Os dois tiveram suas dificuldades e sofrimentos nas semifinais, mas venceram. E, assim, o duelo que se projetava desde a final da Libertadores finalmente tornou-se real. Neste sábado, em Doha, no Catar, Flamengo e Liverpool disputarão o título do Mundial de Clubes. O clube carioca tem uma chance, mas, diferente de confrontos anteriores em que brasileiros conseguiram derrotar os europeus, é mais pelas suas próprias qualidades do que pela fragilidade do adversário.

O título europeu do Liverpool não foi um acaso, como o do mesmo clube em 2005, derrotado pelo São Paulo, ou do Chelsea, em 2012, de cujo duelo o Corinthians saiu campeão. E o Barcelona que perdeu para o Internacional em 2006 estava desfalcado e entrando em decadência, simbolizada na figura de Ronaldinho. Nada que diminua as conquistas dos brasileiros, mas o desafio poderia ter sido muito mais difícil.

A situação atual do Liverpool é diferente. É um clube em ascensão, que chegou às últimas duas finais da Champions e lidera o Campeonato Inglês com folgas. Tem inúmeras qualidades, perdeu apenas dois jogos com seu time principal oficiais desde janeiro e ainda tem potencial para ser explorado. Como qualquer time, possui também alguns defeitos, e são esses dois lados da moeda que exploraremos no texto a seguir. O que de bom e de ruim o Flamengo pode esperar do campeão europeu.

Lembrando que especialmente os pontos positivos valem se o Liverpool levar o jogo a sério, nem tanto na escalação, que pode ter os desfalques de Van Dijk, doente, e Wijnaldum, machucado, ou até Salah, poupado, mas principalmente na postura e na intensidade, dois aspectos em que os ingleses não foram bem na semifinal contra o Monterrey.

– Pressão insana

Tudo no Liverpool começa pela pressão a quem carrega a bola. O Gegenpressing, ou contrapressão, batizou o estilo de jogo de Jürgen Klopp. Não se trata apenas de correr atrás da pelota, mas de um movimento coordenado para encurralar o adversário e recuperar a posse o mais perto possível do outro gol. É comum na Europa, mas poucos fazem melhor do que o Liverpool – quando está afim, não como na semifinal contra o Monterrey. É um esforço que começa desde os atacantes, por isso Roberto Firmino é tão essencial, e depende de todo o time estar em sintonia. No Brasil, não existem muitos que conseguem exercer uma pressão contínua e organizada, mas, quando o Flamengo enfrentou a do River Plate na final da Libertadores, sofreu.

– Muito cuidado com os laterais

Trent Alexander-Arnold, do Liverpool (Foto: Getty Images)

O Liverpool atua com dois jogadores de lado de campo que adoram fazer o movimento diagonal e entrar na área. Encostam no zagueiro ou aproveitam o espaço gerado pela movimentação de Firmino e puxam os laterais. Isso abre o corredor para que Andrew Robertson e Trent Alexander-Arnold tenham muita influência no campo de ataque. E eles sabem o que fazer. Arnold deu 16 assistências na temporada passada e já tem oito na atual. Basta olhar a vitória contra o Monterrey: um passe rasteiro e consciente do lateral direito resolveu o jogo para o Liverpool. Robertson não fica muito atrás. Teve 13 e está com cinco. A principal fonte de passes para gol do Liverpool são os laterais. Eles não podem ficar livres. Bruno Henrique e Everton Ribeiro terão que acompanhá-los o tempo inteiro.

– Encaixe ruim no meio-campo

Henderson controla a bola na lateral do gramado (Foto: Getty Images)

Caso Klopp seja sensato o bastante para não escalar Lallana entre os titulares novamente, o Liverpool deve jogar com uma formação de meio campo com jogadores fortes que sabem e conseguem se impor fisicamente, ganhando bolas pelo alto, ocupando espaços ou quebrando os contra-ataques. É assim que o Liverpool melhor controla o meio-campo, e o faz com mais eficiência quando tem Fabinho à disposição, o que não acontecerá no sábado. O encaixe é um pouco preocupante para o Flamengo porque nem Willian Arão e nem Gerson são jogadores particularmente fortes. Além disso, o Liverpool atua sempre com um tridente por ali contra apenas dois meias centrais do Flamengo. Arrascaeta precisará saber dosar bem as chegadas à área com a recomposição para não deixar seus companheiros em inferioridade numérica. Gabigol pode ajudar, pressionando o primeiro volante, que deve ser Henderson, caso Van Dijk se recupere a tempo. E há um agravante: Firmino, com frequência, recua para o meio-campo para armar as jogadas e congestiona ainda mais o setor.

