A saída de Joseph Blatter da presidência da Fifa anunciada na terça-feira abriu uma corrida. Quem ocupará a presidência da entidade? Depois do Príncipe Ali bin al-Hussein se declarar como candidato, as apostas estão em Michel Platini, atual presidente da Uefa. Quem resolveu se candidatar também foi Zico, ídolo do futebol brasileiro.

“Por que não? Minha vida sempre foi dentro do futebol. Uma paixão que exerci com seriedade e respeito no Brasil e em outros países. Jantando com Sandra pensei nisso. Minha mulher e meus filhos me apoiaram. Fui Ministro dos Esportes, tenho experiência com meu clube e no apoio ao Kashima, ao Japão. Penso no futebol acima da política. Não tenho apoio ainda, mas se é aberto eu posso me candidatar à Fifa. Ainda é uma ideia… Quem sabe?”
Disse Zico na sua página no Facebook

Como alguém pode ser candidato a presidente da Fifa?

Zico quer ser candidato, mas ele pode? É bom lembrar que a Fifa mudou o seu sistema eleitoral para 2015. Neste post do dia 6 de junho de 2014, mostramos que a Fifa mudou o sistema de disputa. Além de precisar ser indicado por uma federação nacional, como em 2011, passou a ser necessário o apoio de ao menos cinco outras federações nacionais. Também é preciso que o candidato tenha trabalhado em dois dos últimos cinco anos com futebol. Sendo mais específico, o regulamento da eleição diz o seguinte:

“O candidato deve ter exercido um papel ático em uma federação de futebol (como membro da diretoria, membro de comitê, árbitro e assistente, treinador ou qualquer pessoas responsável pela parte técnica, média ou administrativa em relação à Fifa, confederações, federações, ligas ou clubes, ou como jogador) por dois dos últimos cinco anos antes de se propor como candidato (cf. art. 24 par. 1 do Estatuto da Fifa)”.

Com isso, a Fifa impediu que um jornalista como Grant Wahl, candidato em 2011, concorresse. Zico foi técnico da seleção do Iraque por um ano e dois meses.  Trabalhou também no Al Gharafa, do Catar, por cerca de seis meses e também dirigiu o Goa, da Indian Super League, em um campeonato que durou cerca de cinco meses. Somando esses trabalhos, Zico somaria os dois anos necessários. Zico precisaria da indicação de uma federação nacional e o apoio de outras cinco. Considerando quem dirige a CBF, podemos considerar que será difícil que o Galinho tenha esse apoio. Talvez consiga o apoio do Japão, onde foi ídolo. Precisará trabalhar por isso nos próximos meses para poder ser oficialmente candidato.

O medo do poder excessivo à Uefa

Mais do que quem será candidato à presidência da Fifa, é preciso pensar em como chegar lá. Houve uma quebra de sistema montado por João Havelange e mantido por Joseph Blatter, que deu força a federações pequenas do futebol em vez de trabalhar pelos grandes países. Em uma eleição de 209 federações, todas com voto com peso igual, valorizar os pequenos significa ter apoio da maioria tranquilamente. Os europeus estão bradando contra a Fifa, mas o resto do mundo olha com desconfiança. Afinal, o mundo não quer uma Fifa voltada à Europa e essa á uma preocupação justa.

O candidato que quiser realmente ter chance de vencer precisará olhar para além da sua própria federação. Esse é o principal desafio de qualquer candidato. Blatter, embora suíço, sempre foi um candidato que se aproveitou do sistema de Havelange e mantido por ele de ir até a África, Ásia e América Central, em países com pouca força política, mas com votos igualmente válidos na eleição. São estes países que olham com desconfiança para um nome como Michel Platini, que é presidente da Uefa e, até onde se sabe, fará tudo para defender os interesses da entidade que preside atualmente. Quem, na Ásia, África ou na América gostaria de ver um presidente da Fifa defendo a Europa, a federação com mais poder econômico?

O desafio de quem for candidato será mostrar que a ideia é governar para todos os países. O Príncipe Ali teve forte apoio da Europa, embora seja asiático. Precisa mostrar, em seu discurso e em projetos, que não pretende ser um fantoche dos europeus e governar para todos. Esta é a principal preocupação em todo mundo. A Uefa representa 54 federações (sendo 53 com poder de voto, já que Gibraltar é um membro ainda sem esse privilégio). Será preciso muito mais do que conquistar só a Uefa.

