecilidade ainda mais evidente por causa do Dia Internacional da Mulher), é preciso ter propostas. Conhecer o processo político, informar-se o máximo possível e utilizar os mecanismos já existentes de participação popular – a maioria deles, desconhecidos pela grande massa. É preciso fazer, sim. Mas saber como fazer e o que fazer. Agir é essencial, mas pensar na ação é muito mais importante.

Neste momento, quem ganha por 7 a 1 são PT, PMDB, PSDB e todos os partidos que se beneficiam da histeria inútil. A reforma política é urgente. Mas o eleitor não pode ser como o torcedor que se acomoda do sofá e se contenta apenas em mandar o “chupa” para o rival da janela. O tal 12º jogador só existe quando as arquibancadas estão cheias, e sabendo como agir. Da mesma forma, o povo se torna um poder, e bem maior que os três poderes formais, quando toma as ruas e se organiza para gritar algo que realmente abale o sistema. Assim é possível mudar o jogo de verdade.