– Bola parada

Van Dijk, do Liverpool (Divulgação)

Os desfalques ajudam aqui. Matip, Lovren e Fabinho estão entre os jogadores mais altos do Liverpool e, machucados, nem viajaram ao Catar. No entanto, Van Dijk, caso jogue, tem mais ou menos a mesma altura de Pablo Marí e é uma forte ameaça na bola aérea. E depois do zagueiro espanhol, nenhum jogador de linha titular do Flamengo se aproxima dos 1,90 metros, ao contrário de Joe Gomez (1,88) e Henderson (1,87). E mesmo entre os baixinhos do Liverpool, há bons cabeceadores, como Mané e Wijnaldum, porque não necessariamente esse tipo de jogada depende de quem sobe mais. O Liverpool tem variações nas suas cobranças e um batedor esperto em Alexander-Arnold – o escanteio contra o Barcelona foi mais inteligente do que alto. Shaqiri, reserva, também pega bem na bola. O próprio lateral direito consegue chutar bem direto ao gol. Contra o Chelsea, nesta temporada, marcou em cobrança ensaiada na qual Salah rolou para ele na entrada da área. Contra o Aston Villa, ele cruzou à meia altura na primeira trave para Mané desviar sem precisar sair do chão. Diante do Napoli, o centro de Milner, outro competente cobrador, foi aberto para a marca do pênalti, onde Lovren, quase sozinho, completou.

– Bola nas costas, o calcanhar de Aquiles

Nos primeiros anos de Jürgen Klopp, o Liverpool foi marcado por um ataque eletrizante e uma defesa cheia de buracos. Isso mudou com as chegadas de Van Dijk e Alisson. A última temporada foi de excelência na retaguarda, com 21 jogos de Premier League sem sofrer gol, e a própria final da Champions foi vencida mais na destruição do que na criação. Alguma coisa, porém, está diferente. Em 28 partidas nesta temporada, excluindo a derrota para o Aston Villa, na última terça-feira, com um time jovem demais, o Liverpool sofreu pelo menos um gol em 22. Alguns são de desatenção e bola parada, mas muito perigo é criado explorando espaços nas costas dos laterais, excelentes na frente, nem tanto assim atrás, ou com passes por trás da linha alta defensiva. Aqui, o negócio fica pior para os ingleses sem Van Dijk, zagueiro que tem a melhor recuperação. O Monterrey criou uma série de situações dessa maneira, e o Flamengo também pode explorar muito bem isso. Um lançamento de Everton Ribeiro para Bruno Henrique nas costas de Arnold, por exemplo, pode deixar o atacante rubro-negro em ótima situação mais de uma vez.

– Posse de bola nem sempre fértil

Klopp é conhecido por gostar do futebol “heavy metal”, sempre vertical, objetivo, rápido, a mil por hora. No entanto, na última temporada, conseguiu introduzir ao Liverpool a capacidade de cadenciar as partidas com a posse de bola. Importante também para poupar um pouco seus jogadores e administrar a vantagem. Mas, como seus meias não são os mais criativos, essa troca de passes nem sempre é fértil. Houve muito sofrimento para criar oportunidades nos últimos 18 meses contra equipes que se fecharam bem e isso ficou particularmente claro contra o Napoli, em Anfield. Ancelotti fechou a entrada da área e as diagonais e deixou o Liverpool trabalhar na intermediária e nas laterais – Arnold no banco de reservas diminuiu a força vermelha por ali. Por outro lado, praticamente não teve saída e marcou seu gol aproveitando que Van Dijk estava caído pedindo uma falta. Como toda estratégia, é necessário pesar prós e contras e se defender demais também não combina com as características de Jesus.