Todo esse medo da Europa tem uma razão de ser. Uma delas é histórica. O último presidente antes de Havelange e Blatter foi Stanley Rous, inglês, que ficou de 1961 a 1974. Inglês, sua gestão privilegiava fortemente a Europa. E o que o derrubou, em grande parte, foi o fato de Rous ter se mantido firme no apoio ao Apartheid na África do Sul. O apoio do presidente da Fifa ao regime segregacionista, mesmo com a África do Sul sendo banida da CAF quatro anos depois de ser aceita na Fifa, foi um grande problema. A federação sul-africana foi expulsa da Fifa em 1961, mas o dirigente sempre pressionou por uma readmissão. Isso o colocou em rota de colisão com a Confederação Africana de Futebol (CAF). Isto seria crucial para a sua queda.

Candidato a reeleição em 1974, acabou derrotado por Havelange, que teve forte apoio da África e Ásia. O apoio ao Apartheid, se já não fosse humanamente desprezível, ainda era politicamente pouco inteligente. Rous não ligou de entrar em confronto com uma confederação inteira.  Não percebeu que a Fifa não era mais um clube de dirigentes europeus. Foi o seu grande erro, quer criou uma era.

João Havelange mostraria que o caminho era levar o futebol a todos os cantos – e coletar todos os votos. Com este sistema, Havelange se manteve no poder até 1998, quando elegeu seu sucessor, Blatter, diante do favorito Leonnart Johansson. Foi assim que Blatter se manteve no poder desde então. Este é o momento de propor uma forma de lidar com a questão, que não pode ser nem um eurocentrismo como era com Rous, nem em supervalorizar os países minúsculos em busca e votos, em detrimento do futebol.

Stanley Rous, símbolo de uma Fifa eurocentrista e elitista  (AP Photo/Stf/Fra)
Stanley Rous, símbolo de uma Fifa eurocentrista e elitista (AP Photo/Stf/Fra)
A questão dos clubes

Em um mundo onde o futebol de seleções é muito questionado, os clubes gostarão de ser ouvidos. Especialmente os europeus, mas será preciso chamar à mesa os representantes dos clubes ao redor do mundo para tratar das questões de calendário, liberação para jogos de seleção e até um ajuste para adequar os interesses de todas as partes.

Os clubes europeus são organizados e conseguem exercer mais pressão dentro da Uefa e, consequentemente, na Fifa. Quem for candidato precisará lidar com esses interesses e saber lidar com as reclamações dos clubes de fora da Europa dos assédios que sofrem em suas categorias de base, por exemplo.

A Fifa vive dos eventos de seleções, especialmente a Copa do Mundo. Mas para manter o principal evento do mundo do futebol no melhor nível possível, será necessário adequar questões de calendário, um dos principais problemas do futebol atual. Isso sem falar das compensações aos clubes por uso dos jogadores selecionáveis e por eventuais danos por lesões que esses jogadores sofrem aos serviços das seleções.

Como sempre, muita política

Um candidato que queira vencer a corrida precisará contar com o apoio dos seus locais, mas precisará principalmente mostrar um plano global para o futebol, ouvindo a maior parte dos envolvidos. Será preciso olhar para todos os continentes. Se Havelange e Blatter tem alguma coisa boa como legado, forçando muito, é exatamente o fato de todo mundo saber que tem importância.

É claro que é absolutamente discutível o fato de Ilhas Cayman ter o mesmo peso de voto do Brasil, ou Argentina, ou qualquer outro país relevante. Mas a questão é que isso não irá mudar. Será preciso ouvir, entender e garantir, neste momento, que os extremos sejam evitados. A Uefa não pode ter um poder excessivo, que faça com que seus clubes ganhem um poder exagerado e diminua o futebol de seleções e massacre o poder de decisões de outros países em relações a questões globais do futebol. Por outro lado, é preciso parar de olhar só para os países pequenos em busca de uma politicagem que só favorece uma máquina de votos. Este é o ponto que fará a Fifa mudar, de verdade.