– Rápidas transições

Salah e Mané

Mas algum ajuste o treinador terá que fazer na maneira de jogar do Flamengo. Se o time brasileiro marcar alto demais, ficar o tempo inteiro no campo de ataque e disputar a posse sem parar, terá que trabalhar com erro zero. Quando recupera a bola, não há time na Europa que chegue ao gol adversário com mais rapidez do que o Liverpool, com a velocidade de Salah e Mané, com troca de passes de primeira ou nas inversões de jogo nas quais Arnold tem se especializado. Essa bola longa diagonal do jovem lateral direito inglês causou muitos danos nas últimas semanas. Quando o contra-ataque chega ao mano a mano, ao 2 x 2 ou 3 x 3, a qualidade individual do trio de ataque costuma prevalecer. O principal ponto de preocupação do momento tem que ser a projeção de Salah nas costas de Filipe Luis, que tem se mostrado um pouco lento na recomposição.

– De repente os caras ligam o turbo

O Liverpool tem um retrospecto quase perfeito nesta temporada. Passou em primeiro na fase de grupos da Champions League e lidera o Campeonato Inglês com 16 vitórias e um empate. Mas engana-se quem acha que tem sido fácil. Em muitos jogos travados, contou com a sorte. Em outros, porém, soube a hora certa de pisar no acelerador e buscar os gols que precisava. Um período de 10 a 15 minutos de alta intensidade, sem deixar o adversário respirar, ganhando todas as bolas na intermediária e com cruzamentos incessantes. Uma espécie de abafa organizado que costuma render frutos. E é bom o Flamengo nunca achar que o jogo está ganho. O Liverpool arrancou resultados sete vezes (Sheffield United, Leicester, Manchester United, Tottenham, Aston Villa, Crystal Palace e Arsenal, pela Copa da Liga) com tentos a partir dos 25 minutos do segundo tempo.

– Elementos surpresas

Origi comemora o segundo gol do Liverpool contra o Tottenham (foto: Getty Images)

Todo mundo conhece Salah, Mané e Firmino. Mas o Liverpool, embora não tenha o elenco mais profundo do mundo, tem alguns coadjuvantes mais discretos que também conseguem resolver. Wijnaldum tem sido uma revelação no meio-campo e, se tiver condições físicas de jogar, chega à área com qualidade para finalizar – fez dois gols contra o Barcelona naquela semifinal. Naby Keita foi contratado como um grande reforço, exigiu muita espera do Liverpool, mas não decolou em sua primeira temporada. Parece, porém, estar começando a florescer. Suas infiltrações foram a melhor notícia do ataque vermelho contra o Monterrey. Recuperado de uma séria lesão que o afastou durante um ano quase inteiro, Oxlade-Chamberlain parece em forma e tem um chute de longa distância muito perigoso. Divock Origi, primeiro reserva do ataque, geralmente pelo lado esquerdo, tem se especializado em gols decisivos. Arrancou uma vitória no dérbi contra o Everton, outra essencial para manter o Liverpool na briga pelo título contra o Newcastle, fez dois no Barcelona e outro na final europeia contra o Tottenham. Nesta temporada mesmo, foi responsável pelo empate em 5 a 5 contra o Arsenal na Copa da Liga Inglesa. Shaqiri parece ter voltado às graças de Klopp e tem jogado mais. É um jogador que nunca cumpriu suas expectativas, mas mais pela falta de regularidade do que de qualidade.

 – Elenco curto

Hoever, do Liverpool (Foto: Getty Images)

O único jogador adulto que Klopp contratou para esta temporada foi o goleiro reserva Adrián, que ganhou oportunidades nas primeiras partidas com a lesão de Alisson. O elenco do Liverpool tem algumas falhas nas reposições da defesa. O lateral direito reserva, Nathaniel Clyne, machucou-se com seriedade e retorna apenas ano que vem. O lateral esquerdo reserva não existe. Isso significa que, na ausência dos titulares, Gomez e Milner são improvisados pelos lados, o que estressa a rotação dos seus setores de origem. O problema está particularmente sério no Catar porque dois zagueiros – Lovren e Matip – sequer viajaram, e Van Dijk chegou doente. Gomez era o único zagueiro de origem em forma contra o Monterrey e precisou ser acompanhado por Henderson. Nesse jogo, Klopp não podia nem compor seu elenco com a garotada porque ela estava jogando contra o Aston Villa, pela Copa da Liga Inglesa. Depois do jogo, o zagueiro Sepp van den Berg e o defensor Ki-Jana Hoever viajaram ao lado do terceiro goleiro Caoimhín Kelleher para completar os 20 jogadores que já estavam no Oriente Médio. Van den Berg e Hoever podem ajudar, mas ainda são garotos de 17 anos, com apenas seis jogos pelo time principal entre eles – contando o de terça-feira.